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Devido a pandemia de Covid-19, pacientes podem ter negligenciado suas consultas na Atenção Primária, gerando um quadro de subdiagnóstico

Houve subdiagnóstico de doenças na Atenção Primária durante a pandemia?

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Desde o início da pandemia por Covid-19, muitos países adotaram medidas de isolamento social que mantiveram as pessoas restritas em suas casas. É muito provável que a situação de emergência em saúde pública causada por essa doença tenha afetado o acompanhamento de outras condições de saúde também. Os pacientes podem ter deixado de realizar suas consultas na Atenção Primária à Saúde (APS) tanto por receio de contágio, quanto por informações de que o funcionamento dos serviços estivesse exclusivo para casos de Covid-19, gerando situações de subdiagnóstico.

Doenças com alta prevalência, geralmente tratadas na APS, como hipertensão e diabetes, se diagnosticadas tardiamente ou tratadas inadequadamente, podem significar um aumento de riscos e de mortalidade na população. Para estudar o efeito indireto da pandemia no diagnóstico e tratamento de doenças “não Covid” pela Atenção Primária à Saúde durante o período de pandemia, um grupo de pesquisadores da Inglaterra analisou dados de uma cidade de seu país no intuito de verificar possíveis quadros de subdiagnóstico.

Leia também: Como evitar a transmissão por Covid-19 durante as visitas domiciliares na Atenção Primária?

Método do estudo e população envolvida

A cidade de Salford, da região metropolitana de Manchester, com 250.000 habitantes, foi escolhida para a pesquisa. Os dados foram colhidos a partir da base Salford Integrated Record, que é alimentada diretamente pelos registros em prontuário eletrônico dos 47 Médicos de Família que atuam na cidade. Definiram-se 4 grupos de doenças a serem analisadas: transtornos mentais comuns; problemas cardiovasculares; diabetes tipo 2; e câncer. Apenas foram contabilizados os registros de primeiro diagnóstico, de modo a evitar contar aqueles já antigos, registrados novamente em consultas de revisão. Também foram extraídas informações de primeiras prescrições de medicamentos altamente indicativos de algum dos 4 grupos de doença selecionados (por exemplo, metformina para casos de diabetes).

A partir dessas seleções, foi realizado um estudo de coorte, retrospectivo, de 01 de Janeiro de 2010 até 31 de Maio de 2020, analisando a quantidade desses diagnósticos mês a mês. Utilizando modelos de regressão binomial negativa, construiu-se uma predição do número esperado de primeiros diagnósticos e primeiras prescrições para as condições selecionadas no período entre 01 de Março e 31 de Maio de 2020. Comparou-se, então, os números previstos para o período e os números registrados de fato. Foi considerada como diferença significativa uma variação maior do que 95% em relação à previsão. Essa variação foi testada para os outros meses entre 2010 e 2020, com os valores encontrando-se sempre dentro de 95%.

Resultados

Entre 01 de Março e 31 de Maio de 2020, foram realizados 1.073 primeiros diagnósticos de transtornos mentais comuns, representando uma redução de cerca de 50% em relação ao número esperado (2147). Também foram observadas reduções nos casos de problemas cardiovasculares, com 456 diagnósticos a menos quando comparados ao previsto, representando diminuição de 43,3%. Houve redução também do número de diabetes tipo 2 diagnosticadas, em 49%. Reduções de 39,1% nas prescrições de antidepressivos (relacionados aos transtornos mentais) e de 35,7% nas de metformina corroboram as informações a respeito de seus respectivos diagnósticos. Já a diminuição dos diagnósticos de câncer não se mostrou significativa no período, apresentando redução mais importante quando analisado o mês de Maio isoladamente.

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Mensagem prática

O estudo avalia que problemas de saúde vêm sendo não diagnosticados e não tratados durante a pandemia pela APS. Mesmo sendo uma pesquisa realizada apenas em uma cidade inglesa, os resultados devem soar como alerta para os Médicos de Família e equipes de Saúde da Família. As reduções das prescrições no período acompanhando as dos diagnósticos sugerem que há, de fato, subdiagnóstico na Atenção Primária à Saúde — não apenas falha no registro médico. Alguns estudos já demonstraram subdiagnóstico em emergências durante a pandemia e o atual artigo aponta para essa tendência também na Atenção Primária à Saúde.

A diminuição da utilização dos serviços de saúde, notadamente da APS, acarreta em importantes impactos negativos. As condições analisadas no estudo, quando diagnosticadas tardiamente ou não tratadas adequadamente, trazem como consequência piora importante de prognósticos, aumento de mortalidade e procura dos serviços pelos pacientes com quadros mais graves e de mais difícil recuperação.

Diante dos prováveis diagnósticos atrasados ou não realizados, é esperado que a APS se depare com aumento importante de pacientes com problemas de saúde em condições mais graves ou avançadas, conforme a restrição social for se flexibilizando e as pessoas forem perdendo o medo de se contagiar. Nesse sentido, é pertinente que os serviços se adaptem a essa provável realidade, exigindo das equipes, mais do que nunca, a utilização de medidas de promoção e prevenção na comunidade, com busca ativa e estratégias de vigilância, de maneira a tentar mitigar esse efeito. Além disso, a adequação e flexibilização do acesso e das agendas deve ocorrer de modo a absorver esse impacto com maior qualidade e atenção possíveis.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Williams R, Jenkins DA, Ashcroft DM, Brown B, Campbell S, Carr MJ et al. Diagnosis of physical and mental health conditions in primary care during the Covid-19 pandemic: a retrospective cohort study. The Lancet Public Health. 2020 Sep 17. https://doi.org/10.1016/S2468-2667(20)30201-2

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