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médico segurando teste de covid-19 em negros

Maior susceptibilidade de Covid-19 em negros: aspectos socioeconômicos ou disparidades biológicas?

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A recente pandemia descrita como síndrome do desconforto respiratório agudo, e outras patologias associadas ao novo coronavírus SARS-CoV-2, mundialmente conhecidas como Covid-19, tem prolongado e estimulado estudos que permitam compreender a fisiopatologia e os aspectos epidemiológicos envolvidos.

A desproporção de infectados, casos graves e o número de óbitos observados entre as diferentes raças/etnias tem sido um destaque importante na recente pandemia associada ao vírus.

A doença, além de aprofundar as evidências da desigualdade socioeconômica nos diferentes países, também tem despertado a atenção sobre as possíveis hipóteses que justificariam variações nas taxas de incidência entre diferentes populações.

Covid-19 em negros

Alguns pesquisadores sugerem que a raça ou etnias poderiam ter propriedades biológicas associadas, em adição aos contrastes sociais e econômicos, que favoreceriam a morbidade e a mortalidade em determinados grupos populacionais.

Nos Estados Unidos, por exemplo, verifica-se que as taxas de infecção e de óbitos por Covid-19 são 2 a 3 vezes maiores em indivíduos negros, em comparação à população em geral. Poulson e colaboradores (2020), analisaram os dados de mais de 120 mil casos confirmados notificados ao Centers for Diseases Control and Prevention (CDC, Atlanta, EUA) e verificaram a predominância de infecções em negros jovens, sexo feminino e com maior número de comorbidades.

Após os ajustes de covariáveis, o risco de hospitalização observado foi 1,4x maior em pacientes negros e risco de necessidade de tratamento intensivo com suporte ventilatório 1,8x maior quando comparados aos doentes brancos. O risco de morte também foi 1,36x maior, e as disparidades aumentavam nas idades avançadas.

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Sabe-se que as disparidades sociais e econômicas, desde às piores condições de infraestrutura de moradia, acesso a alimentação e medicamentos, saneamento, salários, jornadas de trabalho, exposição em profissões de risco, discriminação, racismo estrutural, confinamento, locais de moradia, aspectos educacionais, comorbidades, até o acesso a instituições de saúde públicas ou privadas, são fatores de vulnerabilidade que afetam negativamente e profundamente as populações negras quanto ao prognóstico pela Covid-19, especialmente em países com desigualdade social destacada.

Millett e cols. (2020) reforçam os achados citados indicando que os negros corresponderam a 52% dos diagnósticos de COVID-19 confirmados e 58% dos óbitos por essa causa nos EUA.

Mas seria também possível a existência de aspectos biológicos que justifiquem o pior cenário observado das infecções por SARS-CoV-2 em pacientes negros?

Raisi-Estabragh e cols. (2020) avaliaram em análise multivariada de 1326 casos positivos para Covid-19 (n total = 4510) do Biobank no Reino Unido e os resultados desvinculam o maior risco de doença grave em negros, asiáticos e minorias étnicas dos fatores como comorbidades cardiometabólicas, fatores socioeconômicos, comportamentais ou dosagem sérica de vitamina D – 25(OH).

Esses autores reforçam as hipóteses de aprofundamento em estudos direcionados à provável susceptibilidade genética e biológica. Outro estudo, publicado por Price-Haywood e cols. (2020) também indica que não haveria maior risco de doença grave óbito em negros com COVID-19 no estado de Lousiana, EUA, quando comparados aos doentes brancos internados, questionando os resultados de estudos transversais prévios.

Um dos estudos que investigam propriedades biológicas que justifiquem essas disparidades está relacionado à densidade de receptores no epitélio de mucosas respiratórias. A infecção pelo SARS-CoV-2 envolve a disseminação por via aérea e um receptor do tipo serina protéase transmembrana 2 (TMPRSS2) no processo de infecção do hospedeiro humano.

Este receptor é principalmente expresso no epitélio nasal e brônquico e ativas espículas proteicas de SARS-CoV-2 e cliva o receptor da enzima conversora de angiotensina 2 ao qual o vírus se liga e inicia seu processo de infecção. Esse mesmo receptor TMPRSS2 tem sido associado à maior incidência de câncer de próstata em negros, quando comparados a homens brancos.

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Com os avanços dos achados relacionados à fisiopatogenia do vírus associado a Covid-19, diversos pesquisadores tem procurado correlacionar ou inferir resultados de estudos anteriores como suporte às hipóteses novas surgidas com a nova pandemia.

De forma a esclarecer o possível papel dessas estruturas na infecção, Bunyavanich, Grant & Vicencio (2020) avaliaram a expressão do receptor TMPRSS2 em uma coorte com diversidade racial/étnica com amostras de epitélio nasal coletado entre 201-2018 no Mount Sinai Health System (Nova Iorque, NY, EUA).

A amostragem incluiu 305 indivíduos asiáticos, negros, latinos, brancos e de raça/etnicidade mista, saudáveis ou indivíduos com asma, entre 4 e 60 anos, que tiveram os espécimes coletados para a pesquisa de biomarcadores para asma. O RNA total foi extraído seguido de sequenciamento e análise comparativa, com aplicação de regressão linear ajustada para idade, sexo e asma com expressão de TMPRSS2.

Os resultados indicaram maior expressão nasal de TMPRSS2 entre indivíduos negros (n = 47, média 8,64 [95% CI, 8.41-8.86] log2 unidades por milhão), quando comparados com outras características de indivíduos incluídas no estudo. Não houve associação significante entre a expressão desse receptor com sexo, idade ou asma.

Dessa forma, os autores sugerem que tal desproporção na expressão de TMPRSS2 favoreça os números de infecções e mal prognóstico entre os indivíduos negros. Adicionalmente tais achados estimulam os estudos de desenvolvimento de medicamentos inibidores de TMPRSS2, como “camostat mesylate” atualmente em fase de ensaios clínicos.

Os detalhes dessa discussão extensivamente abordada recentemente podem ser observados nas referências abaixo.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Bunyavanich S, Do A, Vicencio A. Nasal gene expression of angiotensin-converting enzyme 2 in children and adults.JAMA. 2020;323(23): 2427-2429. doi:10.1001/jama.2020.8707).
  • Bunyavanich S, Grant C, Vicencio A. Racial/Ethnic Variation in Nasal Gene Expression of Transmembrane Serine Protease 2 (TMPRSS2) [published online ahead of print, 2020 Sep 10]. JAMA. 2020;10.1001/jama.2020.17386. doi:10.1001/jama.2020.17386.
  • Hoffmann M, Kleine-Weber H, Schroeder S, et al. SARS-CoV-2 cell entry depends on ACE2 and TMPRSS2 and is blocked by a clinically proven protease inhibitor. Cell. 2020;181(2):271-280.e8. doi:10.1016/ j.cell.2020.02.052
  • Millett GA, Jones AT, Benkeser D, et al. Assessing differential impacts of COVID-19 on black communities. Ann Epidemiol. 2020;47:37-44. doi:10.1016/j.annepidem.2020.05.003.
  • Poulson M, Geary A, Annesi C, et al. National Disparities in COVID-19 Outcomes between Black and White Americans [published online ahead of print, 2020 Aug 7]. J Natl Med Assoc. 2020;S0027-9684(20)30149-8. doi:10.1016/j.jnma.2020.07.009.
  • Price-Haywood EG, Burton J, Fort D, Seoane L. Hospitalization and Mortality among Black Patients and White Patients with Covid-19. N Engl J Med. 2020;382(26):2534-2543. doi:10.1056/NEJMsa2011686.
  • Raisi-Estabragh Z, McCracken C, Bethell MS, et al. Greater risk of severe COVID-19 in Black, Asian and Minority Ethnic populations is not explained by cardiometabolic, socioeconomic or behavioural factors, or by 25(OH)-vitamin D status: study of 1326 cases from the UK Biobank. J Public Health (Oxf). 2020;42(3):451-460. doi:10.1093/pubmed/fdaa095.
  • Yancy CW. COVID-19 and African Americans.JAMA. 2020;323(19):1891-1892. doi:10.1001/jama.2020.6548
  • Yuan J, Kensler KH, Hu Z, et al. Integrative comparison of the genomic and transcriptomic landscape between prostate cancer patients of predominantly African or European genetic ancestry. PLoS Genet. 2020;16(2):e1008641. doi: 10.1371/journal.pgen.1008641

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