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Tumores de sítios extraoculares podem dar metástase iriana?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Metástases oculares são relativamente incomuns, com uma incidência reportada de mais ou menos 8% por resultado de autópsia. A taxa de metástase intraocular varia de acordo com o sítio primário e o grau de controle sistêmico da doença. A maioria das metástases uveais acontece na coroide, provavelmente pelo suprimento sanguíneo abundante na coroide pelas artérias ciliares posteriores.

Tumores metastáticos irianos são relativamente incomuns, podendo se apresentar como nódulos estromais ou por espessamento indefinido iriano, podendo estar associados a quadro de dor, iridociclite e hifema.  Em 2014, Shields et al. reportaram sua experiência de 40 anos de 104 casos de metástases irianas, tendo como principais sítios primários mama, pulmão e pele. Muitos desses pacientes não haviam sido examinados anteriormente por oftalmologistas, pois não tinham queixas visuais.

Em artigo publicado, em 2016, nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologiapor Mello et al. foram reportados três casos de metástase iriana.

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Caso 1: Masculino, 61 anos, há três meses com diminuição da visão em olho direito e presença de lesão iriana.  Nega antecedentes oftalmológicos. Tratou adenocarcinoma renal com nefrectomia total há cinco anos. O follow up por imagem e laboratório não havia mostrado doença metastática. Ao exame oftalmológico apresentava acuidade visual corrigida de 0,66 em olho direito (OD) e 1.0 em olho esquerdo (OE).

Os reflexos eram normais. A pupila direita tinha área de irregularidade inferior e neovasos em colarete. Havia reação de câmara anterior 2+/4+ sem precipitados ceráticos e uma massa amarelada de 7×4 mm, de 1-5h de relógio, com vasos friáveis intrínsecos. A pressão intraocular estava aumentada em OD (25 mmHg OD x 12 mmHg OE). A fundoscopia era normal. A biomicroscopia ultrassônica (UBM) do OD mostrou massa iridociliar com refletividade homogênea com espaços internos hiporreflectivos. Agentes hipotensores e prednisolona tópica a 1% foram iniciados. RMI revelou massa renal, hepática, cerebral e pulmonar. O tratamento com antitirosinase oral foi iniciado, levando à diminuição importante das lesões irianas e sistêmicas. Paciente ainda em acompanhamento 18 meses após o diagnóstico inicial.

Caso 1 / Reprodução

Caso 2: Feminino, 58 anos, com dor e borramento visual em OE. Teve câncer de mama, tratado há 10 anos com mastectomia, linfadenectomia e quimioterapia sistêmica. Ao exame ocular apresentava 1.0 em OD e apenas contava dedos em OE. A pupila de OE tinha resposta lenta à luz, com irregularidade às 2h de relógio, uma massa perolada de 3×2 mm no quadrante superior temporal.

Além disso, tinha inflamação na câmara anterior de 3+/4+ e hipópio sem precipitados ceráticos. UBM revelou lesões irianas com refletividade heterogênea. Foram descartadas metástases sistêmicas. O exame histopatológico de material de biópsia iriana mostrou-se altamente sugestivo de carcinoma metastático. A imuno-histoquímica foi positiva para CEA e CK7 e negativa para estrogênio. O paciente foi tratado com radioterapia externa, com completa regressão da lesão. Após 13 meses de acompanhamento, não foi encontrada evidência de recorrência/novas metástases.

Caso 2 / Reprodução

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Caso 3: Feminino, 25 anos, lesão iriana em OD e borramento visual há três meses. Teve um adenocarcinoma um ano antes, tratado com paratireoidectomia total e mandibulo-mastoidectomia com extração da cadeia linfonodal cervical, mas com margens não livres. Radioterapia externa adjuvante foi feita. Ao exame ocular apresentava acuidade visual de 0,2 em OD e 1.0 em OE. A pupila de OD era irregular e a resposta diminuída à luz, sem sinais de inflamação uveal. Uma massa iriana rosada foi observada de 1-3h de relógio com a presença de vasos intrínsecos. UBM de OD mostrou massa iridociliar com refletividade homogênea e áreas de hiporrefletividade interna. Foi feito diagnóstico clínico de doença metastática. PET negativo. Feita placa de braquiterapia com melhora das lesões. O paciente faleceu dez meses após progressão da doença metastática.

Caso 3 / Reprodução

De acordo com o estudo de Shields et al., o rim e as parótidas são considerados sítios raros de tumores primários associados a tumores metastáticos de íris. Enquanto isso, 33% são originários de tumores de mama. A maioria dos tumores de íris pode ser diagnosticado usando critério clínico sem necessidade de resultado histopatológico. Em pesquisa clínica com 3680 tumores de íris 21% são císticos e 79% sólidos.

Além disso, dos 79% apenas 11 são não melanocíticos. A maioria dos pacientes diagnosticada com tumor e submetida a tratamento é rastreado sistemicamente, mas a grande maioria não tem acesso à consulta oftalmológica para avaliar a possibilidade de implantes metastáticos em tecidos uveais. O objetivo desse artigo é alertar a todos os médicos que fazem diagnóstico de câncer sobre a possibilidade de metástase iriana.

Autora:

Referências:

  • Mello, Patrícia Correa de; Brasil, Oswaldo Ferreira Moura; Vidoris, André; Morales, Melina Correia; Belfort, Rubens N.”Iris metastases from systemic cancer: a report of three cases” Arq Bras Oftalmol. 2016;79(6):407-10,
  • Shields CL, Kancherla S, Patel J, Vijayvargiva P, Suriano MM, Kolbus E, et al. Clinical “Survey of 3680 iris tumor based on the age at presentation.” Opththalmology. 2012;
    119(2):407-14.

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