Covid-19: especialistas alertam para falhas em estudo da hidroxicloroquina

O maior estudo da hidroxicloroquina para Covid-19 teve muitas repercussões no meio científico, incluindo a suspensão do uso pela OMS.

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O maior estudo da hidroxicloroquina para Covid-19, publicado no The Lancet, teve muitas repercussões no meio científico, incluindo a suspensão do uso da hidroxicloroquina nos estudos liderados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Neste cenário, mais de cem especialistas se reuniram e enviaram uma carta ao periódico apontando falhas no estudo. Dentre os questionamentos, está o tratamento dos dados (que não foram publicados para que possam ser analisados pelo restante da comunidade científica) e a ausência de revisão por comitê de ética.

Outros pontos destacados foram o fato de não haver menção aos países ou hospitais que contribuíram para a fonte de dados e nenhum reconhecimento por suas contribuições, além de as doses diárias médias de hidroxicloroquina terem sido 100 mg mais altas que a recomendada pela Food and Drug Administration (FDA), enquanto 66% dos dados são de hospitais norte-americanos.

Hidroxicloroquina na Covid-19

O estudo em questão foi uma análise de registro multinacional, que avaliou o uso de hidroxicloroquina ou cloroquina com ou sem um macrolídeo para o tratamento de Covid-19 utilizando dados de 671 hospitais em seis continentes. Foram incluídos pacientes hospitalizados entre 20 de dezembro de 2019 e 14 de abril de 2020, com um resultado positivo para SARS-CoV-2.

Além de não terem encontrado benefício no uso das drogas contra o novo coronavírus, os autores concluíram que houve um risco aumentado de mortalidade intra-hospitalar nesses pacientes quando comparados ao grupo controle (hidroxicloroquina – 18%; hidroxicloroquina com um macrolídeo – 23,8%, cloroquina – 16,4%; e cloroquina com um macrolídeo – 22,2%). Além disso, os grupos que usaram as medicações apresentaram maior risco de arritmias ventriculares durante a hospitalização.

Outras possíveis falhas no estudo

Além dos pontos levantados, a carta diz que alguns números apresentados no estudo não estariam corretos. O jornal The Guardian averigou, por exemplo, que o número de mortos na Austrália, que seria de 73 até o dia 23 de abril segundo o estudo, é maior que o registrado por todo o país até essa data de acordo com o levantamento da Universidade Johns Hopkins.

Leia também: Associações médicas se manifestam contra o uso da hidroxicloroquina na Covid-19

Na África, pela expressividade da amostra, a carta diz que o estudo estaria incluindo 25% de todos os infectados do continente, e 40% de todos os óbitos, dados que seriam pouco prováveis de conseguir de forma detalhada, já que o nível de digitalização nos hospitais de lá é muito baixo.

Outro questionamento é com relação a incidência de doenças prévias. Apesar de ter informações de seis continentes, o número de pacientes com doenças como diabetes e cardiopatias é “extraordinariamente pequena”, segundo a carta.

Na última sexta-feira, 29, a The Lancet publicou uma correção, alterando o número de pacientes analisados na Ásia (8.101 em vez de 4.402) e na Austrália (63). Segundo a nota, um hospital que estava como pertencente à designação continental da Australásia deveria ter sido designado ao continente asiático, por isso o erro. Apesar disso, não alterou os resultados principais do estudo, nem comentou nada mais detalhado sobre o assunto.

Take-home message

  • Ainda há muitas controvérsias a respeito do uso da hidroxicloroquina na Covid-19;
  • Mais de 100 especialistas se reuniram e enviaram uma carta ao The Lancet apontando falhas no maior estudo publicado sobre o tema, que revelava aumento de mortalidade e de arritmias com o uso da droga;
  • Na prática, não há indicação formal do uso da droga em pacientes com Covid-19. Há alguns ensaios clínicos randomizados em andamento que podem ajudar a esclarecer os riscos e benefícios do uso do medicamento.

Referências bibliográficas:

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