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Estudo indica que ter um cão diminui riscos cardiovasculares

Tempo de leitura: 3 minutos.

Quando você diz que não pode viver sem seu cão, pode ser que esteja sendo mais literal do que imagina. Trabalhos apresentados recentemente no Congresso Mundial de Cardiologia, em Dubai, sugerem relações de proteção de eventos cardiovasculares em pacientes que possuem cachorros.1,2

Na realidade, os dados fazem parte da análise de um estudo publicado pelos mesmos autores há um ano, que avaliou indivíduos a partir de uma coorte nacional sueca (n = 3.432.153), com um período de 12 anos de seguimento.3 Neste estudo antecessor, ser dono de um cão (13,1%) esteve relacionado a um menor risco de morte geral e cardiovascular. Em lares com múltiplos indivíduos, a razão de risco (hazard ratio – HR) foi de 0,89 (IC 95% 0,87-0,91) para mortalidade geral e 0,85 para mortalidade cardiovascular (IC 95% 0,81-0,90).

Em lares com apenas um indivíduo, o impacto de possuir um companheiro canino foi ainda mais relevante: HR de 0,67 (IC 95% 0,65-0,69) e de 0,64 (IC 95% 0,59-0,70) para mortalidades geral e cardiovascular, respectivamente. Nestes lares, possuir um cachorro esteve inversamente relacionado à incidência de eventos cardiovasculares maiores, compostos por infarto do miocárdio, eventos cerebrovasculares e insuficiência cardíaca – HR 0,92 (IC 95% 0,89–0,94).

As questões principais das análises apresentadas neste ano estiveram concentradas nos seguintes pontos:

1) Responder se o efeito observado na prevenção de eventos cardiovasculares era independente ou se ocorreu por uma redução na incidência e gravidade de fatores de risco clássicos, como hipertensão, dislipidemia ou diabetes. Neste quesito, a conclusão foi de que a proteção atribuída ao pet parece ser independente, embora outros confundidores não possam ser completamente excluídos.

2) Avaliar o que ocorre em um contexto de prevenção secundária. Para isto, os investigadores se concentraram em pacientes que tiveram seu primeiro evento – infarto do miocárdio (IAM) (n = 178.907) ou acidente vascular isquêmico (AVEi) (n = 154.245) – entre 2001 e 2012. Dentre estes, cerca de 6% eram donos de cachorros. Após ajuste de potenciais confundidores, ter um cão esteve associado a uma redução da chance de mortalidade em um ano – razão de chances (OR) de 0,72 (95% CI 0,67-0,78) para aqueles que tiveram um IAM e de 0,77 (IC 95% 0,71-0,84) para os que tiveram um AVEi. Novamente, subanálises demonstraram que o efeito parece ser mais importante em indivíduos que vivem só.

Leia mais: Carga pressórica aumenta precisão na previsão de riscos cardiovasculares

Os achados destes estudos são bastante interessantes, mas não totalmente novos. Baseados em evidências menos robustas, em 2013 a American Heart Association (AHA) publicou uma declaração afirmando que possuir um animal de estimação, particularmente “aqueles que latem”, poderia ser potencialmente benéfico no contexto de prevenção cardiovascular.4

As maiores questões residuais sobre o assunto, entretanto, estão relacionadas aos possíveis mecanismos envolvidos. A maioria dos estudos tem caráter observacional e envolve uma gama de fatores propriamente biológicos e outros relacionados ao estilo de vida, o que elenca uma série de hipóteses e, até mesmo, diversas combinações deles. Os autores destacaram algumas:

1) Um parceiro na reabilitação cardíaca

Pessoas com cachorros se exercitam mais. Mesmo as caminhadas tranquilas com os animais podem ter algum benefício. Existe ainda um potencial efeito psicossocial relacionado ao animal, levando a uma redução da solidão e facilidade em interações sociais. A redução do estresse e de comorbidades mentais também podem estar relacionados. Estes efeitos podem ter um impacto ainda mais pronunciado naqueles indivíduos que moram sozinhos.

2) Cuidar faz bem

Pessoas que têm laços fortes com seus animais se sentem responsáveis por eles. Esta consciência de responsabilidade pode motivar o indivíduo a se cuidar mais, aderir melhor às medicações e procurar auxílio médico de modo mais frequente e precoce. Estar bem significa ser capaz de cuidar de seu parceiro peludo e reduzir a chance de deixá-lo à própria sorte.

3) Compartilhando mais que amizade?

Os autores não descartam a hipótese de que diferenças nas microbiotas entre indivíduos que possuem animais de estimação e aqueles que não os possuem possam ter alguma influência na fisiopatologia das doenças cardiovasculares, uma vez que existem estudos relacionando o microbioma com inflamação e aterosclerose.

Enfim, se você já gostava do seu companheiro de quatro patas, agora tem mais motivos. Entretanto, deve-se ressaltar que decidir ter um animal de estimação com a intenção única ou principal de redução do risco cardiovascular não é uma boa ideia. Ter a obrigação de cuidar de um animal sem realmente gostar pode, inclusive, gerar estresse para o cão e o dono. Mas, entre nós, como não amá-los?

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Autor:

Referências:

  1. Mubanga M. Dog ownership and mortality after a cardiovascular event: a register-based Swedish study. Presented at: World Congress of Cardiology & Cardiovascular Health 2018. December 5, 2018. Dubai, United Arab Emirates.
  2. Mubanga M. Dog ownership and cardiovascular risk factors: a nationwide register-based cohort study. Presented at: World Congress of Cardiology & Cardiovascular Health 2018. December 5, 2018. Dubai, United Arab Emirates.
  3. Mubanga M. et al – Dog ownership and the risk of cardiovascular disease and death – a nationwide cohort study. Sci Rep. 2017 Nov 17;7(1):15821. doi: 10.1038/s41598-017-16118-6.
  4. Pet Ownership and Cardiovascular Risk – A Scientific Statement From the American Heart Association Circulation. 2013;127:2353–2363

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