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Morte súbita em pacientes coronariopatas sem disfunção grave do VE

Tempo de leitura: 3 minutos.

Morte súbita pode chegar a ser responsável por 15 a 20% das mortes no mundo. Sabemos que DAC é um dos substratos mais comum para sua ocorrência (usamos comumente o termo “morte elétrica” para se referir a morte súbita por arritmias ventriculares malignas). Pelas diretrizes atuais, recomenda-se o implante de cardiodesfibrilador implantável (CDI) em pacientes com coronariopatia e disfunção grave do VE, cursando com insuficiência cardíaca (classe funcional 2 e 3) como profilaxia primária de morte súbita (MS). No entanto, pouco se sabe sobre a incidência de arritmias malignas/morte súbita em pacientes com DAC, mas sem disfunção grave do VE.

Pesquisadores norte-americanos e canadenses estudaram de 2007 a 2013 uma coorte com 5.761 pacientes com coronariopatia, mas com fração de ejeção do VE (FEVE) > que 35% ou entre 30 e 35% com classe funcional 1 (NYHA). Foram coletados dados diversos sobre os pacientes (medicamentos, resultados de exames, hábitos de vida, histórico médico, etc) e investigações detalhadas sobre morte para tentar caracterizar bem casos de MS/morte arrítimica (abortadas ou não) com acesso a testemunhas e documentos sobre atendimento médico de urgência/ implante de CDI.

As incidências acumuladas foram calculadas em pacientes.ano a partir da entrada no estudo até os possíveis desfechos: morte, parada cardiorrespiratória extra-hospitalar, implante de CDI ou último contato no seguimento. Foram calculadas as taxas de morte súbita/morte arrítmica (provável ou confirmada) para os diferentes subgrupos dos pacientes em estudo para tentar se identificar fatores que pudessem estar relacionados a um risco maior de MS/MA.

Resultados

A mediana de idade foi em torno de 64 anos e a maioria (80%) dos pacientes estava em CF 1. Outro aspecto importante foi o tratamento clínico otimizado. Durante todo o seguimento, 3% dos pacientes tiveram CDIs implantados em um seguimento mediano de 3,9 anos. Um total de 559 mortes (10% do total de pacientes) ocorreram.

  • 559 mortes -> 305 não-cardíacas (54,6%) + 52 indefinidas (9,3%) + 202 cardíacas (36,1%) -> 114 foram morte súbitas/arrítmicas (20,4% do total das mortes);
  • 11 pacientes tiveram MS/MA abortadas em ambiente extra-hospitalar, gerando um desfecho primário (MS abortada ou não) em um total 125 pacientes, sendo que 70% aconteceu dentro da casa do paciente e 58% não teve qualquer sintoma precedendo a MS/MA;
  • A incidência cumulativa em 4 anos de MS/MA foi para esta coorte: 2.1% (95% IC, 1.8-2.6) X 7,7% (95% IC, 7.0-8.5) para mortes por outras causas;
  • Reduzir a FEVE esteve associada com aumento progressivo da incidência acumulada de MS/MA e mortes por outras causas de tal forma que cada redução de 10% na FEVE esteve relacionada a um aumento de 71% na incidência de MS/MA (HR subdistribuiçao por 10% de redução: 1.71; 95% IC, 1.40-2.11; P < .001);
  • Os maiores riscos absolutos de MS/MA encontrados foram para os pacientes com a menor faixa de FEVE (30%-39%, incidência em 4 anos: 4.9%; 95% IC, 3.0-7.6) e IC mais sintomáticos (CF 3 e 4 NYHA, incidência em 4 anos: 5.1%; 95% IC, 2.6-8.9);

LEIA MAIS: Associação entre hipocalcemia e risco de morte súbita

Discussão

Morte súbita foi 20% de todas as mortes e o tipo mais comum de morte cardíaca e de morte entre pacientes com menos de 60 anos de idade (49% das mortes nesse grupo);

Apesar de a maioria ter ocorrido em casa, a parcela de pacientes com MS/MA e documentação eletrocardiográfica evidenciou 60% desses com FV/TV (proporção maior que outros registros publicados de MS), ressaltando a importância de estratégias que permitam a chegada rápida de um desfibrilador externo automático (DEA) nessa situação;

A incidência anual de MS/MA foi de 0,53% (10x mais que a população geral). Novos escores de estratificação de risco teriam que ser capazes de aumentar esse risco em 6x para que se atingisse as incidências encontradas nos estudos que embasam a indicação de CDI como prevenção primária e possível benefício em redução de mortalidade.

Conclusão

Apesar de haver várias limitações a esse estudo, ele serve para levantar questionamentos sobre prevenção de morte súbita em pacientes coronariopatas que não se encaixam nas recomendações de prevenção primária atuais. E que outros estudos abordem esse tema para identificarmos nesse grupo os que teriam maior risco de MS/MA.

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Autor:

Referências:

  • Neal A. Chatterjee, MD et al; Sudden Death in Patients With Coronary Heart Disease Without Severe Systolic Dysfunction; JAMACardiol. doi:10.1001/jamacardio.2018.1049

Um comentário

  1. ANGELA VON NOWAKONSKI

    Gostaria que os próximos artigos tivessem uma relação das abreviaturas com seusdevidos significados, porque nem todos os médicos estão acostumados com isso. Principalmente aqueles que não tem a mesma especialidade do autor.

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