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ASIA: você conhece essa síndrome autoimune/inflamatória?

Tempo de leitura: 3 minutos.

Recentemente, um jornal de grande circulação publicou um caso de uma paciente com ASIA (Autoimmune [Auto-inflammatory] Syndrome Induced by Adjuvants), em fase avançada da doença, cujo único fator possivelmente envolvido seriam próteses de silicone. Desde então vários pacientes me pediram esclarecimentos.

O Centro de Doenças Autoimunes de Tel-Hashomer em Israel sugeriu a etiopatogenia dessa síndrome. Estas distintas e enigmáticas condições autoimunes, com apresentações separadas no tempo e distância geográfica, foram agrupadas como uma só síndrome, a síndrome autoimune/inflamatória induzida por adjuvantes, com mnemônico ASIA, em inglês.

Como adjuvantes podemos entender o mosaico de fatores ambientais reconhecido há várias décadas como indutores de autoimunidade em diferentes modelos animais, utilizados na indústria farmacêutica para incrementar a antigenicidade e baratear a produção de vacinas e que, como já sabemos, podem contribuir como gatilho para o desenvolvimento de doenças inflamatórias ou autoimunes em humanos geneticamente suscetíveis. Neste grande grupo – fragmentos infecciosos, hormônios, alumínio, silicone – recentemente vem se destacando o escaleno, óleo obtido na natureza de tecido de tubarão e um dos principais adjuvantes das vacinas anti-influenza disponíveis no país.

Já a siliconose, como ficou conhecida a reação tecidual fibrosante similar à forma limitada de esclerodermia, com sintomas sistêmicos de caráter geral associados aos implantes estéticos, desafiou a comunidade científica internacional a comprovar seu mecanismo fisiopatogênico.

No início dos anos 90, o silicone era considerado um material inerte e, portanto, incapaz de desencadear fenômenos imunes. Metanálises recentes estimam o risco de desenvolver doenças do tecido conjuntivo após implante de silicone em apenas 0,8%, muito próximo ao da população geral. Entretanto, esses estudos admitiam em suas casuísticas apenas pacientes que fechavam critérios de doenças autoimunes conhecidas. Não consideraram, portanto, pacientes com manifestações menos específicas tais como artralgias, mialgias, ou até mesmo manifestações neurológicas, mas que não se encaixavam em alguma condição conhecida.

A doença muscular pós-vacinal descrita pelo francês Gehardi et al, em 1998, é interessante por ter tido suas alterações histopatológicas bem documentadas. Trata-se de miofasciíte macrofágica com inclusão citopasmática do alumínio usado como adjuvante em diversas vacinas e suas manifestações sistêmicas com marcada astenia, fadiga crônica, mialgia, artralgia, febre e, em alguns casos, polirradiculopatia desmielinizante clinicamente semelhante à doença de Guillain-Barré com alterações eletroneuromiográficas documentadas.

Como veremos a seguir, um dos os critérios para diagnóstico da síndrome inclui estímulo a um fator externo que podem ser as próteses de silicone. Embora raro, esse diagnóstico deve ser aventado.

LEIA MAIS: Cirurgia Plástica Estética – como identificar um paciente não elegível?

Critérios sugeridos por Shoenfeld para o diagnóstico de ASIA

Critérios maiores:

  • Exposição a um estímulo externo (infecção, vacina, silicone, adjuvante) antes das manifestações clínicas.
  • Aparecimento de uma das manifestações clínicas abaixo:
    – Mialgia, miosite ou fraqueza muscular;
    – Artralgia e/ou artrite;
    – Fadiga crônica, sono não repousante ou distúrbios do sono;
    – Manifestações neurológicas (especialmente associadas com desmielinização);
    – Alteração cognitiva, perda de memória;
    – Febre, boca seca.
  • A remoção do agente iniciador induz melhora.
  • Biópsia típica dos órgãos envolvidos.

Critérios menores:

  • Aparecimento de autoanticorpos dirigidos contra o adjuvante suspeito.
  • Outras manifestações clínicas (ex.: síndrome do cólon irritável).
  • HLA específicos (ex.: HLA DRB1, HLA DQB1).
  • Surgimento de uma doença autoimune (ex.: esclerose múltipla, esclerose sistêmica).

Para o diagnóstico de ASIA: pelo menos a presença de dois critérios maiores ou um critério maior e dois menores.

Todos os pacientes que são submetidos à mamaplastia de aumento devem ser informados de todas as possíveis complicações, incluindo a ASIA e o linfoma de células anaplásicas, um tipo de linfoma não-Hodgkin.

Os implantes mamários são indicados para aumentar a mama. Entretanto, muitos pacientes que desejam reduzir a mama solicitam a inclusão de próteses. Pessoalmente, acho um contrassenso. Indicação para inclusão de próteses em mamaplastias de aumento devem ser exceção, e não a regra, sobretudo em face a essas novas doenças causadas pela presença do implante. Não há razão para preocupação excessiva. São síndromes raras, mas bom senso é fundamental.

Autor:

André Mattos

Graduação em Medicina pela UFRJ (1987) ⦁ Residência em Cirurgia Geral na UFRJ (1988-1989) ⦁ Residência em Cirurgia Plástica no Instituto Ivo Pitanguy (1990-1992) ⦁ Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica ⦁ Membro da American Society of Aesthetic Plastic Surgery

Referências:

  • Shoenfeld Y, Agmon-Levin N (2011) ‘ASIA’—autoimmune/inflammatory syndrome induced by adjuvants. J Autoimmun 36(1):4–8.
  • Meroni PL (2011) Autoimmune or auto-inflammatory syndrome induced by adjuvants (ASIA): old truths and a new syndrome? J Autoimmun 36(1):1–3.
  • Agmon-Levin N, Hughes GR, Shoenfeld Y (2012) The spectrum of ASIA: ‘autoimmune (auto-inflammatory) syndrome induced by Adjuvants’. Lupus 21(2):118–120.
  • Watad A, Quaresma M, Brown S, Cohen Tervaert JW, Rodriguez-Pint I, Cervera R, Perricone C, Shoenfeld Y (2017) Autoimmune/inflammatory syndrome induced by adjuvants (Shoenfeld’s syndrome)—an update. Lupus 26(7):675–681.
  • Agmon-Levin N, Arango MT, Kivity S, Katzav A, Gilburd B, Blank M, Tomer N, Volkov A, Barshack I, Chapman J, Shoenfeld Y (2014) Immunization with hepatitis B vaccine accelerates SLE-like disease in a murine model. J Autoimmun 54:21–32.

Um comentário

  1. Parabenizo e agradeco ARTIGO ESCLARECEDOR E PRECISO.

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