Vacinação contra Covid-19: como orientar pacientes com doenças reumáticas imunomediadas

Tempo de leitura: 3 min.

Com o surgimento das vacinas contra a Covid-19, orientações sobre imunização e adequações do calendário vacinal são demasiadamente relevantes e necessárias no consultório. Alguns grupos populacionais são alvo de maior atenção quanto à orientação vacinal, por sua maior vulnerabilidade relacionada à condição clínica de base e a sua terapêutica – como no caso de doenças reumáticas imunomediadas (DRIM).

Por essa razão, órgãos como a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) e o American College of Rheumatology (ACR) realizaram algumas publicações com orientações sobre imunização em pacientes com DRIM – em uso ou não de terapia imunossupressora – cujos principais pontos centrais elencaremos aqui para te auxiliar em sua tomada de decisão e orientação ao paciente e familiares.

Vacinação em pacientes reumáticos

O ponto central a ser lembrado é que pacientes com DRIM, independentemente do seu estado de atividade de doença atual ou utilização de terapia imunossupressora, necessitam de atenção à imunização. Portanto, a verificação de cumprimento de seu calendário vacinal faz parte obrigatória do seu plano de cuidado (seja pelo especialista focal – ex.: reumatologista – ou o médico generalista coordenador do cuidado do paciente – ex.: médico de família).

No documento disponibilizado pela SBR em janeiro de 2021, um painel de especialistas votou recomendações sob o formato de perguntas e respostas para orientações práticas quanto à imunização durante o cenário da pandemia do novo coronavírus. As orientações se baseiam principalmente na decisão clínica compartilhada visualizando-se o cuidado caso-a-caso sob uma lente de princípios gerais aprendidos com base nos ensaios clínicos com casos de covid-19 disponíveis até o momento ou experiências anteriores de imunizações para outros agravos em vigência de DRIM.

Leia também: Manuseio de adenopatia axilar em pacientes com vacinação contra Covid-19

Aspectos-chave:

  • Nenhuma das plataformas em estudo até o momento utiliza-se de técnicas contendo vírus vivos atenuados. Como consequência, os ensaios clínicos não têm demonstrado evidências de desenvolvimento de casos da doença associados à vacinação. Portanto, com os dados disponíveis até o momento, as vacinas disponíveis com aprovação em caráter emergencial são seguras para pacientes com DRIM.
  • Os ensaios clínicos de fase III não realizaram avaliações específicas para populações em situações de imunossupressão, sejam elas por doenças adquiridas ou por indução terapêutica, de modo que todas as evidências para a tomada de decisão devem levar em conta esse fator limitante para a tomada de decisão compartilhada.
  • As DRIM até o momento não consideradas como fator de risco independente para formas clínicas graves de covid-19 ou suas complicações. Portanto, pacientes jovens, sem comorbidades, apenas portadores de DRIM não compõem por si só grupo prioritário, à luz do Ministério da Saúde.
  • Pacientes sob o uso de doses de prednisona superiores à 10 mg ou equivalente, pulsoterapia com metilprednisolona e/ou ciclofosfamida (especialmente em cenários de atividade de doença sistêmica, com maior atenção ainda às doenças de acometimento pulmonar) possuem maiores riscos de desenvolvimento da forma grave de covid-19, devendo ser considerados como grupo prioritário para imunização, neste caso.
  • Pacientes sob terapia imunossupressora depletora de células b (ex.: rituximabe) devem ter sua imunização considerada e a discussão de riscos-benefícios junto ao médico assistente, uma vez que a terapia imunossupressora em questão pode influenciar na resposta vacinal.
  • O momento mais adequado para imunização deve ser decidido em conjunto com o reumatologista, levando-se em conta o cenário epidemiológico local, recursos disponíveis e condições clínicas do paciente, sendo que do ponto de vista clínico o momento ideal seria: 1)doença em remissão ou baixa atividade 2) uso de medicações que induzam baixa ou nenhuma imunossupressão. Contudo, essa condição clínica não é imprescindível para realização ou recomendação da imunização.

Mensagem prática

As recomendações de órgãos regulatórios e sanitários locais são balizadores fundamentais para tomada de decisão mediante não só a escassez de recursos, como também mudança e atualização constante de informações.

Na prática clínica cotidiana, a principal mensagem a ser considerada é que a presença de DRIM durante a pandemia de Covid-19 não só não impede a recomendação de imunizações ou utilização de imunizantes já classicamente recomendados (ex.: pneumococo e gripe comum), como a depender das condições clínicas do paciente (ex.: comorbidades, utilização de imunossupressores, idade) podem o classificar como grupo prioritário à vacinação.

Outras informações importantes acerca do tema, como o guia de prescrição de drogas imunossupressoras ou principais sinais clínicos de atividade de doença no caso de DRIM, você pode acessar no Whitebook e as atualizações constantes sobre o painel de Covid-19 no Brasil e no mundo para sua melhor tomada de decisão clínica você confere aqui no portal.

Autor:

Referências bibliográficas:

  • Sociedade Brasileira de Reumatologia. Força-Tarefa Para Gerar As Orientações De Vacinação Contra SARS-Cov-2 Para Pacientes Com Doenças Reumáticas Imunomediadas (DRIM). São Paulo; 2021. Acessível em: http://www.reumatologia.org.br/downloads/pdf/SBR-For%C3%A7a-Tarefa-Vacinas-COVID-19.pdf
  • Marques C, Kakehasi A, Pinheiro M et al. High levels of immunosuppression are related to unfavourable outcomes in hospitalised patients with rheumatic diseases and COVID-19: first results of ReumaCoV Brasil
    Gianfrancesco M, Hyrich K, Al-Adely S et al. Characteristics associated with hospitalisation for COVID-19 in people with rheumatic disease: data from the COVID-19 Global Rheumatology Alliance physician-reported registry. Ann Rheum Dis. 2020;79(7):859-866.
  • Curtis J, et al American College of Rheumatology guidance for COVID-19 vaccination in patients with rheumatic and musculoskeletal diseases — version 1 Arthritis Rheum 2021.
Compartilhar
Publicado por
Hospital de Amor

Posts recentes

ACC.21: o que já sabemos sobre anticoagulantes em pacientes com Covid-19?

Uma sessão inteira do congresso do ACC 2021 foi dedicada à discussão o uso de anticoagulantes…

9 horas atrás

ACC 2021: dapagliflozina seria benéfico em pacientes com Covid-19 e fatores de risco?

Um estudo que avaliou o uso da dapagliflozina na Covid-19 em pacientes com fatores de…

10 horas atrás

ATS 2021: síndrome pós-Covid-19 e reabilitação pulmonar

A síndrome pós-Covid-19 e seu manejo foram temas de uma das sessões do congresso da…

12 horas atrás

ATS 2021: novidades na abordagem de tromboembolismo pulmonar

Uma das temáticas abordadas no ATS 2021 foram as novidades em tromboembolismo pulmonar (TEP), que…

13 horas atrás

ATS 2021: abordagem de nódulos e massas pulmonares – práticas atuais

Um dos principais assuntos discutidos no congresso da American Thoracic Society, ATS 2021, foi nódulos…

16 horas atrás

ACC 2021: oclusão do apêndice atrial em cirurgia cardíaca + anticoagulação pode reduzir risco de AVE?

O estudo LAAOS 3 avaliou se a oclusão do apêndice atrial esquerdo, adicionada à posterior…

1 dia atrás