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Dieta cetogênica: a dieta que trata doenças

Tempo de leitura: 4 minutos.

A maioria das dietas tem um tom de precaução, porém a dieta cetogênica (KD) é apresentada de forma mais prescritiva. O que é a KD? A clássica KD é composta principalmente de gordura (80 – 90%), com o restante preenchido com proteína (8% – 15%) e, minimamente, por carboidratos (2% – 5%).

O objetivo é imitar o estado de jejum. Ao limitar a quantidade de carboidratos e proteínas metabolizadas, a energia é derivada da gordura do corpo ou consumida na dieta. Quando os níveis de glicose diminuem, os corpos cetônicos derivados do metabolismo da gordura se tornam a principal fonte de energia, um estado conhecido como cetose.

A KD possui uma lista de alimentos que devem ser evitados, incluindo:

  • Grãos (arroz, trigo, centeio, aveia, cevada, quinoa, massa, cereais, pizza)
  • Legumes em geral
  • Legumes ricos em amido e tubérculos (ervilhas, milho, batata, inhame)
  • Frutas com alto teor de carboidratos; frutas secas (bananas, maçãs, laranjas)
  • Laticínios com baixo teor de gordura
  • Gorduras e óleos refinados; óleo vegetal
  • Açúcar
  • Álcool

E uma lista de alimentos que podem ser consumidos:

  • Carne bovina, suína, aves, peixes
  • Ovos, queijos
  • Abacates
  • Azeite de oliva e óleo de coco
  • Vegetais sem amido, como saladas verdes, feijão, couve e brócolis

As raízes médicas da KD têm quase um século de idade. Foi inicialmente usada como tratamento para epilepsia em 1921, com grandes benefícios na supressão de crises. O tratamento caiu em desuso com o advento de medicamentos anticonvulsivos, mas voltou a ser usado quando crianças com epilepsia resistente aos medicamentos tornaram-se livres de crises após adoção da dieta. Revisões sistemáticas da literatura médica encontram 85% de redução de crises após o tratamento dietoterápico.

As razões de sua eficácia são menos claras. Há questões não resolvidas em torno da ação dos ácidos graxos na excitabilidade neuronal, restrição da glicólise e da atividade oxidante, além do papel no microbioma intestinal.

Diabetes tipo 2 / obesidade

O uso de dietas com baixo teor de gordura, muitas vezes ricas em carboidratos de alto índice glicêmico, é vista como um dos principais contribuintes para a epidemia de obesidade.

Meta-análises mostrando que a KD leva a maior perda de peso do que dietas com baixo teor de gordura, além do benefício de suprimir o apetite, tornaram-na promissora no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade.

A capacidade da KD em reduzir a necessidade de drogas antidiabéticas, com melhor controle glicêmico e perda de peso, tem sido observada em estudos nos últimos 20 anos, isoladamente ou em comparação com outras intervenções.

Como os pacientes com diabetes que estão restringindo os carboidratos podem estar em risco de hipoglicemia, recomenda-se que a implementação desta dieta seja acompanhada pelo médico com modificação da dosagem de insulina e secretagogos de insulina, se necessário.

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Câncer

Apesar de o câncer ser uma doença heterogênea, vários tipos de células cancerosas usam a glicose como sua principal fonte de energia. Isso fez da dieta cetogênica uma opção atraente para terapia complementar de câncer; a teoria é que cortar o suprimento de energia do tumor ajudaria a conter sua disseminação. Porém, nesse caso, os resultados das pesquisas foram inconsistentes.

Distúrbios neurológicos

A eficácia da DK na epilepsia estimulou estudos que investigam a sua utilização em tratamento de outros distúrbios neurológicos. A lógica dessas pesquisas é que a KD pode afetar profundamente a plasticidade neuronal, melhorar e normalizar sua função, além de fornecer efeitos neuroprotetores de forma ampla.

Os resultados são precoces, mas impressionantes em sua ampla gama de aplicações. Pacientes portadores de enxaqueca, doença de Alzheimer e doença de Parkinson mostraram melhora clínica após intervenção dietética. Melhorias comportamentais foram observadas em crianças com transtorno do espectro autista recebendo KD. Dados em animais também sugerem um papel no tratamento de lesões cerebrais traumáticas, já que pode mitigar a disfunção metabólica. O mesmo pode ser verdadeiro na esclerose lateral amiotrófica, na qual acredita-se que a disfunção mitocondrial tenha um papel contributivo.

Atletas de Endurance e desempenho

Cientes dos riscos de dietas ricas em carboidratos, muitos atletas começaram a procurar outros meios dietéticos para obter uma vantagem de desempenho. Nesse contexto, atletas de resistência questionam a estratégia de carregamento de carboidratos antes de grandes provas. Nesse caso, a adoção da KD mostra redução da massa corporal e percentual de gordura corporal, embora sem diferença no desempenho atlético em longas distâncias. Em contrapartida, a potência de sprint é significativamente maior nos atletas em dieta cetogênica.

Possivelmente, as melhorias na composição corporal foram relacionadas ao aumento do uso de gordura corporal armazenada como energia. No entanto, o treinamento empregado (resistência, força e treinamento intervalado de alta intensidade) tem papel fundamental na manutenção da massa muscular e, possivelmente, ajudou nas adaptações mitocondriais necessárias para aumento do uso de gordura.

Porém, atletas que sigam a KD necessitam ter atenção ao consumo de eletrólitos para garantir a segurança alimentar. O consumo de sódio, magnésio e selênio é importante já que pode ser difícil obter e absorver alguns eletrólitos nessa dieta.

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Principais conclusões:

Dizer que estamos nos estágios iniciais de aprendizado sobre um tratamento vigente desde 1921 pode parecer contraintuitivo, mas não deixa de ser verdade. Embora o impacto da KD na epilepsia seja inquestionável e sua promessa no tratamento de obesidade e diabetes tipo 2 apoiada por muitas evidências, sua aplicação em câncer e em outros distúrbios neurológicos depende de maior evidência. Apesar de grande embasamento científico, se não for realizada corretamente, a KD carrega riscos, incluindo deficiências nutricionais, hipovolemia, hipocalemia, nefrolitíase e gota.

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Referências:

  • Ketogenic Diet: Which Patients Benefit? – Medscape – Mar 20, 2018.

Um comentário

  1. Parabéns, pelos conteúdos leitura rápida e sucinta.

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