Qual o impacto do acesso ao tratamento para mulheres com câncer de mama?

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O câncer de mama lidera as estatísticas de mortalidade entre mulheres no mundo inteiro e, infelizmente, a mortalidade, que já caiu cerca de 40% nos países desenvolvidos, segue em elevação por aqui. A mortalidade subiu de 12,1 para 15,7 para 100 mil mulheres de 1996 para 2013, com diferenças marcantes entre as regiões do país, sendo ainda maior no sul do país (16,4/100 mil).

Soma-se a isso o fato de que Porto Alegre (PoA) tem uma das maiores incidências (junto com o Rio de Janeiro) com 114,25/100 mil em 2018, incidência essa que é quase o dobro dos cerca de 61/100 mil (para todo o país) estimada pelo INCA para o triênio 2020-2022, dá para se ter uma ideia da importância em termos de saúde pública desta patologia.  

Leia também: Outubro Rosa: desafios na jornada dos pacientes com câncer de mama no Brasil

Câncer de mama

O objetivo de pesquisadoras do Rio Grande do Sul foi avaliar as características clínicas e a sobrevida de 1.113 mulheres tratadas no Núcleo de Mama do Hospital Moinhos de Vento em PoA e acompanhadas por 20 anos

A mediana de idade ao diagnóstico foi de 52 anos, 12,1 % foram diagnosticadas no estádio 0, 50,6% no I, 28,3 % no II, 7,4% no III e apenas 1,3% no estádio IV. O seguimento mediano foi de 84 meses, sendo que em 20 anos cerca de 15% das pacientes faleceram. A sobrevida mediana foi 93.5%, 83.8% e 60.4% para 5-10-20 anos. 84,5% das pacientes tinham índice de massa corpórea <30, 76% nunca fumaram, 64% eram pós-menopáusicas, sendo que 40% destas fizeram terapia de reposição hormonal.

A maioria dos casos era de receptores positivos (76%), 19,5% HER2 positivo e 14,4% eram triplo negativo. 51% das pacientes foram submetidas à cirurgia conservadora da mama. Quimio pré-operatória foi oferecida em 12% e após em 41% dos casos. Após análise multivariada idade ao diagnóstico, estádio III e IV, ki67 alto e recidiva à distância foram associadas à menor sobrevida.

Resultados

Os resultados apresentados mostram que mulheres portadoras de câncer de mama quando recebem tratamento adequado em linha com as diretrizes internacionais e a tempo em um centro multidisciplinar apresentam evolução e desfechos absolutamente similares aos resultados obtidos em países desenvolvidos. A coorte analisada é a maior onde temos dados de seguimento de 20 anos em nosso país. As pesquisadoras concluem que a mortalidade por câncer de mama no Brasil  depende claramente da qualidade e do acesso (ou da falta de) aos cuidados médicos adequados para estas pacientes. 

Conversei com uma das autoras, a Dra Maira Caleffi que destaca: “Um trabalho retrospectivo de 20 anos com dados de vida real é fundamental para testar algumas hipóteses e incentivar novos projetos de pesquisa prospectivos.
Apoiada por uma equipe multiprofissional, indica a grande oportunidade de pacientes com câncer de mama e acesso a medicina baseada na melhor evidência científica, obterem desfechos excelentes comparativos as melhores práticas mundiais. Hoje em dia cada vez se valoriza mais single-institution database and real world data”. 

Veja mais: Iniciar o rastreamento aos 40 anos com mamografia reduz mortalidade por câncer de mama?

A Dra Daniela Rosa pontua: “Existem diferenças importantes em relação ao estágio do câncer de mama ao diagnóstico, quando comparamos sistema público com saúde suplementar; precisamos corrigir os fatores que levam a isso, pois certamente há impacto no prognóstico das pacientes”.

Simples assim. 

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Publicado por
Gilberto Amorim

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