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médico administrando fluido intravenoso em UTI

Você sabe como hidratar seu paciente?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Hidratação é um capítulo na Medicina que pode parecer simples, mas poucas pessoas sentam para ter uma aula de como prescrevê-la. E você, já aprendeu a hidratar seu paciente? Um estudo mostrou, por exemplo, que é prática comum a hidratação ser prescrita pelo médico mais novo, o que pode gerar doses inadequadas e piorar o prognóstico do paciente. Além disso, no cenário específico do paciente cirúrgico, a hidratação inadequada está associada com maior morbimortalidade. Por isso, é importante prescrever adequadamente a hidratação do seu paciente e uma revisão recente sobre o assunto pode nos ajudar.

Primeira etapa: conhecendo os fluidos disponíveis

Fluido Osm. Na (mEq/L) Cl (mEq/L) Comentários
Soro glicosado 5% 278 0 0 É terapia para hidratação e não para reposição volêmica, pois em menos de 1 hora a maior parte já extravasou do plasma para o interstício (de 1000ml, menos de 100 ml ficam no plasma após 1 hora). Sua maior utilidade é o paciente cirúrgico que não pode ingerir líquidos via oral.

A solução a 5% contém 5 gramas de glicose para cada 100 ml. Cada grama de glicose equivale, em média, a 4 kcal. Por isso, para obtermos o mínimo de 400 kcal e evitar cetose, são necessários 100g de glicose, ou 2000ml de SG 5% ou 1000ml SG 10%.

Ringer Lactato 278 130 109 É um dos tipos de solução balanceada, pois tem concentração de íons mais próxima do plasma.

Além de Na e Cl, contém K, lactato e cálcio. O lactato é convertido em bicarbonato e CO2, com risco baixo mas real de alcalose metabólica.

O potássio apresenta baixa concentração e na vida real raramente é um problema clínico, exceto no paciente que já tem hiperpotassemia. O lactato também só é problema se houver doença que prejudique seu metabolismo, como cirrose avançada.

Contraindicada administração simultânea com bicarbonato ou concentrado de hemácias, pelo risco de precipitação com cálcio.

Ringer Simples 309 147 155 Tem composição semelhante ao SF 0,9% e indicações / contraindicações similares.
Soro Fisiológico 0,9% 308 154 154 É a solução mais eficaz em reposição volêmica rápida, mantendo-se (após 1 hora no plasma) 220 ml para cada 1000 ml infundidos.

Também é a escolha no paciente com hipertensão intracraniana, a fim de evitar hiponatremia.

O maior problema é a evolução para hipercloremia e insuficiência renal. Por isso, não deve ser utilizada como hidratação de rotina, mas apenas para reposições volêmicas.

Plasma-Lyte 294 140 98 Foi lançada para ser uma solução balanceada mais equilibrada que o RL, por não conter lactato e sim acetato e gluconato. A principal restrição é o custo, ainda relativamente alto no Brasil.

Também não contém cálcio e por isso não há contraindicação à administração simultânea com hemoderivado.

E os coloides? A principal vantagem seria possibilitar menor volume de transfusão com maior efeito, pois ficaria retido no plasma mais tempo. Contudo, na vida real, esse volume não é muito menor. No lançamento, falava-se em 1 ml de coloide para cada 3 ml de cristaloide, mas casos da vida real mostraram uma relação de apenas 1,5 ml / 1 ml.

Há dois tipos no mercado:

  • Sintéticos: o principal é o HES (hidroxietilamido). Podem causar insuficiência renal e distúrbios da coagulação. Não são mais utilizados de rotina no doente crítico.
  • Não-sintéticos: é a albumina, que pode ser feita a 20% (frascos de 50-100 ml) ou 5% (diluída em SF ou RL). Por ser hemoderivado, há risco mínimo similar às transfusões. É a solução de escolha em cirróticos e grande queimados, mas na sepse grave e no doente cirúrgico o uso é controverso, com estudos mostrando efeitos neutros e outros vantagens secundárias. Na vida real, baseada em experiência e não em ensaios clínicos, tem maior utilidade no doente já mal distribuído que necessita de reposição volêmica rápida, como alguns pós-operatórios de grande porte ou na reinfecção de um doente da terapia intensiva.

Segunda etapa: o paciente precisa de fluido?

Essa é a pergunta-chave. Em geral, a resposta é sim em três cenários:

Terceira etapa: como fazer

Hidratação basal – o paciente não pode ingerir via oral ou a ingestão é insuficiente.

  • Solução de escolha: SG 5% ou Ringer Lactato
  • Volume: 20-30 ml/kg
  • Eletrólitos:
    – Entram se não houver ingestão oral ou se houver deficiência sérica (“hipo”).
    – Sódio: NaCl 20%. Cada ampola contém 10 ml e 2 g. Calcule 4 a 6 gramas/dia. Lembre que 1 g NaCl = 17 mEq.
    – Potássio: KCl. O mais comum no mercado é a solução a 10%, mas há ainda a 19,8%. Na 10%, são 10 ml com 1 g. Calcule 4 gramas/dia. Lembre que 1 g KCl = 13 mEq.
    – Magnésio e cálcio: raramente colocamos de rotina, apenas no paciente em dieta oral zero prolongada (> 72h) ou se houver deficiência sistêmica.

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Reposição Volêmica – há sinais de hipovolemia, com perdas por vômito, diarreia, sangramento ou aumento terceiro espaço (sepse e resposta inflamatória).

Aqui a solução não é hidratar nas 24h!!! Não caia neste erro. Faça SF 0,9% 20 ml/kg em 1 hora e avalie a resposta hemodinâmica. Reavalie o paciente várias vezes ao longo do seu plantão. Se melhorou, é sinal que responde à volume e, se mantiver má perfusão, pode ser necessária nova alíquota.

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Referências:

  • Use of intravenous fluids/solutions: a narrative review. Curr Med Res Opin. 2017 Mar;33(3):459-471. doi: 10.1080/03007995.2016.1261819. Epub 2016 Dec 14.
  • M. C. Bellamy; Wet, dry or something else?, BJA: British Journal of Anaesthesia, Volume 97, Issue 6, 1 December 2006, Pages 755–757, https://doi.org/10.1093/bja/ael290
  • Intravenous fluid-associated morbidity in postoperative patients. Ann R Coll Surg Engl. 2005 Mar; 87(2): 126–130. doi: 10.1308/147870805X28127

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