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Sífilis gástrica: quando suspeitar desse diagnóstico?

Tempo de leitura: 3 minutos.

A sífilis é considerada uma doença sexualmente transmissível, causada pelo Treponema Pallidum, bactéria gram-negativa do grupo das espiroquetas.

O curso da doença é marcado por períodos de atividade, com características clínicas, imunológicas e histopatológicas bem distintas, e períodos de latência; presentes nos estágios precoce ou tardio da doença. Acompanhe abaixo para que você compreenda melhor essas subdividisões:

1. Precoce

  • Fase primária: lesão única no local da inoculação da bactéria, indolor, de base endurecida, é o cancro duro ou protossifiloma. Tem duração de cerca de duas semanas, evoluindo para fase secundária, se não instituído tratamento adequado.
  • Fase secundária: resultante do tratamento inadequado da sífilis primária. Aqui, ocorre a disseminação da bactéria por via hematogênica e linfática, que se exterioriza através do exantema maculopapular pruriginoso em regiões palmar e plantar, além de sintomas inespecíficos, emagrecimento e linfonomegalia generalizada.
  • Fase latente precoce: compreende o período entre o desaparecimento dos sintomas da fase secundária até o primeiro ano da doença.

2. Tardia

  • Fase latente tardia: corresponde ao período assintomático com mais de um ano de duração.
  • Terciária: os pacientes podem evoluir para a fase terciária após períodos de latência duradouros, acima de dez anos da fase inicial da infecção. Caracteriza-se por granulomas destrutivos, que acometem principalmente pele e mucosas, além de sistema nervoso e cardiovascular.

O trabalho aqui não pretende esgotar o tema, mas apresentar uma forma pouco discutida de apresentação da sífilis, que é o envolvimento gástrico, presente em menos de 1% dos casos. Em geral, ocorre nas fases secundária ou terciária da doença.

As principais manifestações clínicas da sífilis gástrica são epigastralgia, anorexia com sensação de saciedade precoce, náuseas, vômitos e emagrecimento. A maioria dos pacientes não apresentam história clínica e exame físico que levem a suspeição desse diagnóstico, entretanto, deve-se suspeitar de sífilis gástrica em pacientes jovens com sintomas gástricos que mimetizam doenças neoplásicas.

A presença desses sintomas levará invariavelmente a realização de endoscopia digestiva alta. Os achados que sugerem sífilis são: diminuição da expansibilidade gástrica, edema mucoso, enantema, friabilidade, erosões, múltiplas ulcerações, nódulos, hipertrofia das rugosidades gástricas do antro e região pré-pilórica. A análise histopatológica revela endovasculite com espessamento da parede arterial e da camada submucosa, associado a infiltrado linfocítico e plasmocitário difuso. Há um processo destrutivo, semelhante ao do linfoma e do carcinoma gástrico, o que dificulta o diagnóstico.

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Para confirmação do diagnóstico, deve-se escolher os exames laboratoriais adequados para cada fase evolutiva do paciente. Há testes diretos, nos quais se demonstra a presença da espiroqueta em exame de campo escuro; além de testes imunológicos treponêmicos ou não-treponêmicos.

Os primeiros detectam anticorpos específicos para os antígenos da t. pallidum e os não treponêmicos identificam e titulam os anticorpos anticardiolipina presentes na amostra. Podem ser relacionados como diagnósticos diferenciais: linfoma, limite plástica, tuberculose gástrica, doença de cronh.

A droga de escolha na qual se baseia o tratamento é a penicilina g benzina 2400000 ui, via intramuscular, em dose única. Alguns autores recomendam doses semanais, por 3 semanas, tratamento semelhante ao da sífilis terciária.
A dificuldade diagnóstica da sífilis gástrica aliada a semelhança com quadros neoplásicos faz ser importante alertar aos cirurgiões a existência dessa entidade para que se questione esse diagnóstico toda vez que um quadro semelhante ao supracitado se apresentar, evitando assim gastrectomias desnecessárias.

Só se pensa sobre certa possibilidade diagnóstica, quando se ouve falar sobre ela, logo a importância de discutirmos entidades como essas diariamente. Pode ser realizado controle da doença através de exames endoscópicos seriados após instituição do tratamento.

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Referências:

  • Júnior jbc. Sífilis gástrica. Relatos casos cir. 2018; 4(2):1729.

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