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Influência da Diabetes Mellitus nas doenças crônicas e agudas

Tempo de leitura: 6 minutos.

Diabetes Mellitus (DM) é um importante e crescente problema de saúde na maioria dos países, independentemente do patamar de desenvolvimento. Trata-se de desordem crônica caracterizada por metabolismo prejudicado de glicose com o desenvolvimento posterior de complicações diversas envolvendo distintos mecanismos patogenéticos, que têm a hiperglicemia como denominador comum. Em 2015, a Federação internacional de diabetes (IDF) estimou que 8,8% da população mundial com 20 a 79 anos de idade (415 milhões de pessoas) viviam com diabetes. Cerca de 75% dos casos são de países em desenvolvimento, com propensão ao aumento da incidência e prevalência nas próximas décadas¹.

Considerando tais fatores, chama a atenção a baixa conscientização e prevenção em relação ao diabetes tipo 2, que pode permanecer não detectado por vários anos, dando oportunidade ao desenvolvimento de suas complicações. Estima-se que cerca de 46-50% dos casos de DM2 não sejam diagnosticados e que 83,8% destas subnotificações estejam em países em desenvolvimento 2. O aumento do número de pessoas com doenças crônico-degenerativas tem se constituído um desafio para os serviços de saúde e para a sociedade de modo geral, chamando ainda mais atenção para a associação de patologias e comorbidades enquanto dificultador dos bons resultados terapêuticos. Tais complicações reduzem a capacidade funcional e condição laboral dos pacientes, resultando no afastamento de indivíduos em idade produtiva de suas respectivas profissões, mobilizando situações psicossociais que podem comprometer a volição, interação relacional, autoestima e adesão ao tratamento.

Doença cardiovascular é a principal causa de óbito entre as pessoas com diabetes, sendo responsável por pelo menos metade das mortes desta classe. Câncer e diabetes são duas das principais causas de morte nos Estados Unidos, fazendo parte também da mudança epidemiológica brasileira e mundial de prevalência de morbimortalidade por doenças crônicas. Apesar dos diagnósticos isolados já serem preocupantes, a associação patológica é complexa e vem sendo investigada desde a década de 1990, visto que estimativas atuais apontam que 1 em cada 5 pessoas com câncer também tem diabetes3.

Pesquisadores têm afirmado que o diabetes aumenta o risco de desenvolvimento de câncer, em especial no tipo 2, que costuma ser precedido por picos glicêmicos e insulínicos no sangue. Considerando que a glicose dá energia para a multiplicação celular e a insulina é um acelerador metabólico, conforme demonstrado em estudos in vitro, a manifestação da doença traria condições propícias para o desenvolvimento de câncer(4,5). Independentemente da ordem de aparecimento, há influência da associação das duas doenças em relação ao prognóstico, devendo ser considerada com atenção.

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Outras linhas de pesquisa apontam para o desenvolvimento do DM2 secundário ao diagnóstico oncológico, inferindo a parcela da responsabilidade ao próprio paciente. Essa identificação aponta para a necessidade mais ativa do trabalho da psicologia e equipe multiprofissional na atenção de baixa e média complexidade em saúde, em especial utilizando o recurso da psicoeducação, estimulação do autocuidado e responsabilização do paciente em seu próprio tratamento. Isso porque, considerando a crença de alta letalidade do câncer, assim como outras doenças crônicas, os pacientes passam a descuidar de aspectos importantes da rotina diária, deixando de lado hábitos saudáveis, necessários para manutenção da saúde a médio e longo prazo e contribuindo para o aparecimento de outras comorbidades que propiciam a descompensação da doença de base(4,5).

Ainda são limitados os resultados dos estudos realizados sobre a associação das doenças, tanto que alguns autores defendem a mera coincidência da concomitância de DM e neoplasias malignas, assim como com doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, pela maior predisposição devido à idade avançada. Em se tratando de má evolução clínica associada ao aparecimento de outras patologias crônicas, poderíamos citar desde a nefropatia diabética, causa importante de morbimortalidade, hipertensão arterial, doenças macro e microvasculares, depressão e tantas outras associações perigosas que colocam em cheque a boa evolução clínica e qualidade de vida do paciente diabético.

Pensando em quadros agudos, sabe-se que a tuberculose representa um grande desafio ao sistema de saúde, principalmente na associação com DM. Além do diabetes comprometer de forma importante o tratamento da tuberculose, inferindo em taxas aumentadas de óbito, a própria tuberculose pode induzir intolerância à glicose e dificultar o controle glicêmico dos diabéticos, levando a um ciclo de difícil manejo.

Em 2015, estudos no Brasil mostraram um total de 6,1% de mortes por tuberculose, cujo risco é maior em pacientes com DM, (RR= 3,94)6. O fato mais alarmante é que a prevalência de tuberculose está relacionada a fatores psicossociais e desigualdades, escancarando mais uma vez as falhas em prevenção e educação em saúde em determinadas regiões do país.

Ainda considerando a vertente infeciosa, outro aspecto que requer atenção especial no paciente diabético e depende fortemente do autocuidado e trabalho preventivo, são as lesões de membros inferiores, associadas à hidratação e proteção inadequada da pele. Apesar de parecer ser condição simples e de fácil tratamento, acaba como porta de entrada para infecções de difícil controle que podem resultar em lesões irreversíveis, chegando ao ponto de necessidade de amputação. O trabalho educativo e preventivo seria a condição de base para o controle do DM2, adesão adequada ao tratamento e melhor conhecimento da patologia. Esse trabalho tem potencial de modificação social quanto à necessidade de adequação dos hábitos de vida, cuidados em saúde, e, indiretamente, traria maior conhecimento para o controle de outras condições de risco, como obesidade, prejuízos da alimentação rica em sódio, açúcar e gorduras, consumo indiscriminado de álcool e tabaco, estimulando a responsabilização em saúde e escolhas de vida, que são fatores diretamente ligados ao surgimento de outras patologias crônicas.

O processo de educação em diabetes

É importante entender que o trabalho de prevenção e educação sobre diabetes não é responsabilidade de um único profissional e depende de integração de diversas áreas do conhecimento que estabelecem como foco a atenção total ao portador. O objetivo principal deste processo é que o paciente e sua rede de apoio familiar assimilem a condição atual, informações necessárias sobre a patologia, recebam treinamento técnico para o controle adequado dos sintomas para desenvolver recursos e habilidades no intuito de conviver de modo saudável com a doença.

Sugere-se que, em situações já diagnosticadas, além dos grupos voltados à adesão, onde o foco é ofertar orientações sobre as adequações mais urgentes a serem implementadas, haja também regularidade nas avaliações. Deve-se atentar ao comportamento de autocuidado, acompanhamento das metas de controle individuais e observação dos comportamentos sociais e relacionais no processo de adequação às limitações da doença, estimulando a preservação da singularidade do portador e buscando manter os cuidados, adaptando-os à sua rotina de vida.

Para a adesão adequada é importante ofertar informações suficientes e suporte multiprofissional: garantia de apoio social para a manutenção do tratamento, acesso às medicações contínuas e controle ambulatorial; informações médicas e de enfermagem com planejamento de metas periódicas e acompanhamento dos exames; avaliação e educação nutricional para inserção progressiva à rotina; indicação individualizada de atividade física; suporte psicoemocional ao paciente e à família para melhor assimilação e adequação às mudanças ocasionadas pelo diagnóstico.

Apesar do suporte, que já é possível atualmente com projetos específicos de atenção ao diabético, a medida inicial que deve ser mobilizada diz respeito às estratégias de prevenção e educação da população. Conscientizar sobre o impacto das escolhas de vida contempla a diminuição de incidência de doenças crônicas ligadas aos hábitos inadequados, prepara os usuários para atentar-se aos sintomas iniciais de doenças, favorecendo o diagnóstico precoce, e impacta diretamente na redução dos custos da assistência curativa em saúde, assim como gastos relacionados às complicações da doença que hoje são as principais causadoras de óbito precoce e morbidade no paciente diabético.

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Autor:

Mariana Batista Leite Leles

Psicóloga Hospitalar ⦁ Residência em Urgência e Trauma ⦁ Especialização em Psico-oncologia ⦁ Membro da diretoria da AMIB, Departamento de Psicologia aplicada à Terapia Intensiva.

Referências:

  • 1. Internacional Diabetes Federation. IDF Atlas. 7Th ed. Brussels, Belgium: International Diabetes Federation; 2015
  • 2. World Health Organization, editor. Global health risks: mortality and burden of disease attributable to selected major risks. Geneva, Switzerland: World Health Organization; 2009.
  • 3. Jemal A, Bray F, Center, MM, Ferlay, J et al. Global cancer statistics. CA Cancer J Clin. 2011 Mar-Apr;61(2):69-90.
  • 4. Bertolazzi LG, Domingues Junior JL, Carmo, VCMFO, Fernandes, FLC. Prevalence of diabetes in patients with intestinal malignancies in a teaching hopital. Rev Bras de Oncologia Clínica, 2015: 11(40)71-77.
  • 5. Yang GTC, Ko GTC, So WY et al. Associations of hyperglycemia and insulin usage with the risk of cancer in type 2 diabetes: the Hong Kong diabetes registry. American Diabetes Association-diabetes; 2010. 59(5):1254-1260.
  • 6. Dobler CC, Flack JR, Marks GB. Risk of tuberculosis among people with diabetes mellitus: an Australian nationwide cohort study. BMJ Open. 2012;2(1):e000666.
  • 7. Pereira SM, Araújo GS, Santos CAST, Oliveira MG, Barreto ML. Associação entre diabetes e tuberculose: estudo de caso controle. Rev Saúde Pública. 2016; 50(82)1-7.

2 Comentários

  1. Excelente matéria.

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