Enfermagem

Cutting: a automutilação em crianças e adolescentes [Setembro Amarelo]

Tempo de leitura: 4 min.

O cutting ou automutilação é um comportamento que tem aumentado, não havendo um consenso científico sobre as causas deste comportamento, mas já se sabe que há uma associação com transtornos mentais, levando a um impacto negativo na vida do jovem que se automutila. O resultado da automutilação gera uma perturbação crônica que gera riscos sociais, educacionais, instrumentais, físicos e psicológicos.

É considerado um comportamento autodestrutivo que tem por objetivo punir a si próprio, frente a um sofrimento muitas vezes impossível de ser verbalizado ou expressado. O comportamento afeta principalmente pessoas jovens. As crianças e principalmente os adolescentes são os mais afetados pelo problema, podendo o comportamento chegar à fase adulta. A pouca resiliência ao sofrimento psíquico e a dificuldade de pedir ajuda leva os jovens a ter mais vulnerabilidade para o sofrimento psíquico.

Saiba mais: Automutilação é uma das principais causas de morte entre as novas mães

Formas de cutting

O comportamento pode gerar lesões leves, o que propicia um comportamento plausível de ser realizado por muito tempo pelo jovem. Essas lesões geralmente são arranhões na pele, corte com objetos, se queimar com objetos quentes ou pontas de cigarro, podemos ver também lesões mais graves, realizadas com tesoura, navalha ou outro instrumento. Há a possibilidade da pessoa introduzir corpos estranhos no corpo, utilizar agulhas para se perfurar e realizar pequenas amputações, principalmente em orelhas, nariz e digitais. E podem ser graves quando ocorre a auto nucleação dos olhos ou autocastração. O motivo pelo qual as pessoas realizam o cutting se relaciona ao sofrimento psíquico, que pode ter origem fenomenológica diversa, como: relacionamento conflituoso, traumas familiares, angústia, separação familiar, transtornos de ansiedade, psicoses, frustrações, culpabilização por resultados de problemas familiares, bullying e crianças e adolescentes expostos a violência. 

O uso do corpo como expressão do pensamento é algo antigo na sociedade, os humanos usam o corpo para se comunicar ou mesmo sob o aspecto da inconsciência humana expressar formas de viver e conviver. O corpo fala, se comunica e muitas vezes envia mensagens importantes para que os profissionais de saúde possam identificar o sofrimento humano. Na transição da fase infantil, da criança para a adolescência é que a necessidade de expressão do corpo se torna urgente, é um reconhecimento existencial de quem somos. Nessa fase as modificações psíquicas e corporais, além daquelas relacionadas às relações podem gerar grande sofrimento psíquico nesses jovens. 

A automutilação se relaciona mais com a fase da adolescência que a fase infantil, podendo acontecer nas duas fases da vida. Geralmente a falta de suporte familiar e de compreensão das modificações psíquicas e corporais estabelecem uma grande vulnerabilidade. Na verdade, a automutilação é uma forma de alívio da angústia frente ao sofrimento psíquico. Alguns estudiosos revelam que a automutilação alivia uma dor não compreendida. Ao gerar um corte ou lesão a pessoa cria um ponto de fixação de dor e consegue racionalizar uma proposição, para uma dor não dimensionada ou compreendida anteriormente. Talvez sentir tamanha dor, necessite de uma justificativa física, que quando inexistente gera maior sofrimento psíquico. O motivo que gera essa dor ainda não é bem compreendido, mas é certo que a expressão é um sinal de pedido de socorro, de expressão ou comunicação de que algo está acontecendo.

A prática da automutilação é denominada de self cutting (cortando a si mesmo) e acontece quando o jovem quer deslocar o sofrimento psíquico para a dor corporal, entendida naquele momento como mais suportável. Esse comportamento leva a perda de identidade e acaba por aumentar os conflitos internos e gera a continuidade do comportamento. Afinal, explicar o comportamento e deixá-lo pode ser mais difícil porque leva a pessoa ao encontro consigo e seus problemas. Reconhecer o comportamento pode ser algo muito difícil o que retroalimenta o comportamento. Por esse motivo, se faz importante que profissionais da saúde conheçam  informações sobre a automutilação e desenvolvam planos de cuidado, que nesse caso passa muito mais por ações sensíveis ao jovem, humanizados e focados na criação de vínculo, mostrando para o indivíduo que há outras saídas que não sejam as realizadas no comportamento de automutilação.

Cuidando do jovem que provoca automutilação

  • Realize o acolhimento e seja sensível às questões do jovem;
  • Construa vínculo com o jovem;
  • Não faça julgamento frente ao comportamento isso pode afastar o jovem do serviço de saúde;
  • Avalie se o jovem passa por qualquer tipo de violência, inclusive o bullying;
  • avalie as questões familiares e os locais onde a automutilação acontece;
  • Avalie o contexto escolar e a relação do jovem em suas relações;
  • Entenda como o cutting começou;
  • Crie dispositivos de cuidado junto a criança ou adolescente;
  • Atente-se quando o usuário for criança de utilizar formas lúdicas de intervenção;
  • Atente-se quando o usuário for adolescente de investigar as relações sociais e invista no trabalho em grupo, quando possível;
  • Converse com a família e a inclua no projeto terapêutico, esta tem papel fundamental no cuidado;
  • Avalie atividades que envolvam o físico e a expressão corporal, pode diminuir o comportamento de automutilação, justamente por gerar expressão corporal importante;
  • Aposte no afeto aliado ao processo técnico de intervenção, pessoas que sofrem precisam de outras pessoas e isso é uma das premissas mais importantes para o cuidado.

Leia também: Setembro amarelo: O suicídio no mundo contemporâneo

Lembre-se que estamos aqui para ajudar as pessoas a encontrar melhores caminhos na vida, para se afastar do sofrimento e de encontros mais positivos com a vida. Por isso, o julgamento deve ser afastado do processo de cuidado. Não cometa iatrogenias que podem ser irreversíveis levando pessoas em sofrimento a complicação de seu estado de adoecimento. Portanto, use o afeto e a humanização no processo de cuidado a pessoa em sofrimento. O serviço de saúde não deve ser uma barreira para o cuidado e sim o local de acolhimento. Realize atividades de discussão do assunto com a equipe e trabalhe o assunto na comunidade.

Referências bibliográficas:

  • Fortes, I. & Kother, M. Automutilação na adolescência – rasuras na experiência de alteridade. Psicogente. 2017, 20(38), 353-367. http://www.scielo.org.co/pdf/psico/v20n38/0124-0137-psico-20-38-00353.pdf
  • Lima C.E. Adolescência e Cutting: um corpo marcado pelo conflito psíquico. Unijuí – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (RS) Dez- 2019, 33f.
  • Vieira, Marcos Girardi, Pires, Marta Helena Rovani e Pires, Oscar CesarSelf-mutilation: pain intensity, triggering and rewarding factors. Revista Dor [online]. 2016, v. 17, n. 4 [Acessado 7 Setembro 2021] , pp. 257-260. 
Compartilhar
Publicado por
Rafael Polakiewicz

Posts recentes

Desafio diagnóstico de Guillain Barré: paresia de membros inferiores

A síndrome de Guillain-Barré apresenta muitos desafios na obtenção de um diagnóstico. Acompanhe os relatos…

11 horas atrás

Soluções para pacientes com fobias de ressonância magnética e tomografia

Realizar uma ressonância magnética ou tomografia costuma ser uma tarefa muito difícil para alguns pacientes.…

1 dia atrás

Whitebook – Demência Avançada

De acordo com o Whitebook Clinical Decision, a demência avançada é a fase final (e…

1 dia atrás

Revisão de guidelines para cistos pancreáticos

O acompanhamento de lesões císticas do pâncreas requer atenção constante do médico. Confira atualização recente…

2 dias atrás

Highlights International AIDS Conference 2022

Nesse episódio, confira os principais destaques do International AIDS Conference, o AIDS 2022. Não deixe…

2 dias atrás

Organizando a consulta: o guia Calgary-Cambridge

Em mais um texto da Série Comunicação Médica, vamos entender a importância da comunicação e…

2 dias atrás