Página Principal > Colunistas > Nem toda faringite é bacteriana, nem mesmo viral!
medica examinando criança

Nem toda faringite é bacteriana, nem mesmo viral!

Tempo de leitura: 3 minutos.

Faringite, em criança, pode não ser viral, nem bacteriana, e sim parte de uma síndrome auto-inflamatória chamada PFAPA (periodic fever, aphtous stomatitis, pharyngitis, cervical adenitis). É muito importante conhecê-la e saber como diagnosticá-la para, além de tratar corretamente, evitar o uso desnecessário de antibiótico e reduzir a ansiedade dos pais.

DEFINIÇÃO

PFAPA é uma síndrome de febre periódica que se caracteriza por episódios recorrentes de febre alta, estomatite aftosa, faringite e adenite cervical. Geralmente, inicia-se entre 2 e 5 anos de idade, com discreta predominância no sexo masculino e cessa até os 10 anos (embora existam relatos de casos em adultos).

É considerada uma enfermidade benigna, porém sem etiologia definida.

MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

A febre periódica é a característica principal dos episódios de PFAPA. Começa abruptamente, muitas vezes acompanhada de calafrios, com temperaturas que variam de 38,9 a 41,1º C e duração de 3 a 6 dias. As crianças apresentam-se saudáveis e com crescimento e desenvolvimento adequados entre os episódios febris, cujo intervalo é, classicamente, de 28 dias (variando de 3 a 6 semanas).

As úlceras aftosas, geralmente, surgem nos lábios ou mucosa bucal e ocorrem em 40 a 70% dos pacientes. Podem ser pequenas e em pouca quantidade, sendo, muitas vezes, despercebidas.

Adenopatia cervical ocorre na maioria dos casos. A faringite com exsudato em tonsilas palatinas acompanha a febre, mas pode só estar presente no 5º ao 7º dia de doença, o que, por vezes, atrasa o diagnóstico.

Outros sintomas não específicos podem estar associados, como cefaleia, mialgia e dor abdominal.

Mais da autora: ‘Você realmente conhece a síndrome de Down?’

DIAGNÓSTICO

Não há nenhum teste laboratorial específico para o diagnóstico de PFAPA até o momento. Leucocitose moderada e aumento de VHS e proteína C reativa podem ocorrer durante o episódio, mas normalizam entre as crises.

O diagnóstico de PFAPA é realizado em bases clínicas. Para tanto, todos os critérios abaixo devem estar incluídos:

– mais de três episódios de febre documentados, com duração menor de 7 dias e ocorrendo em intervalos regulares (3 a 6 semanas);
– presença de faringite mais linfadenopatia cervical dolorosa ou úlceras aftosas;
– crescimento e desenvolvimento normais com boa condição de saúde, sem sintomas e anormalidades laboratoriais, entre os episódios;
– resolução imediata dos sintomas após uma única dose de prednisona/prednisolona 2 mg/kg via oral.

Existem alguns critérios de exclusão que, se presentes, afastam o diagnóstico de PFAPA. São esses:

– neutropenia: imediatamente antes ou durante o ataque sugere neutropenia cíclica, doença que se assemelha a PFAPA;
– sintomas como tosse, coriza, dor abdominal severa, diarreia significativa, rash, artrite ou alterações neuromusculares, presentes na maioria das crises;
– provas de atividade inflamatória, como VHS e proteína C reativa, elevadas entre os episódios;
– história familiar de febre recorrente.

DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL

Dentre os diagnósticos diferenciais de PFAPA, estão as síndromes de febre recorrente, sendo a mais importante a neutropenia cíclica (hematopoiese cíclica), única outra desordem da infância com febre periódica verdadeira.

Nos primeiros episódios, quando ainda não se conhece a periodicidade das crises, o diagnóstico pode ser confundido facilmente com infecções virais ou bacterianas.

TRATAMENTO

Como PFAPA é uma doença autolimitada e não deixa sequelas, o tratamento é opcional, devendo ser conversado com a família sobre benefícios e potenciais efeitos colaterais das medicações.

O tratamento da crise é feito com prednisona/prednisolona 1-2 mg/kg em dose única, com resolução rápida (em horas) da febre e da faringite. Úlceras aftosas e adenite demoram um pouco mais a melhorar. O maior benefício do uso de glicocorticoide é limitar o sofrimento da criança e um dos riscos é uma possível redução do intervalo entre os episódios da doença, além de inquietação e distúrbios do sono.

Pacientes com intervalo entre os episódios de PFAPA diminuído após a terapia com corticoides podem se beneficiar do tratamento simultâneo com colchicina por um período de 3 a 6 meses, embora não seja recomendado como rotina.

Como medida profilática, foi observada redução da frequência das crises com o uso de cimetidina (20-40 mg/kg/dia em doses divididas a cada 12 horas). Caso haja diminuição ou eliminação dos episódios de PFAPA, a droga deve ser suspensa após 6 meses de uso contínuo.

Tonsilectomia é um tratamento eficaz, mas reservado aos casos que não respondem ao tratamento conservador.

Outras terapias experimentais incluem suplementação com vitamina D e uso de montelucaste, mas ainda são necessárias maiores pesquisas para sua recomendação rotineira.

É médico e também quer ser colunista do Portal PEBMED? Clique aqui e inscreva-se!

Autora:

2 Comentários

  1. JULIANA SOUZA SABINO

    interessante. principalmente pra quem precisa atender os pequeninos nas urgências

  2. Egle Martins Siqueira Saraiva

    Ownn, maldita pfapa… queria que todos os pediatras conhecessem…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.