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Depressão em pais de crianças com necessidades especiais

Tempo de leitura: 4 minutos.

Cuidar de uma criança com uma condição crônica de saúde pode culminar em sintomas depressivos entre mães e pais. De acordo com a literatura, ter um filho diagnosticado com uma condição crônica está associado a perdas, como a perda da criança saudável/não deficiente que os pais achavam que tinha, a perda da confiança em sua própria capacidade parental de proteger seu filho do perigo, a perda da liberdade devido às restrições relacionadas a doença ou a deficiência da criança, e a perda de sentimentos positivos por causa do menor tempo gasto com amigos ou com seus hobbies. Essas perdas constituem um dos principais fatores de risco para sintomas e transtornos depressivos.

As excessivas demandas de cuidados com a criança podem resultar em estresse crônico e exaustão física e emocional, o que também pode levar à depressão parental. Além disso, a depressão pode resultar de um grande sentimento de culpa (o que ocorre quando a condição crônica resultou do comportamento do pai ou da mãe ou de ambos). Por fim, quando os pais enfrentam a condição de risco de vida da criança (quando os tratamentos existentes podem falhar) ou condições de vida limitantes (quando a doença não pode ser curada e os pacientes poderão morrer em breve devido à doença), um humor negativo também pode ser um aspecto das reações antecipadas do luto.

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Com o objetivo de analisar a presença de sintomas e transtornos depressivos entre os pais que cuidam de uma criança ou adolescente com doença física crônica e/ou deficiência sensorial e/ou incapacidade física em comparação com os pais de crianças saudáveis/não deficientes, o Dr Martin Pinquart do Departamento de Psicologia da Philipps-Universität Marburg, Alemanha, realizou uma metanálise cujo artigo, denominado Depressive Symptoms in Parents of Children With Chronic Health Conditions: A Meta-Analysis foi recentemente divulgado pela Oxford University Press em nome da Society of Pediatric Psychology. Foi realizada uma revisão sistemática através de bases de dados eletrônicos, que identificou 460 estudos relevantes incluídos na metanálise.

Os principais resultados observados foram:

  • Os pais de crianças com condições crônicas apresentaram aumento leve a moderado dos sintomas depressivos em comparação aos pais de crianças saudáveis/não deficientes e normas de teste;
  • Doze estudos utilizando entrevistas clínicas estruturadas forneceram uma média ponderada de depressão de 20,9%. As maiores elevações foram encontradas entre pais de jovens com distúrbios neuromusculares, câncer, paralisia cerebral e doenças hematológicas;
  • As maiores diferenças entre os grupos nos sintomas depressivos foram encontradas em pais de crianças com distúrbios neuromusculares, como a atrofia muscular de Duchenne. Sentimentos depressivos nesses pais podem resultar da falta de controle sobre o curso da doença, estresse crônico por causa das demandas de cuidado, percepções de isolamento social e óbito iminente de seus filhos;
  • Dados das famílias com crianças com fissura labial e fenda palatina mostraram que algumas condições crônicas das crianças não levam, em média, a sintomas depressivos parentais elevados. O tratamento da fissura labial e da fenda palatina geralmente é concluído na primeira infância, e a condição não afeta mais a vida cotidiana da maioria dos pais em longo prazo;
  • No caso de doenças crônicas não progressivas, os pais se adaptam cada vez mais à condição crônica do filho, o que leva a níveis mais baixos de sintomas depressivos;
  • Enquanto os pais de crianças com distúrbios neuromusculares e câncer apresentaram elevações moderadas dos sintomas depressivos, as diferenças entre os grupos foram pequenas no caso da fibrose cística, e mesmo estatisticamente não significativas no caso de infecção por HIV (vírus da imunodeficiência humana – Human Immunodeficiency Virus)/AIDS (síndrome de imunodeficiência adquirida – Acquired Immunodeficiency Syndrome). Como a maioria das crianças infectadas pelo HIV ainda não tinham desenvolvido AIDS, algumas fontes de humor deprimido (como esperar perder a criança em um futuro próximo) provavelmente ainda não estavam presentes. Ademais, embora a fibrose cística seja uma condição limitante à vida, as taxas de sobrevida aumentaram;
  • As elevações dos sintomas depressivos foram maiores nos casos com menor duração da condição crônica, nas mães em comparação aos pais e nos pais em países economicamente menos desenvolvidos do que nos países desenvolvidos.

Ao comparar os resultados da metanálise atual com os resultados de uma meta-análise anterior sobre sintomas depressivos em crianças e adolescentes com condições crônicas, o autor relata ter obtido aumento dos sintomas nos pais do que nas crianças. Essa diferença pode indicar que os pais estão mais deprimidos porque estão mais conscientes das consequências negativas da condição de saúde da criança e que os pais tem sido mais expostos a situações estressantes do que seus filhos (por causa do envolvimento no manejo da doença, ou porque as crianças tendem a subnotificar seus sintomas depressivos ou evitam pensamentos sobre ameaças ou aspectos angustiantes de sua condição de saúde).

O autor menciona algumas limitações do estudo. Em primeiro lugar, apenas alguns estudos estavam disponíveis para algumas condições crônicas, como alergias e infecção por HIV/AIDS. Sendo assim, o autor relata não ter sido possível os cálculos para algumas condições crônicas, como a síndrome da fadiga crônica.

Em segundo lugar, como apenas 2,6% dos estudos incluídos forneceram taxas de depressão clínica, as taxas agrupadas são menos robustas do que as estimativas agrupadas de sintomas depressivos elevados. Em terceiro lugar, os pais foram sub representados na maioria dos estudos incluídos. Quarto, como a maioria dos dados reflete uma relação concorrente entre a condição crônica da criança e a depressão parental, os dados não permitiram testar relações causais.

Embora haja bons argumentos para a sugestão de que a condição crônica de uma criança leve a maiores sintomas depressivos dos pais, a depressão parental também pode ter um efeito no curso da condição da criança, por exemplo, quando a depressão interfere no gerenciamento eficaz da doença. Em quinto lugar, o autor descreve que não foi possível testar os efeitos moderadores de gravidade e prognóstico da condição crônica, ou a vulnerabilidade psicológica dos pais (por exemplo, conforme indicado pelos sintomas psicológicos antes do início da condição crônica da criança), porque os estudos geralmente não forneciam resultados separados para grupos com diferentes níveis dessas variáveis. Por fim, o autor relata que a ansiedade e outros sintomas devem ser abordados em futuras metanálises.

Apesar destas limitações, o autor conclui que ações para melhoria do atendimento da criança e do apoio a seus pais são necessárias, principalmente em países menos desenvolvidos economicamente. As maiores taxas observadas de sintomas depressivos nos pais de crianças com doenças neuromusculares, câncer, paralisia cerebral e doenças hematológicas hereditárias indicam que estes pais devem ser, em especial, selecionados para sintomas depressivos e receber atendimento psicossocial destinado a abordagem destes sintomas, se necessário.

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Autor:

Referências:

  • Pinquart M. Featured Article: Depressive Symptoms in Parents of Children With Chronic Health Conditions: A Meta-Analysis. J Pediatr Psychol. 2019 Mar 1;44(2):139-149.

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