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médico com a mão no rosto devido a TEPT causado pela covid-19

Hoje Covid-19, amanhã TEPT: dilemas do profissional em “combate”

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O conceito de estresse de combate é antigo, tendo referências na Guerra Civil Americana, e vem com o passar dos anos recebendo diversas denominações, como neurose de guerra, fadiga de batalha e fadiga operacional. Desde 1970, psiquiatras americanos realizam pesquisas trabalhando com experiência de pacientes veteranos da guerra do Vietnã, associando com material teórico disponível na época.

A partir dessa pesquisa e da listagem dos 27 sintomas mais comuns de “neuroses traumáticas”, deu-se origem aos critérios usados na ocasião, pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais III (DSM-III) para incluir a categoria do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) na sua classificação diagnóstica.

TEPT pós-Covid-19

Atualmente, o tema de “distúrbios psicológicos causados pelo combate” tem conquistado uma maior importância quando é verificado que além das consequências físicas deixadas pelo combate, também existem as consequências emocionais e psicológicas, que apesar de não serem tangíveis como um ferimento grave, têm consequências totalmente perceptíveis no indivíduo afetado.

Esse é o caso do Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT). Justamente por este motivo, objetivamos com este texto apresentar os principais fatores e complicadores do TEPT ocasionado por situações limítrofes na área da saúde, considerando o momento de pandemia resultante do novo coronavírus.

Quando falamos em TEPT, estamos nos referindo em linguagem simples, a um estado de tensão que causa ruptura no equilíbrio interno do organismo, considerando aspectos fisiológicos e psíquicos, frequentemente com efeitos danosos. No campo da saúde, o assunto torna-se de extrema importância quando levamos em conta que os profissionais que executam o cuidado a pacientes críticos, são aqueles mais sujeitos a desenvolver o TEPT, devido as situações singulares de tensão em que estão inseridos.

Leia também: Resistência, resiliência e ressignificação frente à pandemia de Covid-19

No âmbito comum da profissão, esse risco já existe, porém é reduzido frente às compensações diárias (salvar vidas, observar os efeitos positivos de suas funções, se sentirem úteis). Em contrapartida, no reboliço de uma pandemia, os desfechos negativos e traumáticos podem superar os positivos, lançando repercussões desfavoráveis à saúde mental dos profissionais assistenciais.

Parte-se da premissa de que o profissional da saúde é constantemente exposto a situação de risco biológico/físico, e que sua função requer um alto nível de cobrança e concentração, afinal, estamos falando de vidas. A alta complexidade traz à tona emoções diversas como raiva, ansiedade, desespero e medo. Nesse contexto, o profissional que ali, exerce papel de líder, estará diante de situações decisivas e deverá agir de maneira eficiente, a fim de garantir o melhor desfecho possível para seu paciente.

O grande problema é que, apesar do “papel” ocupado naquele momento, ele também é parte de uma sociedade acometida pela pandemia, sendo antes de qualquer título, um ser humano sujeito aos mesmos riscos. Sua função não lhe oferece imunidade na batalha, tal qual o armamento de um soldado não o deixa imune a ferimentos e a morte.

Buscando a naturalidade em meio à Covid-19

Mas, para além dos riscos biológicos aqui citados, existe todo o componente psíquico que se instala, de modo ainda mais complexo. Temos ali, um ser humano frágil, com conhecimento acima da média sobre seu adversário, porém ainda assim, insuficiente.

Ele possui equipamentos básicos de proteção, mas sabe que em qualquer falha técnica ou desatenção, ele será a próxima vítima. Possui em si o desejo de “salvar”, quando está sendo confrontado com uma taxa de mortalidade que supera grandemente seus recursos disponíveis. Sente-se sob pressão e tensão, mas racionaliza seus medos, colocando-se em um patamar temporário de “inatingibilidade”. Não por vaidade, mas por ser o mecanismo de defesa mais fácil de acessar num primeiro momento de guerra.

Confronto com a realidade

Com o passar dos dias, sua zona fictícia de segurança é derrubada de modo violento. Os óbitos começam, as internações aumentam, a qualidade do trabalho cai pois o número de profissionais diminui e o de doentes cresce progressivamente. A tensão é constante e o medo começa a forçar a autovigilância.

Os sintomas simples que tínhamos durante todo o ano, em épocas de Covid-19, tornam-se momentaneamente Covid-19, e a insegurança passa a ser constante. Os momentos em casa já não são mais prazerosos, pois inconscientemente nos sentimos como bombas biológicas, colocando em risco nossas famílias. E nos plantões, pessoas conhecidas internando, necessitando de intervenções, passando por complicações… e inevitavelmente, morrendo.

São diversas as causas que podem originar o TEPT neste cenário, já que inúmeros fatores aumentam a possibilidade de ocorrência de um trauma, que causará futuramente consequências psicológicas. O problema começa quando o indivíduo exposto a determinado evento traumático não consegue realizar o gerenciamento do estressor, surgindo então consequências como as lembranças negativas do evento. “Estas lembranças se repetem na mente do indivíduo, não conseguindo “descarregar” os seus sentimentos, através da fala, da narrativa”.

Veja ainda: Humanização do caos: intervenções da psicologia hospitalar frente ao coronavírus

Vivência emocional disfuncional

Uma das maiores preocupações referentes ao trauma em uma pandemia, é a sobrecarga do profissional, e a situação de emergência instalada ali. A calamidade exige racionalização, e não permite a vivência adequada dos sentimentos reativos, dos medos e dos lutos. Aquilo que é reativo, tende a ser direcionado para alguma área de escape (alimentação compulsiva, álcool, cigarro, atos exagerados, etc.), e as ocorrências que exigiriam maior elaboração, ficam em suspenso, sublimadas, transformadas em uma reação comportamental aceitável ou aprisionadas em um terceiro espaço que as mantenha longe de reflexão.

Com o passar dos dias e das semanas, esses eventos potencialmente traumáticos vão se acumulando, ganhando força, mas ainda assim mantidos em distância segura, evitando um sofrimento intolerável e paralisação daquele indivíduo.

As reações emocionais vão sendo vividas em doses controladas, através de altos e baixos que permitam a continuidade de nossas funções. Entretanto, mais alguns colegas vão ficando pelo caminho, seja por acometimento do vírus, ou por não tolerarem o excesso de pressão psíquica por tempo tão prolongado. O corpo humano é feito para apresentar respostas eficientes ao estresse… mas não para tolerá-lo por períodos prolongados. É daí que advém as respostas orgânicas, somáticas e o adoecimento.

Profissionais da saúde foram ensinados a trabalhar com a razão. A emoção teoricamente atrapalharia a capacidade de raciocínio e execução técnica do trabalho. Nunca essa afirmativa foi tão bem testada quanto agora. Se antes, um médico jamais cogitaria atender e tratar seus familiares e amigos, agora ele é confrontado com essa necessidade, sem sequer ter tempo para processar o fato.

Chegar em um plantão e precisar intubar as pressas um amigo, um parente, um colega de trabalho. A outra possibilidade seria perdê-los sem tentar. Quando imaginaríamos participar da reanimação cardiopulmonar de um conhecido, que até dias antes estava conosco em conversas e momentos de lazer, sem sequer cogitar a possibilidade de adoecimento? Fatos como estes derrubam por terra a racionalização aprendida, e escancaram duramente a característica humana e frágil do profissional da saúde. Afinal, se meu colega de profissão e amigo pessoal adoeceu, quem garante que o próximo não serei eu?

Podemos entender o trauma como um evento externo ao indivíduo, mas que tem consequências internas. O evento é considerado traumático quando o indivíduo se sente incapaz de agir frente ao problema com os recursos psíquicos que possui, o que o leva a uma situação de estresse intenso. Isso ocorre, quando o evento ultrapassa em intensidade as ocorrências comuns, causando paralisação ou reações disfuncionais em quem o vive.

O organismo procura alternativas para retornar ao seu estado de equilíbrio, o que altera momentaneamente algumas funções corporais. Isso pode ser necessário imediatamente, porém torna-se prejudicial quando vivido de modo crônico e recorrente.

O grande problema, é que para uma parcela considerável da população, os efeitos não serão apenas imediatos, trazendo repercussões em médio e longo prazo, comprometendo duramente a qualidade de vida. O TEPT é caracterizado pelo surgimento de sintomas advindos da exposição a um ou mais eventos traumáticos, podendo sua apresentação clínica variar de acordo com o indivíduo afetado.

Para alguns, se manifestará por sintomas de revivência do medo, alterações emocionais e comportamentais podem ser predominantes, já em outros, podem prevalecer a anedonia e apatia, e ainda há indivíduos que apresentam combinações dos sintomas. Em todos os casos, os principais componentes observados são: sofrimento psíquico, prejuízo nas atividades diárias, comprometimento da qualidade de vida.

Considerando as principais manifestações desenvolvidas, observa-se aparecimento de sintomas em média três meses após a vivência traumática. Os estímulos associados com o trauma são sempre ou quase sempre evitados, com o indivíduo desprendendo grandes esforços para evitar pensamentos, pessoas, atividades diálogos ou sentimentos que remontem ao evento.

Também são verificadas dificuldades de concentração, memória e racionalização, sentimentos de culpabilização e ansiedade, desinteresse em atividades anteriores, dificuldades para dormir e manter o sono, maior incapacidade laboral, tornando inviável e arriscado o desenvolvimento de atividades complexas, com o caso das profissões em saúde.

A situação atual que os profissionais da saúde estão vivendo, os expõem a condições psíquicas semelhantes ao “estresse de combate”, situação em que o indivíduo acometido por forte tensão emocional, ainda é responsável por tomar decisões cruciais e imediatas, que colocam em risco a sua vida e a de outros. O componente mais importante apontado pela literatura como fator de alto risco de desenvolvimento do TEPT nestes casos, é a alta exposição ao risco.

Ouça também o podcast: Saúde mental dos profissionais em tempos de coronavírus

O ser humano segue humano, ainda que a função o treine para ser racional e tolerante ao sofrimento do outro. O profissional da saúde também segue humano e frágil, ainda que assuma um juramento de cuidar da sociedade. A emoção segue inerente ao ser humano, mesmo quando o momento exige comportamentos racionais e técnicos. Não, não somos heróis. Não temos superpoderes e nem imortalidade. Sim, estamos tentando fazer o melhor que é possível, utilizando nossa coragem, conhecimento e honra.

Estamos nos hospitais, acompanhando e cuidado da urgência do “outro”, enquanto tentamos colocar em suspenso nossa própria urgência. Fora dali, continuaremos sendo apenas humanos, pais, mães, filhos, esposos, irmãs, gente de carne e osso que tem sofrido todas as consequências secundárias à Covid-19, e com a responsabilidade pautada em juramento, de que seguiremos cuidando e honrando nossas profissões. Seguimos na linha de frente, firmes por fora, e dilacerados por dentro, tentando empurrar para um segundo momento todos os nossos medos e incertezas.

Em nosso íntimo, talvez exista o desejo de que num futuro próximo, quando tudo se acalmar, sejamos cuidados, fisicamente e emocionalmente, pelo mesmo sistema de saúde que nos tem exigido altruísmo, suor e lágrimas.
Saudações respeitosas de uma soldado em campo de batalha!

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