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homem com dor na barriga

Síndrome do Intestino Irritável (SII), como reconhecer e tratar?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Síndrome do intestino irritável (SII) é um transtorno funcional de caráter crônico que acomete até 15% da população brasileira entre 15 e 65 anos, sendo mais prevalente em mulheres. É uma doença comum, conhecida como um diagnóstico de exclusão. Entretanto, um recente artigo de revisão do New England Journal of Medicine apresenta evidências que demonstram um distúrbio fisiopatológico distinto, responsável pelos seus sintomas.

Tradicionalmente, a SII é considerada uma doença do eixo cérebro-intestino. A relação da doença com histórias de traumas, abusos na infância e valores aumentados de “hormônios do estresse”, como o hormônio liberador de corticotropina (CRH), assim como sua associação com transtorno ansiosos e depressivos corroboram com essa teoria. Entretanto, mais da metade dos casos de SII iniciam com sintomas intestinais, posteriormente, mas não necessariamente, evoluindo com sintomas psicológicos.

Em pessoas susceptíveis, foi postulado que infecções ou ingestão de certos alimentos (FODMAP) podem aumentar a permeabilidade intestinal, alterando junções intercelulares e permitindo a absorção de material gastrointestinal nocivo e desencadeando um processo de inflamatório local. O influxo de células inflamatórias associado à liberação de mediadores inflamatórios seria responsáveis por alterar a função neuromuscular do trato intestinal levando os sintomas de dor abdominal e aceleração ou lentificação do trânsito intestinal, com consequente diarreia ou constipação, respectivamente. Sintomas de inchaço e distensão abdominal se devem à redução na diversidade do microbioma local e à produção excessiva de gases, com respostas somáticas intestinais reflexas anormais.

Diagnóstico da SII

O diagnóstico é clínico. Segundo evidências mais recentes, não deve ser considerado um diagnóstico de exclusão, devendo ser evitado o uso desnecessário de exames complementares invasivos e dispendiosos. De acordo com os critérios de ROMA IV, na ausência de sinais de alarme, o diagnóstico deve ser feito baseado na presença de dor ou desconforto abdominal associado a evacuação, com mudança em hábitos intestinais (mudança na forma das fezes e/ou na frequência das evacuações) por no mínimo uma vez na semana, nos últimos três meses. A SII pode ser classificada de acordo com as características das fezes, sendo definida como SII com diarreia predominante (SII-D), SII com constipação predominante (SII-C), SII com sintomas mistos (SII-M), SII sem classificação (SII-U).

Adaptado de: FORD CA, LACY BE, TALLEY NJ. Irritable Bowel Syndrome. N Engl J Med., Boston,  v. 376, p. 2566-2578, jul. 2017. Disponível em: <http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMra1607547>

 

Segundo uma metanálise envolvendo sete estudos caso-controle (499 pacientes), mudanças na dieta, com redução na ingestão de fibras insolúveis (trigo) e aumento de fibras solúveis (psyllium) se mostraram eficazes no manejo da SII. Dois estudos randomizados concluíram que dieta com baixo teor de FODMEPs – grupos alimentares de alta fermentação e efeitos osmóticos – se mostraram eficazes na redução de sintomas globais da SII.

Fonte: ANDRADE, V. L. A. et al. Dieta restrita de FODMEPs como opção terapêutica na síndrome do intestino irritável: revisão sistemática. GED gastroenterol. endosc. dig. v. 34(1), p. 34-41. Disponível em: <http://sbhepatologia.org.br/pdf/2015_edicao1_artigo6.pdf>

 

Estudos envolvendo o uso de probióticos contendo Bifidobacterium spp. e Lactobacillus plantarum (cepas DSM 9843) mostraram-se superiores ao placebo em relação a resposta global de sintomas.

Drogas antiespasmódicas – hioscina, pinavério e otilônio – e óleo de hortelã-pimenta (peppermint oil) mostram-se superiores quando em comparação com placebo, na redução da dor e na melhora da consistência das fezes, no subtipo SII-D.

O uso de ondansetrona, demonstrou significativa melhora na consistência das fezes, com base em um estudo seccional randomizado com 98 pacientes, porém sem efeitos sobre a dor abdominal.

Antidepressivos tricíclicos apresentam superioridade em relação ao placebo na redução da dor abdominal e diminuição do trânsito intestinal, devido às suas propriedades anticolinérgicas, segundo uma metanálise de 11 estudos randomizados envolvendo 744 pacientes. Os efeitos benéficos do uso de outros antidepressivos, como inibidores seletivos da recaptação de serotonina, ainda são incertos.

Novas terapias vêm surgindo, como Lubiprostone e Linaclotide, liberadas pelo FDA, porém indisponíveis no Brasil, que apresentam boa resposta no manejo de SII-C, devido ao seu efeito sobre os enterócitos, aumentando secreção de fluidos intestinais. Tratamentos com laxativos e drogas osmóticas são uma opção viável para pacientes com constipação.

Não houve benefício no uso de corticoterapia e 5-aminossalicilato no tratamento da SII.

A síndrome do intestino irritável é uma doença heterogênea e seus portadores merecem uma abordagem individualizada, com enfoque na melhora da qualidade de vida. Recomenda-se uma abordagem inicial não medicamentosa, com mudança na alimentação e na prática de atividades físicas, gradativamente direcionando o tratamento de acordo com o padrão predominante de sintomas apresentados.

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Autor:

Mateus Benatti Gondolfo

Graduação em Medicina pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB) ⦁ Médico Residente em Infectologia no Hospital Nossa Senhora da Conceição em Porto Alegre RS

 

 

Referências:

2 Comentários

  1. Excelente artigo.

    • Ana Carolina Pomodoro

      Olá, Myrian! Ficamos felizes com seu retorno! Aproveitamos para lhe convidar a continuar acompanhando e participando do nosso portal.

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