Infectologia

Hepatite C: diagnóstico e manejo

Tempo de leitura: 5 min.

O vírus da hepatite C (HCV) é um vírus de RNA fita simples, pertencente à família Flaviridae e que possui 6 genótipos. A forma crônica é a mais comum, ocorrendo em no mínimo 85% dos casos de infecção por HCV em adultos. HCV crônica está associada à progressão para cirrose e ao desenvolvimento de hepatocarcinoma.

No Brasil, entre os anos de 1999 e 2018, foram notificados 359.673 casos de hepatite C, sendo as regiões Sul e Sudeste as mais afetadas. A maior parte dos indivíduos infectados tem mais de 40 anos e pacientes em hemodiálise, pessoas privadas de liberdade e usuários de drogas. Pessoas vivendo com HCV são considerados grupos vulneráveis. De forma semelhante à distribuição mundial, o genótipo 1 é o mais frequente, seguido do genótipo 3. O genótipo 2 é frequente no Centro-Oeste e o 3 é mais comumente encontrado no Sul.

Leia também: Hepatites D e E: diagnóstico, transmissão e prevenção

A maior parte das infecções é assintomática. Entre os sintomáticos, fadiga é o sintoma mais comum. Manifestações extra-hepáticas associadas à infecção incluem síndrome de Sjogren, crioglobulinemia mista, vasculite cutânea leucocitoclástica, glomeruolnefrite membranoproliferativa, líquen plano e porfiria cutânea tarda.

Antes uma condição de difícil tratamento, os antivirais de ação direta (DAAs) mudaram a história natural da doença, com duração de 8 a 12 semanas, e taxas de cura de mais de 95%. Além de permitir a cura da doença, estudos já foram realizados com DAAs como forma de permitir a doação de órgãos, exceto fígado, de doadores HCV positivos, com bons resultados.

Com taxas de cura tão elevadas, o uso de DAAs permite pensar na eliminação da hepatite C. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece como critérios para definir a eliminação de HCV uma redução de 80% na incidência e de 65% na mortalidade relacionada ao HCV em relação aos números de 2015. Para alcançar esses níveis, a OMS estabelece como alvos o diagnóstico de 90% dos casos e de 80% de tratamento dos casos diagnosticados. Recentemente, foi publicado na Lancet que a Islândia alcançou esses números, sendo o primeiro país desenvolvido a atingir os alvos estabelecidos para eliminação da infecção.

O diagnóstico pode ser feito por meio de sorologia anti-HCV e confirmado com a realização de teste molecular para detecção de HCV-RNA.

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No Brasil, recomenda-se o rastreio de infecção pelo HCV nos chamados grupos prioritários, pelo menos uma vez. São eles:

  • Pessoas com 40 anos ou mais;
  • Pacientes ou profissionais de saúde que tenham frequentado ambientes de hemodiálise em qualquer época;
  • Pessoas que usam álcool e outras drogas;
  • Pessoas com antecedente de uso de drogas injetáveis em qualquer época, incluindo aquelas que utilizaram uma única vez;
  • Pessoas privadas de liberdade;
  • Pessoas que receberam transfusão de sangue ou hemoderivados antes de 1993 ou transplantes em qualquer época;
  • Pessoas com antecedente de exposição percutânea/parenteral a sangue ou outros materiais biológicos;
  • Crianças nascidas de mães que vivem com o HCV;
  • Familiares ou outros contatos íntimos (comunicantes), incluindo parceiros sexuais, de pessoas que vivem com ou tem antecedente de infecção pelo HCV;
  • Pessoas com antecedente de uso, em qualquer época, de agulhas, seringas de vidro ou seringas não adequadamente esterilizadas, ou de uso compartilhado, para aplicação de medicamentos intravenosos ou outras substâncias lícitas ou ilícitas recreativas;
  • Pacientes com diagnóstico de diabetes, doenças cardiovasculares, antecedentes psiquiátricos, histórico de patologia hepática sem diagnóstico, elevação de transaminases, antecedente de doença renal ou de imunodepressão, a qualquer tempo.

Além desses, alguns grupos são considerados mais vulneráveis e, por esse motivo, recomenda-se rastreio anual:

  • Pessoas vivendo com o vírus da imunodeficiência humana (HIV) – PVHIV;
  • Pessoas sexualmente ativas prestes a iniciar Profilaxia Pré-exposição (PrEP) ao HIV (a indicação de testagem seguirá o protocolo de PrEP);
  • Pessoas com múltiplos parceiros sexuais ou com múltiplas infecções sexualmente transmissíveis;
  • Pessoas trans;
  • Trabalhadores(as) do sexo;
  • Pessoas em situação de rua.

Pelo SUS, as opções disponíveis de tratamento com DAA para indivíduos que não fizeram uso prévio dessa classe são as seguintes:

Condição Esquema terapêutico Sem cirrose Com cirrose Child-A Com cirrose Child-B ou C
Genótipo 1, com ClCr ≥ 30ml/min Ledipasvir/sofosbuvir 12 ou 8 semanas 12 semanas 12 ou 24 semanas
Genótipos 2, 3, 4, 5 e 6, com ClCr ≥ 30ml/min Velpatasvir/sofosbuvir 12 semanas 12 semanas 12 ou 24 semanas
Qualquer genótipo, com ClCr < 30 ml/min Glecaprevir/pibrentasvir 8 semanas 12 semanas Não indicado

Saiba mais: Hepatite A: diagnóstico, transmissão e prevenção

Em sua última nota informativa, devido à suspensão da coleta de amostras para genotipagem do HCV, o Ministério da Saúde temporariamente alterou sua recomendação de tratamento para o uso de agentes pangenotípicos. Assim, para adultos sem uso prévio de DAA:

Sem cirrose Com cirrose Child-A Com cirrose Child-B ou C
Opção terapêutica Glecaprevir/pibrentasvir por 8 semanas OU Velpatasvir/sofosbuvir por 12 semanas  Velpatasvir/sofosbuvir por 12 semanas Velpatasvir/sofosbuvir + ribavirina por 12 semanas OU Velpatasvir/sofosbuvir por 24 semanas

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Referências bibliográficas:

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Publicado por
Isabel Cristina Melo Mendes
Tags: hepatite c

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