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Será que não estamos descartando medicamentos ainda seguros e eficazes?

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Segundo artigo publicado em um site médico americano em julho deste ano, especialistas dos Estados Unidos estimam que o desperdício com medicamentos vencidos consome cerca de até um quarto de todas as despesas de cuidados de saúde do país, aproximadamente US$ 765 bilhões por ano. Visto o tamanho desse gasto, surge o questionamento: não estão sendo destruídos medicamentos tecnicamente vencidos, porém ainda com segurança e efetividade?

Alguns estudos foram realizados para responder essa questão e os resultados foram surpreendentes! Cantrell e Roy Gerona, pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, especialistas em análise de produtos químicos, avaliaram medicamentos vencidos há décadas e que continham 14 compostos diferentes, dentre eles anti-histamínicos, analgésicos e estimulantes. Do total, 12 compostos apresentaram a potência semelhante àquela de quando foram fabricados.

Foram também testadas ampolas de epinefrina injetável, utilizadas para tratar reações alérgicas graves, doadas por consumidores. Os pesquisadores observaram que 24 dos 40 medicamentos continham pelo menos 90% da quantidade do princípio ativo indicado no rótulo e todos os 40 com pelo menos 80% de atividade, indicando a manutenção da potência!

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É claro que o objetivo desses estudos não foi estimular uma prática irresponsável de utilizar medicamentos vencidos e sim, um questionamento sobre os métodos utilizados atualmente para estabelecer a data de validade e a possibilidade da extensão dos prazos com a permanência da efetividade e segurança dos mesmos.

Apesar da necessidade de investimento para a extensão da validade, foi demonstrado por um programa de extensão dos EUA que o retorno desse gasto é extremamente lucrativo. É como gastar um dólar para economizar US$ 677 de desperdício!

No Brasil, frequentemente, as mídias têm veiculado informações sobre o desperdício de medicamento no Sistema Único de Saúde (SUS). A Controladoria Geral da União (CGU) divulgou recentemente um relatório que 11 Estados e o Distrito Federal jogaram fora, entre 2014 e 2015, medicamentos com validade vencida e/ou mal armazenados, sendo o desperdício estimado em R$ 16 milhões. Além disso, o gasto com a incineração é, também, extremamente elevado: o governo do Rio de Janeiro, em 2016, gastou cerca de R$ 3 milhões para incinerar medicamentos com prazo de validade vencidos.

Após ler essas informações, o que você acha? Será que não estamos descartando produtos ainda seguros e eficazes? E ainda, gastando milhões para esse descarte desnecessário? O investimento em programas de extensão de prazo de validade pelos órgãos competentes não seriam uma alternativa? Não devemos esperar que as indústrias farmacêuticas tomem a iniciativa. Para eles, vender produtos novos é mais lucrativo. Se houver ampliação da validade, diminuem-se as vendas. Mas para o governo, seria um estudo muito importante, caso o custo-benefício de fato seja atraente.

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Referências:

  • Marshall Allen. The Myth of Drug Expiration Dates – Medscape – Jul 19, 2017.

Um comentário

  1. Virgínia Dias Chaves

    Eu concordo que as indústrias farmacêuticas devem sim realizar novas pesquisas para avaliar quanto a extensão de validade dos medicamentos, penso que não haveria perda nas suas vendas uma vez que o Brasil sempre teve problemas com falta de vários medicamentos, logo haveria recursos para realizar a compras destes itens. Mas os laboratórios federais também deveriam realizar estas pesquisas.

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