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Pediatria: muita dedicação e amor pelo que se faz

Nem sempre é fácil escolher qual residência seguir, até porque algumas são verdadeiras incógnitas até para os médicos. Pensando nisso, a PEBMED preparou um grande especial com artigos sobre cada especialidade médica, para te ajudar a escolher qual área está mais alinhada com seus objetivos. Todo dia traremos a visão de um especialista sobre sua respectiva área, as oportunidades disponíveis, principais desafios e muito mais! Hoje, a Dra. Ana Carolina Pomodoro fala sobre Pediatria.

1) O que é?

A Pediatria é a área da Medicina que trata desde o concepto até o adolescente. Na verdade, cada vez mais o pediatra se vê envolvido com as famílias mesmo antes da concepção: no aconselhamento genético.

Assim como a Clínica Médica, é uma das áreas bases da Medicina, com a Pediatria Geral e a Pediatria voltadas para as diversas subespecialidades. Por englobar tantas faixas etárias e apresentar, aparentemente, diversos tipos de dificuldades para o profissional, é que muitos alunos acabam por ter receio de escolher essa especialidade para seguir.

É uma das áreas da Medicina que mais costuma exigir conhecimento técnico do profissional, uma vez que a maioria dos pacientes não sabe expressar o que sente, havendo grande dependência do médico em relação aos responsáveis pela criança, que vão relatar aquilo que conseguem perceber (o que nem sempre condiz com a realidade ou nem sempre é a informação que necessitamos para fechar corretamente um diagnóstico).

Assim, costumo dizer que essa é a parte que mais me estimula, uma vez que dar o diagnóstico correto para traçar uma boa conduta depende basicamente de mim: é preciso conhecer bem o exame físico, as doenças mais comuns para cada faixa etária, além de ter que estabelecer com o responsável um vínculo de confiança para que este possa relatar de forma verdadeira o que realmente tem presenciado em casa. Acho interessante montar esse quebra-cabeça ao longo da consulta.

É muito importante o profissional estar atento para a prevenção, pois é um grande diferencial na Pediatria. Trabalhamos para orientar os pais em relação ao crescimento e ao desenvolvimento adequados para cada idade, buscando detectar desde os pequenos desvios nas curvas utilizadas para que a criança volte ou se mantenha dentro da normalidade. Aliás, curvas não faltam na Pediatria!!! E isso nos mostra a grande variabilidade do público com o qual trabalhamos.

Essa parte da Pediatria mais preventiva, que avalia as curvas, além da história gestacional / neonatal, história vacinal, história fisiológica, história familiar, história social, história alimentar, e crescimento e desenvolvimento propriamente dito, é a Puericultura. O atendimento pode ser dividido pelo neonatologista, pediatra geral e hebiatra, sendo que qualquer um desses pode realizar as consultas em todas as faixas etárias pela capacitação que receberam ao ser tornarem pediatras gerais.

Quando pensamos na Pediatria como integrante da formação do médico, vemos que a mesma está presente no ciclo profissional (quando aprendemos os pontos chaves da disciplina, geralmente distribuída em dois períodos acadêmicos), no internato rotatório, no internato eletivo (para as universidades que possuem essa modalidade, permitindo ao aluno ter um maior convívio com o dia a dia da especialidade antes de tomar sua decisão final quanto à escolha para a especialização) e na Residência Médica / Curso de Especialização.

A Residência Médica, que antes era concluída em 2 anos, passou para 3 anos, mas os serviços ainda estão se adequando à mudança de currículo. Aqui no Rio de Janeiro, basicamente o Hospital dos Servidores do Estado (o primeiro a ter Residência Médica em Pediatria), se mostra mais uma vez pioneiro, garantido já o novo currículo para seus residentes.

2) Como é o dia a dia?

Muitos pediatras ainda optam por trabalhar em esquema de plantão nos serviços de emergência, centro de terapia intensiva ou enfermaria dos hospitais, enquanto alguns preferem atuar como rotina de algum desses serviços. Geralmente a escolha por esses locais de trabalho ocorre no início da carreira, quando ainda não têm consultório próprio ou a clientela que possuem ainda não é suficiente para dar a remuneração desejada. Isso porque os plantões costumam remunerar melhor, apesar de conferirem pior qualidade de vida quando se avalia o trabalho como um todo.

Um ponto que desperta o interesse de qualquer pediatra é poder fazer um atendimento longitudinal, acompanhando crescimento e desenvolvimento da criança, auxiliando os responsáveis a formar um adulto saudável, autônomo e seguro. Esse processo geralmente é possível no consultório.

E tem uma coisa que parece ser o terror de quem pensa na possibilidade de fazer Pediatria em consultório: “As mães vão me ligar sem parar, de noite, madrugada, fim de semana…” Realmente é necessário ter um canal de contato das famílias com o pediatra, não para que haja consultas virtuais, mas para que sejam orientadas nos casos de emergência. É verdade que alguns responsáveis acabam abusando desse canal e acham que podem contactar o pediatra em qualquer momento, mas faz parte da consulta orientar os pais que há tal canal de comunicação e que o mesmo só deve ser usado se estritamente necessário, já que as consultas de rotina devem ser presenciais.

Eu costumo orientar meus pacientes a anotar as dúvidas para que sejam esclarecidas na consulta seguinte além de descrever a história natural da doença, quando há alguma intercorrência. O fato do profissional conhecer bem os desfechos do provável diagnóstico faz com que ele consiga se antecipar aos acontecimentos. Quando os pais veem que está ocorrendo exatamente como foi descrito, tendem a sentir segurança também em relação ao tratamento, mesmo quando esse é expectante. Pais seguros e bem orientados não ligam de madrugada!

Temos também o whatsapp, que tem se mostrado uma útil ferramenta, pois os pais podem mandar uma mensagem no momento em que estão mais aflitos, além de ser possível trocar fotos e vídeos, e o profissional vê e responde quando puder. Claro que é necessária a orientação para realmente ligar quando for uma emergência, esclarecendo que as mensagens serão retornadas em momento oportuno (caso o profissional opte por usar o aplicativo para essa finalidade).

O ideal, no consultório, é que as consultas sejam marcadas a cada hora, pois é necessário ouvir cada familiar envolvido, sanando todas as dúvidas, dentro do possível, e orientando a respeito de como devem se conduzir até a consulta seguinte, destacando os prováveis marcos do desenvolvimento que a criança alcançará, incentivando que os responsáveis a estimulem adequadamente.

Sendo assim, os pediatras têm buscado oferecer mais atendimento particular, já que os planos de saúde pagam pouco por consulta, o que faz com que o profissional necessite atender mais clientes com período menor nas consultas. Também há glosas feitas pelos planos e o médico acaba trabalhando sem receber o valor correspondente. Sem falar na disponibilidade em atender algum responsável fora do horário comercial, buscando evitar idas desnecessárias aos serviços de emergência, o que não é remunerado pelo plano de saúde.

Já nos ambulatórios de posto de saúde / clínica da família, não há todo esse tempo disponível, o que exige maior habilidade do profissional para desempenhar seu papel de forma eficiente, sempre dando atenção devida a cada família. Importante lembrar que dúvidas sanadas evitam muitos reais problemas.

Os planos de saúde pagam pouco, mas geram um maior volume de atendimento para o consultório, o que é interessante no início, enquanto o profissional ainda não se estabeleceu no mercado. Também há colegas que optam por fazer consultório com consulta a preço popular, visto que vão receber praticamente o mesmo valor que receberiam pelo plano mas sem a burocracia do credenciamento, com os riscos de glosa, além de ter o pagamento da consulta no ato.

Vale lembrar que cada dia que passa damos mais valor para a consulta com o pediatra durante o pré natal, para que a família conheça o profissional, tire eventuais dúvidas e comece a fazer um vínculo de confiança, em vez de só o conhecer na hora do parto em si.

3) Oportunidades de trabalho:

O pediatra pode atuar em serviços de emergência, centro de terapia intensiva ou enfermaria dos hospitais como plantonista ou como rotina desses serviços, além ter espaço em maternidades (sala de parto, alojamento conjunto, UTI neonatal), ambulatórios, postos de saúde / clínica da família, transporte em ambulância, núcleos internos de regulação, centrais de regulação de vagas, coordenação de áreas programáticas, coordenação de programas de saúde no nível central (prefeitura / estado), programas de saúde pública em geral, ou seguir carreira militar. A maioria que faz consultório também exerce a profissão em algum dos ambientes citados, pelo menos no início da carreira profissional.

4) Número de especialistas:

No momento, temos aproximadamente 35 mil pediatras registrados pela Sociedade Brasileira de Pediatria.

5) Curiosidade(s):

– O Brasil era o único grande país a ter a Residência Médica em Pediatria realizada em apenas 2 anos. Com isso, quando nossos residentes faziam algum período de sua capacitação num serviço fora do Brasil, isso não contava como tempo oficial da Residência, uma vez que os serviços de fora não reconheciam nosso currículo. Em 2011, no primeiro congresso de residentes de Pediatria do Brasil, foi discutida essa questão, sendo aprovada pela maioria a passagem do curso para 3 anos. No entanto, apenas em 24/07/2013 a proposta foi aprovada em unanimidade pela plenária da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), em Brasília. O projeto inicial foi apresentado à Comissão em 2006 e a alteração começou a ser implantada em 2014 em alguns serviços do país.

6) Especialidades correlacionadas:

A Pediatria se relaciona bem com suas subespecialidades, que são desempenhadas por pediatras que optaram por fazer mais uma especialização, sendo elas cardiologia, nefrologia, neurologia, endocrinologia, gastroenterologia, reumatologia, infectologia, pneumologia, onco e hematologia, nutrologia, imunologia.

Também se relaciona com especialidades exercidas por profissionais não pediatras mas com subespecialização voltada para a Pediatria, como cirurgia pediátrica, radiologia, fisiatria, ortopedia, dermatologia, ginecologia e obstetrícia (da infância e adolescência), psiquiatria.

A Genética é uma área muitas vezes desempenhada por pediatras que se subespecializaram, sendo capazes de fazer aconselhamento genético além de conduzir o acompanhamento dos pacientes que apresentam síndromes genéticas.

7) Área de atuação:

O pediatra pode atuar em maternidades, serviços de emergência, CTI, enfermaria, ambulatórios, postos de saúde / clínica da família, transporte em ambulância, núcleos internos de regulação, centrais de regulação de vagas, coordenação de áreas programáticas, coordenação de programas de saúde no nível central (prefeitura / estado), programas de saúde pública em geral, ou seguir carreira militar.

8) Mensagem para quem quer seguir essa especialidade:

A Medicina, independente da área de atuação, é uma carreira para ser seguida com muita dedicação e amor pelo que se faz. Não é porque acabamos de nos formar e escolhemos uma especialidade a seguir que necessitamos permanecer na mesma durante toda nossa vida profissional. Logo, se permita escolher e acertar (ou errar).

O sucesso não está apenas na remuneração financeira, mas é composto por diversos itens: qualidade de vida, satisfação em relação ao que faz, tempo disponível para projetos pessoais e familiares, se há estímulo para continuar trabalhando e se aperfeiçoando, se há tranquilidade e alegria ao pensar em ir trabalhar no dia seguinte, entre outros.

Se realmente escolher seguir a Pediatria, lembre-se que para melhor desempenho nessa área é preciso estabelecer bom vínculo com os responsáveis, inclusive com as avós! Com o tempo a gente percebe quem realmente lidera cada família e, se não conseguirmos conquistar esse “líder”, não haverá boa adesão ao tratamento, já que não temos real influência sobre o dia a dia da criança.

Todas as queixas trazidas para a consulta devem ser respondidas com atenção, mesmo que você perceba que aquilo não é o ponto mais importante, na visão médica. A maioria das famílias não retorna na consulta de revisão porque não foram ouvidas em suas queixas (ou até foram, mas não com a devida atenção que gostariam). Isso faz com que procurem outro profissional que ouça suas dúvidas e anseios… Muitas vezes, uma boa conversa desfaz ou previne muitos problemas.

Tenha a família como sua aliada nessa empreitada que é formar um adulto saudável. Muitas intervenções serão na família e não no paciente em si. E a gente só consegue isso mostrando respeito e empatia pelo próximo. Mesmo que faça uma subespecialidade, um pediatra nunca deixa de atuar como pediatra. Com isso, seja capaz de conhecer bem a Pediatria a fim de evitar encaminhamentos desnecessários, o que lota os serviços de especialidades e diminui o acesso de quem realmente precisa dos mesmos.

Evite solicitar exames desnecessários, principalmente por ceder às pressões impostas pelos familiares. Você é o profissional que estudou para conduzir o caso e deve estar seguro quanto à sua análise do conjunto anamnese + exame físico, já que os outros exames são complementares nesse processo. Assim, sempre explique ao responsável sua hipótese diagnóstica, o que motiva sua conduta terapêutica e os benefícios e malefícios de eventuais exames extras.

Ao lidar com a criança diretamente, lembre-se de que a mesma possui diversos estágios psicológicos que fazem parte de sua formação. Assim, a parte lúdica é muito importante. Da mesma forma, seja sempre sincero e cuidadoso, para que tenha a confiança de seu paciente.

Com o passar do tempo, você verá que estuda muito, se especializa e acha que será o responsável pelo tratamento na maioria dos casos, mas se depara com a maravilhosa resposta que só a Pediatria traz: um sorriso sincero, um abraço apertado, um elogio carinhoso vindos de uma criança bem acolhida que mudam o seu dia!! Ah, e como as crianças são especialistas em curar muitas dores e tornar nossos dias bem melhores…

Veja também: ‘Coloproctologia: nem tudo que sangra é culpa das hemorroidas’

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