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Covid longa: pacientes podem ter problemas de raciocínio e memória de longo prazo, aponta pesquisa britânica

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Pesquisadores do Imperial College e do King’s College apontam mais algumas prováveis complicações da Covid longa: alterações cognitivas que prejudicam a memória, o raciocínio e a capacidade de resolução de problemas.

Em uma pesquisa que envolveu dezenas de milhares de voluntários, o grupo notou que pacientes “recuperados” da Covid-19 apresentaram resultados piores em testes que medem a cognição.

Em comparação com indivíduos que não tiveram a enfermidade, o desempenho desses em especial chega a ser pior que o de quem sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) ou teve o diagnóstico precoce relativo a problemas de aprendizagem.

A pesquisa indica ainda que os afetados pela doença devem ser acompanhados por mais tempo, até que a ciência compreenda melhor todos os efeitos de longo prazo e desenvolva possíveis tratamentos para eles.

Estima-se que, em junho de 2021, 634 mil indivíduos sofram com os impactos da Covid longa na Inglaterra.

Saiba mais: Hospitais do SUS visam reduzir tempo de permanência nas UTIs e reabilitar pacientes pós-Covid-19

covid longa

Detalhes do estudo sobre a Covid longa

Os especialistas desenvolveram um questionário chamado Great British Intelligence Test (Grande Teste Britânico de Inteligência), que foi dividido em 16 etapas. Cada uma delas media uma habilidade mental, como a capacidade de fazer analogias verbais, definir palavras ou se lembrar e interpretar desenhos e fotografias.

O teste fez parte de um projeto que se transformou em documentário do programa Horizon, que foi ao ar na BBC. Essa imensa visibilidade fez com que 81.337 pessoas respondessem às perguntas entre janeiro e dezembro de 2020.

Na sequência, os pesquisadores identificaram 326 indivíduos que tiveram Covid-19 ao longo do ano passado, mas que não precisaram ser internados. Outros 192 respondentes sofreram com a forma mais severa da doença e passaram um período de tempo no hospital.

A seguir, eles compararam o desempenho cognitivo daqueles que se infectaram com os demais, que não foram diagnosticados com a enfermidade dentro do período estabelecido.

“Os pesquisadores avaliaram a prevalência de sintomas prolongados de Covid-19 em mais de 500 mil adultos no Reino Unido. Neste estudo, a prevalência da doença auto-relatada foi de 19%. Entre aqueles com histórico da doença, a prevalência de, pelo menos, um sintoma 12 semanas após o episódio da enfermidade foi de 37%, sendo que aproximadamente 15%  apresentavam três ou mais sintomas. Estes dados agregados resultam em uma estimativa de acometimento de cerca de 5% da população do Reino Unido por sintomas de Covid-19 longa. Os investigadores encontraram dois clusters predominantes de sinais relacionados à fadiga e sintomas respiratórios. Mulheres, pacientes com idade avançada, obesos, tabagistas e indivíduos com histórico de hospitalização pela Covid-19 foram aqueles que apresentaram maior risco de sintomas persistentes”, esclareceu o médico intensivista, pesquisador do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Regis Goulart Rosa, em entrevista ao Portal de Notícias da PEBMED.

O pesquisador, que também faz parte do comitê executivo da coalizão Covid-19 Brasil e do comitê diretivo do grupo de trabalho de uniformização de desfechos em Covid longa da Organização Mundial de Saúde (OMS), analisou que os resultados do estudo do Imperial College vão ao encontro dos dados de pesquisas realizadas na temática de Covid longa.

“Uma grande parcela das pessoas acometidas pela Covid-19 apresenta sintomas prolongados com impacto importante na qualidade de vida, dificultando, inclusive, o retorno ao trabalho ou aos estudos. Fadiga e sintomas respiratórios como falta de ar e tosse são predominantes; contudo, outros sinais como dificuldade de concentração, dificuldade de sono e ansiedade também afetam uma importante parcela dos pacientes com Covid longa. De novo, o estudo do Reino Unido traz dados sobre possíveis fatores de risco para essa temática (sexo feminino, idade avançada obesidade, tabagismo e hospitalização prévia por Covid-19). Apesar destes achados merecerem investigação adicional em relação a causalidade, eles são muito úteis para identificação de populações de risco de Covid longa que possam se beneficiar de estratégias de triagem e reabilitação precoce”, pontuou o médico Regis Goulart Rosa.

Principais resultados

O estudo mostrou que quem passou pela Covid-19 teve uma performance inferior em comparação com quem não sofreu com a enfermidade. A gravidade da doença também influenciou no desempenho: os indivíduos que foram internados se saíram pior ainda.

Quem precisou de intubação, apresentou -0,47 ponto em relação à média de todos os participantes (que tinham um 0 como valor de referência). Já quem teve a doença, mas ficou em casa, sem necessidade de cuidados mais intensivos, teve -0,26.de pontuação.

Esses cálculos levam em consideração as notas que as pessoas tiraram no teste para montar um padrão médio. A partir daí, é possível contrastar com o resultado de grupos específicos (como os que tiveram Covid-19) e ver o quanto eles diferem dos demais participantes.

Para entender melhor, os pesquisadores britânicos indicaram que pessoas que tiveram AVC apresentaram um déficit de -0,24 no mesmo teste, enquanto indivíduos com dificuldades de aprendizagem ficaram com -0,38.

Explicando melhor: a capacidade cognitiva de pessoas que tiveram casos graves de Covid-19 foi a mais afetada de todas.

“A título de comparação, 0,47 equivale a sete pontos num teste de QI”, escreveram os autores, no artigo que foi publicado no periódico científico E-Clinical Medicine, que pertence ao grupo The Lancet.

Leia também: Teste de saliva para diagnóstico do Covid-19

Orientações aos médicos

Segundo especialistas, hoje ainda não existe uma uniformização diagnóstica de Covid longa. Como os sintomas são bastante heterogêneos, a avaliação médica em conjunto com a equipe multidisciplinar é necessária para estabelecer a causalidade com a Covid-19 e o estabelecimento de um plano terapêutico de reabilitação.

“Alguns pacientes podem necessitar de reabilitação física, outros de reabilitação de saúde mental ou cognição, ressaltando a importância de uma avaliação global da saúde do paciente através de história clínica, exame físico e testes complementares, quando indicado”, ressaltou o médico do Hospital Moinhos de Vento.

“Contudo, o estabelecimento da causalidade dos sintomas com a doença nem sempre é de fácil estabelecimento. Nesse sentido, muitas doenças potencialmente graves (câncer, insuficiência cardíaca, hipotireoidismo, por exemplo) compartilham dos mesmos sintomas de Covid longa, enfatizando a necessidade de uma avaliação detalhada para exclusão de diagnósticos diferenciais. Assim, a Covid longa acaba sendo um diagnóstico de exclusão. Um diagnóstico equivocado em um paciente com câncer, por exemplo, poderia levar ao atraso do diagnóstico e do tratamento. Outro grande desafio é a falta de estudos sobre terapias que possam contribuir para acelerar a recuperação de pacientes com a Covid longa, chamando atenção para a importância da pesquisa clínica nesta área do conhecimento”, complementou Regis Goulart Rosa.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED.

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Referências bibliográficas:

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