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Destaques do Congresso Internacional da Síndrome Antifosfolípide

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A cada três anos, ocorre o Congresso Internacional da Síndrome Antifosfolípide (ICAPA), que reúne pesquisadores da SAF provenientes de todo o mundo. Esse ano, o ICAPA foi realizado na cidade de Córdoba, na Argentina, e trouxe vários trabalhos interessantes. Nesse texto, vou resumir alguns dos trabalhos que mais me chamaram a atenção.

síndrome antifosfolípide

1) Significado clínico de níveis séricos reduzidos do complemento na SAF catastrófica

Ponce et al. avaliaram 566 pacientes (com 578 eventos) incluídos nos CAPS Registry, o maior registro mundial de síndrome antifosfolípide catastrófica (CAPS), e encontraram dados de níveis séricos de complemento em 73 desses episódios. Os autores identificaram níveis baixos de C3 e/ou C4 em 58% desses episódios, especialmente em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico concomitante. Do ponto de vista clínico, não foi vista diferença entre as manifestações clínicas de pacientes com hipocomplementemia, no que diz respeito a microangiopatia trombótica, tripla positividade ou letalidade. Desse modo, os pesquisadores concluíram que a hipocomplementemia, apesar de frequente, não é um preditor de curso clínico mais grave ou maior letalidade.

2) Associação entre apneia obstrutiva do sono (AOS) e impacto clínico da SAF

Neste trabalho, nós avaliamos a presença de AOS, um fator de risco cardiovascular não tradicional que já foi correlacionado com um risco aumentado de doenças isquêmicas cardiovasculares e cerebrovasculares, e a sua correlação com fenótipo clínico, presença de elevação de marcadores de ativação endotelial e de dano acumulado em pacientes com SAF primária. 

Realizamos a avaliação do sono utilizando poligrafia portátil para a detecção de AOS em 60 pacientes portadores de SAF primária. Desses, 52 pacientes apresentaram exames com boa qualidade técnica para interpretação. Encontramos que 25% dos pacientes apresentaram AOS (índice de apneia-hipopneia ≥15); estes apresentaram uma tendência maiores taxas de eventos arteriais do que aqueles sem AOS. Além disso, a presença de AOS se associou de maneira estatisticamente significativa com maiores níveis de fator de von Willebrand e com um maior dano acumulado (medido pelo DIAPS), quando comparados com pacientes sem AOS. 

Desse modo, devemos estar atentos para a presença de AOS nos pacientes com SAF, uma vez que isso se associou com algumas características relacionadas a um pior prognóstico da SAF.

3) Modelo animal e distúrbio cognitivo na síndrome antifosfolípide

Um estudo muito interessante a respeito do distúrbio cognitivo na SAF foi apresentado. Nele, Fujieda et al. utilizaram um modelo animal como prova de conceito para a toxicidade neurológica provocada pelos anticorpos antifosfolípides. Os pesquisadores isolaram anticorpos monoclonais murinos contra a beta-2-glicoproteína I e os infundiram diretamente no terceiro ventrículo dos animais (os controles foram infundidos com placebo). Esses animais passaram a apresentar comportamentos ansiosos e distúrbio cognitivo. Na necrópsia cerebral, os autores identificaram ativação microglial patológica no hipocampo. 

O distúrbio cognitivo pode ocorrer em até 40% dos pacientes positivos para antifosfolípides e até 80% dos pacientes com SAF primária. Esse estudo é importante, pois demonstra de maneira elegante o potencial tóxico dos aPL para o sistema nervoso central. Como dica clínica, estejam sempre atentos para essa potencial complicação da doença.

4) Fatores relacionados à recorrência e morte em pacientes com SAF que apresentam hemorragia alveolar

Figueiroa-Parra et al. avaliaram dados 61 pacientes com síndrome antifosfolípide e hemorragia alveolar difusa incidente (30% possuíam lúpus; 90% foram confirmados através de broncoscopia), provenientes de diferentes unidades da Mayo Clinic. Dentre os tratamentos prescritos para esses pacientes, temos: 74% foram anticoagulados antes do evento de hemorragia alveolar, 48% receberam pulsoterapia com metilprednisolona, 13% ciclofosfamida, 23% com micofenolato mofetil, 20% rituximabe e 20% com plasmaférese. 

Os autores encontraram que a tripla positividade e a plaquetopenia foram associados com um risco aumentado de recorrência. Quando presente, a recorrência aconteceu dentro de seis meses do primeiro evento em todos os casos. A mortalidade foi alta em todos os subgrupos, mas a plaquetopenia foi o fator independente mais associado ao risco de morte. A presença de lúpus e o tipo de medicação utilizada não se associaram com risco de recorrência ou morte.

5) Vacinação contra a covid-19 e SAF 

Um trabalho publicado pelo nosso grupo avaliou a eficácia, segurança e níveis de aPL após o uso de CoronaVac. Trata-se de um estudo fase 4, controlado e pareado por sexo e idade. Foram incluídos 44 pacientes com síndrome antifosfolípide e 132 pacientes no grupo controle. Identificamos que a CoronaVac foi capaz de provocar uma alta resposta imune (semelhante aos controles) e apresentou um excelente perfil de segurança (não identificamos nenhum evento adverso significativo). Os níveis séricos de anticardiolipina e anti-beta-2-glicoproteína I não sofreram alterações significativas após a aplicação da segunda dose da vacina. Diante do fato de que tanto a vacina da AstraZeneca quanto a da Janssen foram associadas à ocorrência de trombose pela produção de anticorpos anti-heparina/fator plaquetário 4 (trombocitopenia trombótica induzida pela vacina), nossos dados são importantes para auxiliar o médico na tomada de decisão sobre qual vacina deve indicar para pacientes com SAF. 

6) Diabetes com fator de risco para recorrência de eventos trombóticos na SAF 

O aGAPSS é o principal instrumento validado para a predição do risco de recorrência trombótica em pacientes com SAF. No entanto, em seu cálculo, apenas 2 fatores de risco cardiovascular são levados em consideração: hipertensão e dislipidemia. 

Nosso grupo publicou um estudo prospectivo no qual foram avaliados 135 pacientes com síndrome antifosfolípide primária provenientes da coorte APS-Rio, que juntos somaram um tempo de seguimento superior a 600 pacientes-ano. Durante o período analisado, identificamos 23 eventos trombóticos (10 AVCi, 12 tromboses venosas e uma microangiopatia trombótica) em 20 pacientes. Com isso, a taxa de incidência calculada foi de 3,82 casos por 100 pacientes-ano. Os valores de INR foram identificados em 19 dos 23 eventos trombóticos; desses, 12 estavam no alvo (63,2%). Ou seja, a maioria desses eventos ocorreram em faixa terapêutica. Quando analisamos a ocorrência de um primeiro evento trombótico, a incidência acumulada foi de 14,8% em 5,5 anos. O tempo médio para a primeira recorrência trombótica foi de 33,1±19,4 meses. A presença de diabetes mellitus foi um fator de risco independente para a ocorrência de um primeiro evento trombótico, com risco relativo de 3,3 (IC95% 1,1-5,6, p=0,021). 

Dessa forma, devemos sempre estar atentos para um bom controle dos fatores de risco cardiovascular em pacientes com SAF, a fim de se evitar a recorrência de eventos trombóticos.

Leia também: Consenso internacional sugere atualização de critérios de classificação para síndrome antifosfolípide definitiva (SAF)

7) Anticorpos antifosfolípides estão associadas um maior dano acumulado em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico 

O grupo argentino para o estudo do lúpus e da síndrome antifosfolípide avaliou o dano acumulado (medido através do SDI) em 1690 pacientes com LES. Desses, 458 preenchiam os critérios de classificação para SAF. Pacientes portadores de aPL apresentaram um maior dano acumulado do que aqueles sem aPL. Outros fatores de risco associados ao aumento do dano foram a presença de hipertensão, uso de doses de prednisona ≥10 mg/dia e presença de SAF trombótica (vs. gestacional). Dentre os perfis de aPL, a tripla positividade foi a que apresentou uma maior associação com dano. 

Esses dados reforçam a necessidade da dosagem de aPL em pacientes com LES. Controle dos fatores de risco cardiovasculares e diminuição das doses de prednisona podem auxiliar na redução do acúmulo de dano nesses pacientes.

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# Abstracts presented at the 17th International Congress on Antiphospholipid Antibodies. Argentine Journal of Rheumatology Vol. 33 Nº 2 Supplement. Disponível em: https://ojs.reumatologia.org.ar/index.php/revistaSAR/article/view/655/340. 
Referências bibliográficas:

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