Pediatria

Tromboprofilaxia com enoxaparina é segura em pacientes pediátricos com retocolite ulcerativa?

Tempo de leitura: 3 min.

A retocolite ulcerativa é um tipo de doença inflamatória intestinal que, apesar de incomum na faixa etária pediátrica, não pode ser subestimada. Estatísticas revelam que a retocolite ulcerativa pediátrica corresponde a 15-20% de todos os casos, com incidência de 1-4 por 100.000 pessoas a cada ano nas regiões da América do Norte e Europa. Apesar de mais incomum que em adultos, a retocolite ulcerativa na pediatria apresenta caráter disseminado com mais frequência, levando a quadros mais graves com maiores índices de internação e com necessidade de colectomia em grande parte dos doentes.

Leia também: Doenças inflamatórias intestinais: quais são as manifestações dermatológicas?

Risco

As doenças inflamatórias intestinais causam um estado protrombótico, com maior risco de fenômenos tromboembólicos em pacientes com retocolite ulcerativa. Sendo assim, protocolos para realização de tromboprofilaxia em pacientes internados com retocolite ulcerativa têm sido propostos e aplicados em populações adultas, mas pouco se conhece a respeito das indicações e segurança desses protocolos na população pediátrica, principalmente com relação ao risco de sangramento nesses pacientes.

Existe uma proposta baseada em um guideline conjunto da European Crohn and Colitis Organization e da European Society of Paediatric Gastroenterology , Hepatology and Nutrition para realização de heparinas de baixo peso molecular como forma de prevenção do tromboembolismo em adolescentes com retocolite ulcerativa aguda grave e com pelo menos dois fatores de risco para trombose, como tabagismo, uso de contraceptivos orais, imobilização completa, uso de cateter venoso central, obesidade, infecções concomitantes, presença de distúrbios protrombóticos e história prévia ou familiar de tromboembolismo venoso.

Análise recente

Um estudo publicado no periódico Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition em novembro trouxe os resultados de um estudo retrospectivo em pacientes menores de 18 anos admitidos em um hospital canadense para tratamento da retocolite ulcerativa. Foram avaliados os prontuários de 218 pacientes internados com retocolite ulcerativa no período entre 2007 e 2016, com avaliação de variáveis clínicas e laboratoriais dos pacientes. Também foi avaliado o uso de enoxaparina como trombroprofilaxia nesses pacientes, e comparados os grupos que fizeram e não fizeram uso dessa medicação para as variáveis de desfecho: necessidade de hemotransfusão e variação de níveis de hemoglobina sérica no período de 7 dias após a admissão.

Com relação às variáveis clínicas desses pacientes, houve diferença estatisticamente significativa no escore PUCAI (que indica gravidade da doença) nos pacientes que receberam enoxaparina como tromboprofilaxia, com esse grupo apresentando escores maiores e indicando maior gravidade. Com relação a outros fatores, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, incluindo a hemoglobina basal.

Saiba mais: Anvisa aprova novo medicamento para tratamento de retocolite

Em relação aos desfechos, os pacientes com profilaxia com enoxaparina apresentaram uma queda maior nos níveis de hemoglobina do que os pacientes sem profilaxia (p=0,03). Apesar disso, não houve diferença estatisticamente significante com relação à necessidade de hemotransfusão. Como o grupo com uso de enoxaparina era composto de pacientes mais graves, os autores realizaram uma subanálise comparando os pacientes com PUCAI > 65 na admissão, tanto no grupo com uso de profilaxia como no grupo sem uso de profilaxia; nesse caso, não houve diferença estatisticamente significativa com relação à queda na hemoglobina sérica. Nenhum dos grupos apresentou sangramentos maciços ou morte nesse estudo.

Apesar de ser um estudo retrospectivo, o artigo sugere conclusões interessantes sobre a segurança da tromboprofilaxia com enoxaparina em pacientes pediátricos internados para tratamento de retocolite ulcerativa. Mais evidências científicas são necessárias para embasar essa abordagem, mas os potenciais benefícios dessas medidas podem ser uma importante melhora nos cuidados desses pacientes.

Autor(a):

Referências bibliográficas:

  • Story E, et al. Safety of Venous Thromboprophylaxis With Low-molecular-weight Heparin in Children With Ulcerative Colitis. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition; 2021;73(5):604-609. doi: 10.1097/MPG.0000000000003231.
  • Turner D, et al. Management of paediatric ulcerative colitis, part 1: ambulatory care—an evidence-based guideline from European Crohn’s and Colitis Organization and European Society of Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition. Journal of pediatric gastroenterology and nutrition. 2018;67(2):257-291. doi10.1097/MPG.0000000000002035
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Publicado por
Dolores Henriques

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