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suicidio com pilulas

Setembro Amarelo: cuidados na prevenção do suicídio

Tempo de leitura: 5 minutos.

A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) está promovendo a campanha do Setembro Amarelo, chamando a atenção para prevenção de suicídio.

Este ano o assunto voltou a ser alvo de muitos debates após o lançamento da série “13 Reasons Why”. Esta é a história de uma jovem adolescente que se matou e sobre os motivos por que fez isso. A partir daí surgiu mais uma discussão sobre o “Efeito de Werther”, no qual acredita-se que quando um caso de suicídio é muito divulgado, pode haver aumento da incidência de suicídio ou do número de tentativas. Após “13 Reasons Why” estudos indicam que houve um aumento de buscas no Google sobre suicídio ou formas de se matar.

Segundo a ABP, a cada 40 segundos uma pessoa tenta contra a própria vida com êxito, sendo o Brasil o oitavo país no mundo em números absolutos de suicídio.

Na prática clínica psiquiátrica e em emergências é comum recebermos casos de tentativa de suicídio ou de intoxicação proposital. Muitos tentam tomar medicações classificadas como “tarja preta”, acreditando que isso faz desses remédios algo potencialmente perigoso. Contudo, algumas dessas drogas possuem uma faixa terapêutica relativamente ampla e, embora haja riscos associados, a maioria dos que tomam uma overdose termina não obtendo sucesso na tentativa. Com isso, os profissionais médicos nem sempre valorizam o principal: uma pessoa tentou acabar com a própria vida. Ou seja, isto é um pedido de ajuda e deve ser tratado como tal.

Infelizmente nem todos os casos têm um desfecho favorável. Recentemente tenho visto tentativas de suicídio sérias, que terminaram com o paciente no CTI correndo risco real após overdose de outros tipos de medicação. Isso remete a alguns questionamentos: como estamos tratando nossos pacientes? Será que ao recebermos um paciente com transtorno por uso de substâncias, transtornos ansiosos, transtorno depressivo maior uni ou bipolar, ou com outros fatores de risco, estamos ouvindo sua queixa devidamente? Solicitamos a presença de algum familiar responsável? Orientamos que a medicação NÃO deve permanecer sob os cuidados do paciente, mas administrado por uma terceira pessoa? Encaminhamos a serviços especializados? Quando se prescreve a medicação, está se levando em conta o risco de que uma droga potencialmente tóxica esteja sendo dada a um paciente que já está em uma situação vulnerável (por exemplo, prescrever um antidepressivo tricíclico para um paciente deprimido ou impulsivo)?

Veja também: ‘Suicídio entre médicos está crescendo. Precisamos falar sobre isso’

Vou destacar aqui os dois principais fatores de risco para suicídio:

1. Tentativa prévia de suicídio: muitos dos pacientes que se suicidam fizeram outras tentativas anteriormente.
2. Presença de doença mental: nem sempre houve uma avaliação médica, com diagnóstico e tratamento anteriormente. Dentre os transtornos psiquiátricos, os que mais se relacionam à tentativa de suicídio são a depressão, o transtorno afetivo bipolar, o etilismo, o abuso ou dependência de drogas, os transtornos de personalidade e a esquizofrenia.

Agora vale destacar fatores de risco:

  • Impulsividade: especialmente na população mais jovem;
  • Desesperança/desespero;
  • Idade: maior em adolescentes e adultos jovens e em idosos (por exemplo, por perda de cônjuge, presença de doenças crônicas e degenerativas, ou por achar que “dá trabalho”);
  • Gênero: as tentativas são mais comuns nas mulheres, mas os óbitos por suicídio são maiores entre os homens;
  • Presença de doenças clínicas: pacientes com câncer, HIV, esclerose múltipla, doença de Parkinson, doença de Huntington, lúpus eritematoso sistêmico são alguns dos vários exemplos de doenças relacionadas ao risco de suicídio, seja pela própria condição da doença, complicações, dor crônica, etc.
  • Eventos adversos na infância e adolescência: atenção para questões comuns nessa faixa etária: abuso, maus tratos, divórcio dos pais, abuso de substâncias, incerteza quanto à orientação sexual, sentimento de desesperança, falta de apoio social, suicídio de figuras proeminentes (“famosas”) ou casos que ocorreram na escola ou em sua comunidade.
  • História familiar e genética: há indícios de causas genéticas e familiares.
  • Fatores sociais: quanto mais laços sociais, menores as chances de se tentar suicídio, sendo que o oposto também vale (menos laços sociais aumentam as chances de se tentar suicídio); viver sozinho, estar desempregado ou com problemas financeiros também devem ser considerados.
  • Perdas recentes.

Muitos dos que tentam ou pensam em suicídio estão vivendo um momento de ambivalência, onde têm dúvidas se querem realmente morrer ou não. Há indícios de que logo após cometerem o ato que pode levá-los ao óbito, muitos se arrependem.

Apesar de geralmente ser planejado, o impulso que leva o indivíduo a passar ao ato costuma ser passageiro, durando minutos ou horas. Acolher o paciente nesta hora pode frear o impulso suicida.

Cabe destacar que o paciente está vivendo um momento de sofrimento único, onde sua capacidade de avaliar um problema ou determinada situação está restrita. Ele pode não enxergar ou admitir outras formas de pensar ou solucionar o que o aflige.

E mais: ‘Lítio versus valproato na prevenção de suicídio’

Ao receber um caso sob risco de suicídio tente oferecer uma escuta empática e criar um vínculo. Às vezes os pacientes fazem comentários que refletem seu desespero ou desesperança, como “preferia estar morto” ou “preferia não ter nascido”. Verifique se há algum fator estressor, como perda de uma pessoa próxima, separação, perda de emprego ou falência. Também avalie a presença de uma alteração psiquiátrica e encaminhe a um serviço especializado. Faça um “pacto terapêutico” (faça um pacto com o paciente: caso este sinta vontade de morrer, deve procurar logo o médico ou um serviço de saúde). Investigue e aborde fatores de proteção (se possui religião, sua relação com sua família, sua capacidade de resolver problemas, dentre outros). Avise aos familiares e, se necessário, realize uma internação ou encaminhe. Dependendo do caso, solicite aos familiares ou responsáveis que mantenham vigilância permanente, recomendando que o paciente fique longe de quaisquer medicações, objetos pérfuro-cortantes, vidros; atenção para cintos, lençóis, cordas e outros que possam oferecer risco. Lembre-se de encaminhar para atendimento especializado e considerar internação se o risco for alto!

O suicídio é um problema de saúde pública. Muitas vezes tomar atitudes que facilitem a busca por ajuda ou que dificultem o ato podem fazer a diferença, além de realmente diminuir as estatísticas. Vamos ficar alerta aos sinais que nos são dados e a ajudar a divulgar e a esclarecer pacientes e familiares sobre o assunto!

LINKS PARA SABER MAIS A RESPEITO:

– http://www.abp.org.br/portal/setembro-amarelo/

– Canal Nerdologia no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=gJBlY3opAVU

– http://www.abp.org.br/portal/wp-content/upload/2017/08/folhetoA5.pdf

– http://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=14

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