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Cuidados Paliativos: nos desencontros, o meu encontro

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Hoje, olhando para trás, enxergo que o Cuidado Paliativo sempre esteve presente na minha vida. Desde nova, antes mesmo de ingressar na faculdade, participei do processo de doença e final de vida dentro de casa com minha bisavó e depois, no início da residência, com meu querido avô, ambos acometidos de câncer. Mas, dentro da minha formação médica, como em muitas universidades, não tinha conhecimento dessa especialidade e a morte, apesar de presente, não era um assunto de destaque.

Acabei escolhendo a Clínica Médica por gostar de cuidar de tudo, de todos e ao mesmo tempo não me identificar com nenhuma das especialidades conhecidas. Confesso que tinha perfil para médica de família e comunidade, por imaturidade na época não banquei essa potencialidade. Até hoje as pessoas perguntam se fiz, me sinto lisonjeada.

A residência de Clínica Médica me trouxe muito sofrimento, muitos questionamentos quanto ao cuidado prestado a começar pelo meu avô, que como disse, faleceu logo no início de março do primeiro ano. A última semana de vida dele foi muito triste, para mim, uma lição cruel do que não devia ser feito em pacientes em final de vida e processo ativo de morte. Uma das minhas grandes mestras de Cuidado Paliativo diz que fazemos o que sabemos, como não aprendemos durante a graduação seguimos com a melhor das intenções, crentes que estamos ofertando o melhor por falta de conhecimento.

No hospital da residência a maioria dos paciente era muito idosa (70-90 anos) com múltiplas morbidades, ao longo dos dois anos me peguei por diversas vezes questionando minhas ações e o cuidado prestado. Foi durante essa residência que tive contato com Cuidado Paliativo, mesmo que com conceitos bem equivocados, como a “bomba de morfina”. Terminei a residência ainda sem saber para onde ia, pensei por um momento no R2 em Geriatria, fiz optativo, mas não rolou. Como tive muito contato com transplante hepático considerei também, mas não foi. Saí sabendo o que não queria. Senti que precisava amadurecer para decidir qual caminho profissional seguir.

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Acredito que ao longo da graduação e da residência nos distanciamos de quem somos, do por quê escolhemos Medicina; simplesmente vamos, sem pensar, seguimos o fluxo. O resultado dessa desconexão é, um belo dia, não ver sentido no que fazemos o que pode resultar em outras situações como depressão, frustração, e até burnout.

Por não saber que caminho tomar, decidi fazer especialização em Cuidados Paliativos enquanto trabalhava no mesmo hospital da residência, no setor de emergência. Acreditava que seria algo que independente da especialidade escolhida preencheria uma lacuna na minha formação, agregando um conhecimento essencial. Ao longo dos dois anos de especialização cresci e me encontrei. Cuidados Paliativos fez com que a Medicina fizesse sentido para mim, me conectou à motivação da minha escolha profissional e, pela primeira vez, tive uma sensação incrível de pertencimento.

A identificação foi tão grande que assim que finalizei a especialização mudei para São Paulo, para ingressar na residência de Medicina Paliativa, pois queria saber como era o “fazer” de tudo que havia aprendido na teoria. Foi um ano exaustivo, de aprendizado e trocas intensas, como também de reafirmação da minha escolha. Cuidar de pessoas, muitas delas no final de vida, no sentindo mais profundo do verbo me enriquece como ser humano. Diariamente, tenho a oportunidade de entrar em contato com minha própria finitude, com a incerteza da vida, com o que realmente importa e isso não tem preço.

O que aprendi é que nos desencontrarmos é uma linda oportunidade de nos conhecermos. Desde meu primeiro ano de residência comecei a fazer terapia. Hoje já faz cinco anos. Dedicar um tempo para si é o mínimo para quem cuida de outras pessoas. Foi no desencontro comigo que pude me encontrar no Cuidado Paliativo.

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