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Efeito da terapia antimicrobiana guiada por procalcitonina em pacientes com infecção e sepse na UTI

Tempo de leitura: 3 minutos.

O Sepsis 3, último consenso publicado em 2016, define sepse como uma disfunção orgânica ameaçadora à vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro a uma infecção. Apesar dos crescentes estudos sobre o assunto, a sepse ainda é uma importante causa de mortalidade no mundo, especialmente no contexto de unidades de terapia intensiva.

Além da detecção precoce, com início rápido de terapia antibiótica e de medidas de suporte, a monitoração da resposta ao tratamento, com escalonamento ou descalonamento na terapia quando indicado, também contribui para melhores desfechos. Entretanto, como o uso de parâmetros clínicos na avaliação de resposta adequada é muitas vezes difícil, a busca por marcadores laboratoriais que pudessem auxiliar na monitoração tem se intensificado nos últimos anos.

A procalcitonina sérica é um biomarcador que parece refletir a resposta do hospedeiro a insultos bacterianos, aumentando com o desenvolvimento de infecção e reduzindo durante o período de recuperação. Com isso, fornece informações adicionais diagnósticas e prognósticas ao exame clínico. Vários ensaios clínicos vêm procurando mostrar se há benefício no uso da dosagem sérica de procalcitonina para guiar o início e o tempo de tratamento antimicrobiano em pacientes sépticos em unidades de terapia intensiva (UTI), mas dados definitivos sobre a segurança e os benefícios dessa estratégia são limitados ou inconclusivos.

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Recentemente, uma metanálise publicada na Critical Care buscou avaliar o impacto da terapia antibiótica guiada por procalcitonina na mortalidade de pacientes sépticos em UTI, globalmente e estratificando-se por gravidade e tipo de infecção. Somando-se os 11 estudos incluídos, foram analisados os dados de 4.482 pacientes. Os protocolos para o uso da procalcitonina foram semelhantes entre os estudos, com foco principalmente na descontinuação de antibióticos quando os valores séricos caíam abaixo de 0,5 µg/L ou em 80% do valor de pico.

Os resultados mostraram uma menor mortalidade no grupo que usou a terapia guiada por procalcitonina em relação ao grupo controle (21,1% vs. 23,7%; OR = 0,89, com IC 95% = 0,8 – 0,99%; p = 0,03). Tal diferença se manteve quando os dados foram ajustados por gravidade (indicada pelo escore SOFA, presença ou não de choque séptico, insuficiência respiratória e necessidade de suporte dialítico) e por tipo de infecção (incluindo trato respiratório, trato urinário, abdominal, pele e partes moles e sistema nervoso central). Entretanto, na análise dos dados agregados, a diferença entre o grupo que usou procalcitonina e os controles não foi significativa (OR = 0,88, com IC 95% = 0,76 – 1,01).

Em relação ao tempo de tratamento, encontrou-se uma redução moderada no grupo da terapia guiada por procalcitonina em relação ao grupo controle, com uma diferença ajustada de -1,19 dias (IC 95% = -1,73 a -0,66; p < 0,001). O efeito foi semelhante entre pacientes com critérios de sepse, segundo o Sepsis 3, e os demais; mas foi maior entre aqueles com valores menores de escore SOFA (-2,62 dias para os com SOFA entre 0 e 6 vs. 0,01 dias para os com valores entre 7 e 9 vs. -0,63 dias para os com SOFA entre 10 e 24) e nos com infecções de pele e partes moles, porém sem diferença estatística significativa neste último subgrupo (-4,6 dias; IC 95% = -10,36 a 1,23). Não houve efeito da terapia guiada por procalcitonina sobre a duração da internação.

Os pesquisadores concluíram que o uso da procalcitonina sérica como fator adjuvante para guiar o uso de antimicrobianos teve um impacto favorável em pacientes com infecção bacteriana internados em UTI, com menor mortalidade e uma redução moderada no tempo de tratamento. Entretanto, deve-se destacar que os resultados foram muitas vezes marginais, o que levanta o questionamento da custo-efetividade dessa estratégia na realidade da maioria dos hospitais brasileiros.

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Autor:

Isabel Cristina Melo Mendes

Residente de Infectologia no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro

Referências:

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