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Em quais pacientes devo indicar o uso de lentes de contato esclerais?

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As lentes de contato esclerais são lentes de diâmetro grande, com apoio na esclera, que têm como característica principal a ausência de contato com a córnea, apresentando, portanto, um espaço entre a superfície anterior da córnea e a superfície posterior da lente preenchido com líquido. Adolf Fick desenhou a primeira lente de contato, em 1888, e esta era uma lente escleral. Sua proposta era neutralizar os efeitos ópticos da distorção corneana em pacientes com astigmatismo irregular usando conchas de vidro. O uso do vidro como material das lentes impossibilitava seu uso por longos períodos por causa da impermeabilidade a gases, gerando hipóxia corneana. Somente em 1938, Feinbloom e Obrig usaram o polimetilmetacrilato (PMMA), um material plástico e mais leve, porém o obstáculo continuava sendo o edema corneano relacionado à baixa permeabilidade a oxigênio.

A melhoria da oxigenação corneana foi o principal objetivo no desenvolvimento das lentes esclerais desde então. A impossibilidade de produzir lentes que pudessem ser usadas com segurança e conforto prolongado e a introdução das lentes corneanas em 1948 resultou no declínio do uso das lentes esclerais na prática clínica. O desenvolvimento de lentes de material plástico gás permeável reduziram as complicações por hipóxia associadas às lentes de uso diário. A primeira lente escleral neste material foi descrita em 1938, porém a primeira produzida com sucesso foi somente em 1983 quando Ezekiel relatou o uso de material de silicone acrilato fenestrado na adaptação de pacientes com ceratocone, alta miopia, afacia e cicatrizes corneais. O uso de material de alto Dk e a melhora nos tornos computadorizados, possibilitando melhorias no processo de produção em termos de precisão e reprodutibilidade, possibilitou o renascimento do uso de lentes esclerais.

Independente do diâmetro e do material utilizado, o fato dessas lentes formarem um vão entre a córnea e a lente preenchido por líquido também poderia contribuir para a hipóxia corneana (que já corresponde a 27% das principais complicações associadas ao uso de lentes esclerais), pois esta camada também interfere na transmissibilidade do oxigênio. Para que esse efeito seja minimizado, além da escolha do material, as características da adaptação devem ser observadas, como, por exemplo, a centralização, diâmetro, altura sagital e o apoio escleral idealmente sem compressão vascular, evitando sempre áreas de toque corneano e limbar. Nos casos de irregularidades corneanas mais graves, principalmente em casos pós transplante de córnea e nas doenças da superfície ocular, é necessária uma avaliação e adaptação anda mais criteriosa e individualizada com o intuito de prevenir os efeitos da possível hipóxia crônica.

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Devido à menor transmissibilidade de oxigênio, maior possibilidade de neovascularização e efeitos da hipóxia crônica, maior custo e maior dificuldade no manuseio das lentes esclerais, as lentes rígidas corneanas ainda são preferidas na adaptação em pacientes com indicação médica de uso de lentes rígidas caso seja possível uma boa visão e boa adaptação das mesmas. Alguns pacientes, porém, não atingem boa visão, não é possível bom padrão de adaptação com estas ou possuem indicação terapêutica (os pacientes com síndrome do olho seco grave, por exemplo). Estes são bons candidatos à adaptação de lentes esclerais.

Quais seriam, portanto, as principais indicações?

Com finalidade óptica (melhora da visão):

  • Ectasias corneanas primárias (ceratocone, ceratoglobo e a degeneração marginal pelúcida);
  • Astigmatismos irregulares secundários a transplante de córnea (cirurgia refrativa e trauma perfurante);
  • Afacia;
  • Altas ametropias.

Com indicação terapêutica (como adjuvante no tratamento de doença da superfície):

– Doenças cicatriciais da córnea e conjuntiva (síndrome de Stevens-Johnson, penfigoide ocular cicatricial);

– Entrópio cicatricial;

– Ceratite pós-herpética;

– Olho seco severo (ceratopatia de exposição, deficiência congênita das glândulas de Meibomius, ceratoconjuntivite límbica superior e síndrome de Sjögren).

As indicações do uso terapêutico de lentes esclerais decorrem da sua capacidade de retenção da lágrima sobre a superfície da córnea, bastante benéfica em condições de olho seco severo e proteção da superfície ocular no caso de ceratite de exposição e anormalidade de cílios e pálpebras.

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Quais seriam as vantagens no uso desta lente?

  • Adaptação em córneas com topografias irregulares;
  • Maior estabilidade para lentes com alto poder dióptrico;
  • Menor sensação palpebral, maior conforto;
  • Menor retenção de corpos estranhos atrás das lentes;
  • Menor perda das lentes, devido à ação palpebral;
  • Melhora nos sintomas do olho seco.

Todos os pacientes com indicação de adaptação de lentes de contato de qualquer tipo devem ser submetidos à consulta para adaptação com oftalmologista, onde serão feitos exames prévios e será determinado se o paciente é um bom candidato ao uso de lentes, a indicação do tipo de lente e a forma de uso, e serão feitos os testes com as lentes adequadas ao caso. O paciente deve ser orientado sobre os cuidados no uso, que são específicos para cada tipo de lente e deve ser acompanhado para que possa ser reavaliada periodicamente a saúde ocular e possibilidade de complicações relacionadas ao uso das lentes.

Autora:

Juliana Rosa

Médica do departamento de lentes de contato da UNIFESP ⦁ Pós graduação Lato Sensu em Córnea pela UNIFESP ⦁ Especialização em lentes de contato e refração pela UNIFESP ⦁ Residência médica em Oftalmologia pela UERJ ⦁ Graduação em Medicina pela UFRJ ⦁ Contato: julianarosaoftalmologia@gmail.com

Referências:

  • César Lipener, Ricardo Uras –  Essencial em lentes de contato. 1.ed – Rio de Janeiro; Cultura Médica; Guanabara Koogan, 2014.
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