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Vacinação contra Covid-19 com imunizantes diferentes é possível?

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Com exceção da vacina da Janssen, todas as vacinas contra Covid-19 licenciadas até o momento para uso no Brasil necessitam de 2 doses para completar seu esquema. Assunto não avaliado nos estudos iniciais de eficácia e segurança, e uma questão que se levanta na comunidade científica é se a vacinação com doses de vacinas diferentes seria possível.

A prática da vacinação com imunizantes de fabricantes e plataformas diferentes está em avaliação em países como Chile e Canadá, mas os resultados conclusivos ainda podem demorar a serem divulgados.

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Essa estratégia ganha especial interesse após o relato de eventos adversos raros associados a vacinas de adenovírus não replicante, o que levou a mudanças nas recomendações de vacinação em alguns países. No Brasil, houve a recomendação de não vacinar gestantes com doses de Aztrazeneca/Oxford, que utiliza essa plataforma, e, para as que tomaram a primeira dose com essa vacina, de não administrar a segunda dose com esse imunizante.

Os resultados iniciais de um estudo de fase 2 em relação ao uso de vacinas de mRNA como booster de uma primeira dose de vacinas de adenovírus não replicante foram publicados e apoiam a adoção dessa estratégia.

Vacinação com vacinas diferentes

Materiais e métodos

O estudo, batizado de CombiVacS, é um estudo multicêntrico, randomizado e aberto, que foi conduzido em cinco hospitais universitários na Espanha. Os voluntários eram elegíveis se tinham entre 18 e 60 anos e se tinham recebido uma única dose de ChAdOx1-S (Aztrazeneca/Oxford) 8 a 12 semanas antes de entrar no estudo. Indivíduos com infecção por SARS-CoV-2 confirmada por RT-PCR, que tenham recebido outra vacina, que estivessem com sintomas sugestivos de Covid-19 no momento da dose planejada da vacina do estudo ou que apesentassem contraindicação à administração de BNT162b2 (BioNTech) foram excluídos. Gestantes também não foram incluídas.

Os participantes foram randomizados para receber uma dose de BNT162b2 como booster (grupo intervenção) ou para observação (grupo controle). Todos os participantes deviam relatar quaisquer eventos adversos nos 14 dias subsequentes à entrada no estudo.

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O desfecho primário foram os títulos de anticorpos contra proteína S do SARS-CoV-2 dosados 14 dias após a dose de BNT162b2. Um desfecho secundário de imunogenicidade avaliado foram os títulos de anticorpos neutralizantes no mesmo período. A resposta celular também foi avaliada como desfecho exploratório — definida como produção de IFN-ɤ em resposta a antígenos da proteína S do SARS-CoV-2.

Resultados

Para a análise de imunogenicidade, 663 participantes foram incluídos: 441 no grupo de intervenção e 222 no grupo controle. Destes, 448 foram incluídos para avaliação de reatogenicidade.

No D14, os títulos médios de anticorpos contra SARS-CoV-2 foram maiores no grupo intervenção quando comparados com os do grupo controle (p < 0,0001). Resposta imune diferenciada pode ser observada no grupo intervenção em comparação com os indivíduos do grupo controle já no D7, também com diferença estatística (p < 0,0001). Análise por subgrupos mostraram que não houve diferença nas respostas quando estratificadas por faixa etária (18-49 anos vs. 50-59 anos), mas foram significativamente menores em homens do que em mulheres.

A avaliação de anticorpos neutralizantes foi realizada em 198 participantes selecionados de forma aleatória, sendo 129 no grupo intervenção e 69 no grupo controle. No D0 do estudo, independente do tempo desde a dose de ChAdOx1-S, 74% dos participantes não apresentavam ou apresentavam atividade neutralizante muito baixa. Após 14 dias da vacinação com BNT162b2, 100% dos indivíduos vacinados apresentavam anticorpos neutralizantes, sendo 98% com atividade alta ou muito alta. O aumento nos títulos de anticorpos neutralizantes ocorreu de forma independente dos valores basais e não foi observado de forma significativa no grupo controle. A análise de resposta celular obteve resultados semelhantes, com aumentos significativos no grupo intervenção no D14, mas não no grupo controle.

Em relação aos eventos adversos, cefaleia, mialgia e fadiga foram os sintomas sistêmicos mais comumente relatados, enquanto dor local, enduração e eritema foram os efeitos locais mais frequentes. Não houve diferença na análise por faixa etária, mas os eventos foram mais comuns em mulheres do que em homens.

Mensagens práticas

  • Embora preliminares, esses dados demonstram que vacinação com esquemas heterólogos são capazes de elucidar uma resposta imune humoral e celular.
  • O estudo avaliou as vacinas ChAdOx1-S e BNT162b2, de adenovírus não replicante e mRNA, respectivamente, e com 8 a 12 semanas de intervalo. Representantes dessas plataformas no Brasil seriam as vacinas Aztrazeneca/Oxford e Pfizer.
  • O estudo não incluiu alguns estratos importantes da população, como idosos e gestantes. Como os eventos adversos mais preocupantes com as vacinas de adenovírus não replicante estão mais associados à população jovem, esses resultados são relevantes como embasamento para a vacinação nessa faixa etária. Entretanto, estudos específicos em gestantes são desejáveis e necessários.

Autor(a):

Referências bibliográficas

  • Borobia AM, et al. Immunogenicity and reactogenicity of BNT162b2 booster in ChAdOx1-S-primed participants (CombiVacS): a multicentre, open-label, randomised, controlled, phase 2 trial. The Lancet. 2021. doi: 10.1016/S0140-6736(21)01420-3
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