Página Principal > Psiquiatria > O que é síndrome do hospitalismo no adulto?
cuidados paliativos

O que é síndrome do hospitalismo no adulto?

Tempo de leitura: 5 minutos.

Após a Segunda Guerra Mundial, René Spitz se tornou pioneiro no estudo de bebês, a partir da pesquisa com crianças órfãs ou abandonadas, deixadas em abrigos ou hospitais, que recebiam cuidados físicos, mas pouco afeto ou atenção. Por meio do conceito de hospitalismo, Spitz descreve os efeitos terríveis da falta de atenção qualitativa nos recém-nascidos.

Hospitalismo em crianças

Neste estado, a criança gradualmente perderia o interesse pelo que o cerca, tornando-se apática, sem tonicidade motora, com dificuldades de adaptação ao meio, atraso no desenvolvimento, repercutindo em alterações emocionais e comportamentais graves, podendo deixar de se alimentar e, em casos extremos de privação materna, até mesmo morrer. Mas é possível que o hospitalismo se manifeste na pessoa adulta?

As reações de um ser vivo ao ambiente que o cerca podem ser chamadas de comportamento. Para que tal reação ocorra, é necessário que haja captação dos estímulos do meio através dos órgãos do sentido e processamento de informações, formando as respostas.

Os estímulos externos mobilizam reações de estresse, que é condição básica para o desenvolvimento e movimento de busca humana. Entretanto, designa também uma agressão que leva a situações de desconforto, caso seja mantido por longos períodos. Trata-se de um esforço do organismo para se adaptar a algum estímulo, ou para o enfrentamento de situações ameaçadoras à vida/equilíbrio interno. Apesar de o estresse fisiológico ser uma reação normal, quando a resposta é patológica, o indivíduo mal adaptado registra uma disfunção, que leva a distúrbios transitórios ou doenças graves, podendo inclusive agravar aquelas já existentes ou de predisposição genética.

O que é hospitalismo?

Hospitalismo pode ser definido como a “somatória de prejuízos que o ser humano adquire pelo fato de permanecer internado em um hospital que tem em conta sua condição de enfermo, mas marginaliza os determinantes de sua unidade estrutural biopsicossocial” (Greco, 1998, p. 312). Tal afirmativa se refere à característica institucional de prestar assistência direcionada ao restabelecimento orgânico, através do cuidado “operacional”, desconsiderando entretanto todas as necessidades subjetivas da pessoa. Esse comportamento, quando mantido por longos períodos, pode condicionar o ser humano a se comportar automaticamente, sem afeto, sem desejos, em resposta ao tipo exclusivo de estímulo que lhe é feito.

É característica contemporânea das unidades de saúde tentar inserir o paciente nos protocolos institucionais existentes, compatíveis com sua patologia. Isso é um erro. Obviamente devemos sim utilizar base reconhecida que respalde nossa assistência, sempre optar por protocolos e diretrizes “de tratamento à patologia”, mas não limitar as possibilidades de cuidado ao doente. A assistência em saúde é muito mais ampla que protocolos institucionais pré-existentes, pois envolve o cuidado ao outro, a atenção às demandas singulares apresentadas de modos distintos que dão significado à nossa condição humana.

O hospitalismo apesar de compreendido como condição patológica, acaba funcionando como uma tentativa desesperada de sobreviver à condição hostil e restrita em estímulos e sentimentos, imposta pelo isolamento prolongado no ambiente hospitalar. Ainda que todo o cuidado operacional da equipe seja realizado com maestria e cautela, a vinculação afetiva de referencial ao ser humano é quebrada, por não ser suficientemente forte e expressiva. Tal condição de privação de estímulos familiares/rotineiros/significativos podem resultar em apatia, anedonia, desesperança, passividade, regressão emocional, até casos de desinvestimento afetivo e morte. Trata-se de uma ruptura patológica com o meio, com a vida, com a vinculação afetiva prévia.

As reações orgânicas e emocionais decorrentes deste processo, tanto de ordem somática quanto psicológica, desenvolvem-se em razão da progressiva deterioração da sua saúde física e mental, ocasionada pela ausência da família, quebra prolongada dos laços significativos e privação de afeto. No contexto de uma internação prolongada em UTI, por vezes, na tentativa de restabelecer a condição de saúde orgânica, o foco do cuidado deixa de ser “total”, e como consequência, colaboramos para a ruptura dos vínculos sociais do ser humano, que se abalam frente a separação física imposta pela hospitalização. Tal situação, se não for mediada, pode se tornar permanente, dificultando a interação paciente-família e estendendo-se ao ambiente domiciliar.

Possíveis causas

Esse fenômeno ocorre porque, frente à internação de um de seus membros, o grupo familiar necessita se reorganizar em relação aos seus papéis e funções para que continue funcionando. Com o passar dos meses, aquilo que antes era uma adaptação temporária passa a ser realidade permanente, na qual o paciente já não está mais integrado de modo participante.

O ato de pertencimento é necessário para a manutenção dos vínculos significativos do ser humano. É a condição que promove referenciação com o outro, iniciada com a figura materna desde o nascimento e períodos iniciais de vida, e, posteriormente, na fase adulta, determinada pelas relações desenvolvidas por laços subjetivos (casamento, filhos, amizades de longa data). O apego é um vínculo afetivo desenvolvido pelo indivíduo em relação a um parceiro que, por sua importância, deseja-se que sempre esteja próximo, e que não pode ser substituído por nenhum outro. Este comportamento desenvolvido na infância, por volta dos três meses do nascimento, é reafirmado outras vezes na vida adulta, porém dirigido a pessoas de um ciclo social, extra-família nuclear.

Leia mais: Qual é o papel do psicólogo na visita social em UTI?

Mas se são laços criados em um segundo momento porque não podem ser substituídos temporariamente? Porque tratam-se de pessoas escolhidas entre milhões de outras, exatamente por suas características específicas que permitiram a vinculação efetiva. O cuidado operacional oferecido por profissionais de saúde pode funcionar como um substitutivo temporário, como algo necessário para suprir as prioridades básicas de sobrevivência, mas, interagir somente com tais estímulos e vinculações superficiais, perde-se gradativamente as referências afetivas, a capacidade de interação genuína com o outro, passando a apresentar respostas e comportamentos automáticos, conforme os que lhe são ofertados.

Apesar das fases iniciais de desenvolvimento (infância) serem determinantes na formação motora, cognitiva e afetiva, o ser humano independentemente da idade possui características de adaptação e flexibilidade em situações de crise. Esse é um mecanismo de defesa, um recurso de sobrevivência em situações limítrofes. Entretanto, se este recurso permanece ativo por um longo tempo, o período “adaptativo” pode se tornar uma condição de vida, que não será suficientemente significativa para mobilizar motivações afetivas internas de recuperação e existência. Estamos falando de situações em que ocorre uma perda de si, sem novos reencontros.

É deixar de se perceber como ser subjetivo, para sentir apenas aquilo que o outro nos aponta frente aos cuidados operacionais. É extinguir as vontades, particularidades, desejos internos, para apenas se deixar conduzir, até que nada mais faça sentido. É existir sem viver, anular-se em sentimentos, resumir-se à apatia e à anedonia.

Sinais do hospitalismo

Os principais sinais do hospitalismo no adulto podem ser identificados pelo isolamento, introspecção, apatia, indiferença ou pensamento predominantemente pessimista em relação a si, sensação de ruptura, afastamento emocional da família, dependência crônica do outro, desautonomia, desinvestimento afetivo. Pensando em intervenções psicológicas de efetividade nessa síndrome, certamente a melhor escolha é a prevenção. A estimulação cognitiva/afetiva sistemática do paciente em períodos de coma e sedação, reorientação tempo/espaço, ambientação, orientações contínuas sobre a condição clínica e plano terapêutico definido pela equipe, aproximação da família ao ambiente de UTI, evitando assim a quebra de laços afetivos.

Um dos principais recursos possíveis em internações de longa permanência, é tentar aproximar a realidade hospitalar do paciente, à sua condição domiciliar prévia. Proporcionar atividades adaptadas, considerando as preferências e habilidades do paciente, estimular a família a estar sempre presente, ofertar informações sobre os acontecimentos extra-hospitalares, estimular a participação ativa/autonomia do paciente são algumas das alternativas de manutenção da integralidade de si em ambiente hospitalar. Todas as medidas de humanização serão em vão se nos esquecermos de que o principal interessado pelo desfecho de uma vida é a própria pessoa.

Conclusão

É papel dos profissionais da saúde auxiliar na manutenção do vínculo familiar e social do paciente, em especial porque a família representa a rede de apoio e referência principal do ser humano, e o afastamento prolongado dessa realidade de vida pode acelerar o processo de perda de seu significado, presente na síndrome do hospitalismo.

Um outro fator essencial para que essa vinculação seja preservada é que, após a alta do paciente, o cuidado principal seja realizado pela família. Mas para que isso ocorra com qualidade e efetividade, é importante integrá-los desde sempre no processo de cuidados e assistência, estimulando o conhecimento sobre a doença, a realidade do paciente, para que sintam-se mais aptos a reintegrar a pessoa na família após a saída do hospital, tanto no aspecto funcional, quanto afetivo.

É médico e também quer ser colunista do Portal da PEBMED? Inscreva-se aqui!

Autor:

Referências:

  • GRECO, F. A Importância do Trabalho em Equipe no Hospital Psiquiátrico. In: BETTARELLO, S. V. (org.) Perspectivas Psicodinâmicas em Psiquiatria. São Paulo: Lemos Editorial, pp. 311-322,
    1998.
  • Gulassa, Daniel C.R.. (2011). “Tire-me desta, mas daqui não me deixe sair”! Hospitalismo: Reflexões sobre o drama da ( co) depedência em instituição psiquiátrica. Revista Brasileira de Psicodrama, 19(2), 57-71. Recuperado em 10 de janeiro de 2019, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
    53932011000200006&lng=pt&tlng=.

Um comentário

  1. Avatar
    Lucas Rodrigues

    Excelente artigo. Infelizmente os componentes psíquicos acabam sendo deixados de lado à priori da reabilitação ventilatória, por exemplo. Mas devemos atentar à todas causas de deteriorização de saúde.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.



Esse site utiliza cookies. Para saber mais sobre como usamos cookies, consulte nossa política.