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Padrão do sono e risco de demência

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O padrão de sono dos adultos e idosos pode influenciar o risco de demência? Evidências científicas prévias já sugeriram que haveria uma ligação entre apneia obstrutiva do sono (AOS) e Doença de Alzheimer (DA). Os mecanismos que justificariam tal associação são apenas hipotéticos: hipoxemia noturna, aumento da carga beta-amiloide, inflamação crônica, dentre outros.

Duração curta do sono e AOS grave podem afligir respectivamente cerca de 34% e 15% da população adulta. Medidas comportamentais e/ou intervenções clínicas específicas podem amenizar essas condições. Desse modo, se ambas tiverem relação causal com demência ou comprometimento cognitivo leve (CCL), tratá-las seria uma ótima oportunidade para prevenir esses distúrbios.

No entanto, as pesquisas epidemiológicas existentes são, em geral, limitadas devido a características como amostra pequena, tempo curto de acompanhamento, e maneiras pouco fidedignas de avaliar o sono. Há especificamente uma lacuna de informações sobre a associação entre as características do sono na meia idade e o desenvolvimento de demência posteriormente.

Recentemente um estudo norte-americano envolvendo 1.667 participantes testou a hipótese de que a AOS e a duração do sono estariam associados a um maior risco de demência após 15 anos de acompanhamento. Os voluntários de 54 a 73 anos de idade tiveram seu padrão do sono analisado através de questionários e polissonografia. Foram então acompanhados através de avaliações neurológicas, testes neuropsicológicos, exames laboratoriais e eventualmente exames de imagem até alcançarem 67 a 89 anos.

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Foi considerada apneia a ausência de fluxo de ar por 10 segundos ou mais e hipopneia uma diminuição do fluxo de ar maior que 70% do que o habitual por no mínimo 10 segundos associada a queda da saturação de oxigênio de pelo menos 4%. O índice apneia-hipopneia (AHI) foi então calculado como o número de apneias e hipopneias por hora de sono.

Os participantes foram categorizados em 4 grupos de acordo com a severidade da AOS: normal (até 5 eventos por hora), leve (5 a 14.9 eventos por hora), moderada (15 a 29.9 eventos por hora) e grave (30 ou mais eventos por hora). A duração habitual do sono também foi classificada em até 7 horas, 7-8 horas, 8-9 horas e mais de 9 horas por noite.

Mais da metade (52.6%) dos participantes foram mulheres, 102 (6.1% do total) apresentaram AOS grave, 213 (12,8%) AOS moderada, 503 (30.2%) AOS leve e 849 (50.9%) não tiveram apneia. Após seguimento médio de 14.9 anos, 145 indivíduos desenvolveram demência constatada através de critérios formais ou códigos referentes a demência em internações hospitalares. Não houve associação entre a incidência de demência e a severidade da AOS. Por outro lado, quando analisado em separado o grupo (1083 pessoas) que foi submetido a testes neuropsicológicos visando identificar demência e/ou comprometimento cognitivo leve (CCL), a gravidade da apneia do sono associou-se ao aumento do risco tanto de demência como de CCL secundário a DA.

Com relação a duração do sono, dos 1.653 incluídos na análise, 395 (23.9%) reportaram dormir até 7 horas por noite, 627 (37.9%) 7 a 8 horas por noite, 521 (31.5%) 8 a 9 horas por noite e 110 (6.7%) relataram dormir mais de 9 horas por noite. Quando analisado objetivamente o desfecho demência, dormir até 7 horas por noite foi associado a aumento do risco em aproximadamente o dobro.

Até o momento, as evidências mais consistentes sugerindo uma relação prospectiva entre AOS e surgimento de demência eram oriundas do “Study of Osteoporotic Fractures”, trabalho abrangendo 298 mulheres (média 82 anos de idade) acompanhadas por 4.7 anos.

As participantes com AOS moderada a grave tiveram chance 85% maior de desenvolver CCL ou demência quando comparadas com aquelas sem AOS. Nessa amostra, a duração do sono não apresentou associação com o risco de demência.

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Por outro lado, em publicação recente do “Women’s Health Initiative Memory Study”, o autorrelato tanto de duração muito curta, como de muito longa do sono foi associado ao aumento do risco de CCL e demência em mulheres idosas acompanhadas de 1995 a 2008.

Uma importante limitação do trabalho norte-americano citado inicialmente é o pequeno número de casos (apesar da enorme amostra) de AOS grave e de participantes com poucas horas de sono. Desse modo, os resultados tornam-se imprecisos para estimar o risco futuro de demência nos indivíduos nos extremos do espectro abrangido.

Além disso, os resultados seriam mais fidedignos se houvesse mais de uma avaliação do sono, testes neuropsicológicos de base, biomarcadores de Alzheimer, dentre outros recursos. Os pontos fortes que merecem mais destaque são o tamanho da amostra, acompanhamento por 15 anos, avaliação cognitiva ampla e presença de ambos os sexos.

Em suma, os achados enaltecem a necessidade de mais pesquisas para que possamos entender se as associações encontradas apresentam relação causal.

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Referências:

  • Lutsey PL, et al. Sleep characteristics and risk of dementia and Alzheimer’s disease: The Atherosclerosis Risk in Communities Study. Alzheimers Dement (2017) 1-10.
  • Chen JC, Espeland MA, Brunner RL, Lovato LC, Wallace RB, Leng X, et al. Sleep duration, cognitive decline, and dementia risk in older women. Alzheimers Dement 2016;12:21–33.
  • Yaffe K, Laffan AM, Harrison SL, Redline S, Spira AP, Ensrud KE, et al. Sleep-disordered breathing, hypoxia, and risk of mild cognitive impairment and dementia in older women. JAMA 2011;306:613–9.

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