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estudo intercalado

Devo estudar o mesmo assunto até o fim ou alternar entre assuntos semelhantes?

Tempo de leitura: 2 minutos.

Depois de já termos discutido algumas das técnicas mais importantes para um estudo efetivo como repetição espaçada, efeito teste, dificuldade desejável, é chegada a hora de falarmos sobre estudo intercalado. Ou melhor, de nos perguntarmos: devo estudar o mesmo assunto até o fim ou alternar entre assuntos semelhantes?

Para iniciar a resposta, utilizaremos um dos principais estudos sobre o assunto realizado por Kornell e Bjork (2008). Os pesquisadores dividiram estudantes universitários em dois grupos (estudo em bloco vs. intercalado) para o avaliar o aprendizado de obras de pintores seguido do teste. A hipótese seria de que os estudantes do primeiro grupo teriam um desempenho melhor do que os do segundo.

As surpresas do estudo foram três: o grupo de estudo intercalado foi superior ao outro grupo; a maioria dos participantes julgou estudo em bloco como mais efetivo mesmo com pior desempenho, e os estudantes que foram expostos aos dois métodos lembravam mais dos quadros apresentados na fase intercalada do que na fase em bloco.

Outro estudo bastante ilustrativo é o de Rohrer et al (2015) realizado com crianças  no qual se avaliou a diferença no aprendizado de matemática. A importância desse estudo se deve ao fato de que a performance daqueles que estavam no grupo “estudo em bloco” era semelhante ao grupo “estudo intercalado” durante a fase de aprendizado (03 meses). No entanto, os resultados dos testes realizados um dia e um mês após a fase de aprendizado mostram a diferença: 01 dia (64% vs 80%) e 01 mês (42% vs 74%).

O que percebemos é que o aprendizado foi melhor não só logo após a fase de treinamento, como também levou a uma melhor retenção do conteúdo e/ou melhor aplicação do material estudado.

O que esse estudo difere de outros é que habitualmente a performance, durante a fase de aprendizado, naqueles que estudam em bloco, é melhor do que aqueles que estudam de forma intercalada. Isso significa que algo que produz uma performance melhor inicialmente não necessariamente significa que esse aprendizado seja duradouro e/ou efetivo.

Alguns dos motivos pelos quais o estudo intercalado funciona entre objetos de estudo semelhantes é por estimular a procura por fatores que os diferencie e é exatamente esse seu objetivo na prática clínica e na prova de residência. Além disso, ao intercalar os assuntos, você estará necessariamente fazendo um estudo espaçado e isso provavelmente causará algum desconforto. Esse desconforto pode fazer parte da dificuldade desejável para o aprendizado duradouro.

O que ainda não sabemos é com que frequência devemos alternar e o quanto assuntos devem ser semelhantes para um melhor aprendizado: provavelmente, alternar entre Doença de Crohn, Retocolite Ulcerativa e Colite Microscópica seja efetivo, ou estudar as causas de sangramentos do primeiro trimestre da gravidez, porém não sabemos se alternar entre síndrome nefrótica e acidose tubular renal seria adequado.

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Autor:

Rodrigo Cavalcante

Médico e revisor de algumas das principais revistas internacionais de Educação Médica e Clínica Médica, editor médico da empresa Amboss e consultor pedagógico do MedQ.

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