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A estação do ano influencia no desempenho cognitivo e na demência?

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Pouco se domina ainda sobre variações sazonais na fisiologia do cérebro humano, mas alguns estudos têm surgido para tentar compreender possíveis mudanças cognitivas no cérebro humano em períodos específicos do ano. Não seria de se estranhar que oscilações ocorram se nós observarmos que essas variações ambientais sazonais moldaram a vida na terra com ciclos circadianos identificados na maioria dos seres vivos em que as estações anuais correspondem a flutuações às quais os demais organismos se adaptaram.

Ao contrário da cognição, as mudanças afetivas ocorridas pelas estações já é amplamente conhecida pelos cientistas e clínicos. Sabemos que as quatro estações exercem poder sobre nossos cérebros na Desordem Afetiva Sazonal um tipo de depressão que ocorre predominantemente durante os meses de inverno. Outros estudos já concluíram que o início da esquizofrenia é mais provável de ocorrer no inverno.

Neste estudo publicado em setembro na revista PLOS Medicine Andrew Lim do Sunnybrook Health Sciences Center e da Universidade de Toronto, Canadá, e colegas envolvendo mais de 3 mil adultos e idosos com e sem doença de Alzheimer sugere que o impacto sazonal está além das desordens afetivas já conhecidas demonstrando que adultos com e sem doença de Alzheimer têm melhores habilidades cognitivas no final do verão e início do outono e piora das funções no inverno e primavera. Portanto, é de esperar que os sintomas da demência atinjam seu pico no inverno e na primavera de cada ano devido a uma queda mensurável na capacidade mental.

O que a pesquisa mostrou?

O grupo de pesquisadores procurou investigar se a estação pode influenciar a pior cognição em adultos saudáveis, bem como aqueles com demência. Todos os participantes passaram por testes neuropsicológicos, que incluíram uma bateria de 19 testes cognitivos; além disso, um subgrupo de participantes foi testado quanto aos níveis de uma proteína ligada à doença de Alzheimer.

Os autores viram que o funcionamento cognitivo médio foi maior no verão e no outono do que no inverno e na primavera, A diferença foi calculada como sendo o equivalente a 4,8 anos de declínio cognitivo normal relacionado à idade. No total os pesquisadores analisaram dados de 3.353 pessoas inscritas em três diferentes estudos de coorte nos Estados Unidos, Canadá e França. 

Leia mais: Doença de Alzheimer: treinamento cognitivo é eficaz no estágio inicial?

Eles também notaram que a memória de trabalho (a capacidade de manter as coisas em mente por um curto período de tempo, como memorizar o número de telefone de alguém) e velocidade de processamento (a rapidez com que alguém consegue executar uma tarefa) foram os mais afetados pela temporada. 

E as descobertas não mudaram se elas representavam o humor da pessoa, o nível de atividade física, a qualidade do sono, a hora do dia do teste ou a integridade da tireoide.

Como devemos ler as descobertas?

A relevância dessa descoberta tem impacto pratico na conduta médica segundo os autores do estudo pois “Pode haver valor em aumentar os recursos clínicos relacionados à demência no inverno e no início da primavera, quando os sintomas tendem a ser mais pronunciados”, dizem os autores. 

E para o futuro fica a incumbência de observar os mecanismos que estão por trás dessa melhora sazonal na cognição no verão e início de outono para se possível abrir novas vias de tratamento para as doenças acometidas por declínio da cognição tendo a doença de Alzheimer como foco principal.

Pesquisas anteriores já haviam ligado as estações do ano a especificidades no desempenho cognitivo em pessoas mais jovens. Mais recentemente, pesquisadores europeus encontraram ritmos anuais de atividade cerebral em jovens participantes saudáveis, executando tarefas de atenção sustentada e memória de trabalho.

Conclusão

Neste estudo foi percebido que para a tarefa de atenção sustentada, as respostas máxima e mínima foram localizadas em torno dos solstícios de verão e inverno, respectivamente, enquanto que para a tarefa de memória de trabalho, as respostas máxima e mínima foram observadas em torno dos equinócios de outono e primavera. 

Se as descobertas forem confirmadas, elas podem ser importantes para o modo como a demência é administrada uma vez que os meses mais frios parecem piorar os sintomas de demência e reduzir a capacidade cognitiva em adultos idosos em geral.

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Autor:

Referências:

  • André SP Lim, Chris Gaiteri, Lei Yu, Shahmir Sohail, Walter Swardfager, Shinya Tasaki, Julie A. Schneider, Claire Paquet, Donald T. Stuss, Mario Masellis, Sandra E. Black, Jacques Hugon, Aron S. Buchman, Lisa L Barnes, David A. Bennett e Philip L. De Jager. Plasticidade sazonal da cognição e medidas biológicas relacionadas em adultos com e sem doença de Alzheimer: Análise de múltiplas coortes . PLOS Medicine , 2018; 15 (9): e1002647 DOI: 10.1371 / journal.pmed.1002647

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