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Aspectos psicológicos do câncer no adulto jovem

Colunistas, Oncologia
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O diagnóstico de uma doença grave como o câncer, pode se constituir um evento traumático na vida da pessoa portadora, de seus familiares e parceiros (Soratto et al., 2016). As mudanças físicas e psíquicas assim como a ruptura de projetos/estilo de vida, causados pela doença ou tratamento, alteram a rotina habitual refletindo em perda de prazer e desesperança.

Apesar do potencial impacto do diagnóstico ser presente em qualquer faixa etária, recebê-lo em uma fase de grande atividade, no auge da interação social, busca por espaço profissional e vivência de uniões pessoais, interrompe não apenas o presente, mas altera rotinas, desejos e a própria expectativa de futuro.

A imposição da suspensão de planos em função de um tratamento imediato, escancara ao paciente sua condição de finitude e impotência, revelando diversas limitações enquanto ser humano, no manejo de crises imprevisíveis. Lidar com o diagnóstico e sua representatividade é potencialmente devastador em qualquer fase.

Entretanto, na vida adulta, a compreensão sobre os fatores limitantes da patologia e tratamento, conhecimento do estigma social e riscos envolvidos, aumentam o impacto emocional e existencial de sentir a interrupção prática das atividades de vida e planejamento futuro. Encarar essa realidade sem filtros, como autor de si mesmo, no auge da condição produtiva, pode agravar a sensação de impotência ocasionada pela doença, levando a condições psicopatológicas como transtornos de ajustamento.

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No diagnóstico inicial da neoplasia, o desafio é lidar com a ruptura emocional ocasionada frente à notícia, buscando reorganização interna para seguir. No geral, após a redução dos mecanismos de defesa, os principais recursos de enfrentamento utilizados são a racionalização – em que se procura conhecer sobre a doença, tratamento e prognóstico, buscando atitude mais coerente e realista; espiritualidade – focada em forças que estão além da condição humana, ou crescimento espiritual/amadurecimento, com foco no sentido que a doença terá na vida do indivíduo; e recursos de enfrentamento externos, como redes de apoio familiar e social.

Esse processo de reorganização coloca o indivíduo em xeque. Isso porque o adulto em idade produtiva costuma ter sua vida compartilhada com outras pessoas, por vezes, dependentes. Optar por uma luta longa que pode se configurar apenas em esperança remota, escancara a incerteza sobre temáticas como vida, doença, cura e morte, ativando medos e fantasias que comprometem o enfrentamento.

O segundo momento crucial é a crença na possibilidade do sucesso do plano terapêutico. Essa condição depende da assimilação adequada do próprio quadro clínico, estágio da doença, possibilidades de tratamento curativo ou paliativo e chances reais de sucesso.

O terceiro ponto envolve diretamente a funcionalidade e produtividade, que são dois motivadores da população adulta jovem, se constituindo como base para o desenvolvimento das atividades de vida que fazem parte da rotina destes pacientes, mas que ficarão em suspenso durante o período de vivência terapêutica.

Estar inserido na sociedade, em relações pessoais e no mercado de trabalho, são fatores presentes no mundo adulto. A interação diária com seus pares, criação de vínculos sociais, participação em atividades em grupo, a convivência com a demanda exaustiva da profissão, recorrentemente mencionados como potencialmente estressores, possuem por outro lado resultados diretamente ligados a própria condição de pertencimento, identificação e realização pessoal. Abdicar, ainda que temporariamente, de uma trajetória construída no decorrer de décadas, pode incorrer em sentimentos de perda do sentido da vida, sensação de dependência e inutilidade, impactando a subjetividade e autoestima do indivíduo.

Sé é difícil perder a autoidentificação, não obstante torna-se ansiogênica a perda de referenciação social e familiar. O ser humano, desde seu nascimento, precisa “pertencer”, participar, compartilhar, interagir. Sempre que isso lhe for tirado, a sensação de solidão e abandono serão inevitáveis.

A vivência ativa da sexualidade é outro aspecto essencial nessa faixa etária e parte da configuração de desenvolvimento humano, presente desde o nascimento até a morte. Em seu sentido mais amplo, envolve identificação afetiva, formas de relacionamento, trocas, formação de pares, capacidade física de sentir, dar e receber prazer sexual e afetivo. Em pacientes com câncer, a disfunção sexual é um problema relativamente comum. Frequentemente está associada à própria doença, ou ao tipo de tratamento utilizado, correlacionada com sintomas como fadiga, mudanças na imagem corporal, depressão, ansiedade, medo, angústia e isolamento e redução da autoestima.

De modo ainda mais específico, as mutilações decorrentes de alguns tratamentos oncológicos trazem repercussões emocionais importantes, danificando não somente a integridade física, como também alterando a imagem psíquica que indivíduo tem de si mesmo e de sua sexualidade. Esse evento é acompanhado de vivências extremamente dolorosas relacionadas a uma sensação de perda interna do próprio self, como Parkes (1998) salienta, alterando a relação que a paciente estabelece com seu corpo e sua mente.

O adulto, que tem padrões coletivos internalizados no decorrer da vida, tende a buscar tentativas de manutenção da autoimagem (que rapidamente é modificada pela doença), e também da imagem social construída, apresentando tendência ao isolamento e introspecção, restringindo convívio durante o período do tratamento. Em partes, isso se deve às alterações bruscas da autoimagem que tanto causam impacto na autoestima.

Por outro lado, existe também o “julgamento” social, no qual o indivíduo com câncer pode ser rotulado como incapaz, dependente, fadado à morte e ao sofrimento, sendo portanto, digno de sentimentos depreciadores como a pena. Entretanto, apesar da alta incidência de morbimortalidade, os tratamentos oncológicos estão cada vez mais avançados e eficientes, devolvendo à sociedade uma parcela de pessoas vitoriosas na luta contra a doença, que necessitarão de reinserção na comunidade.

As mudanças de papéis familiares e sociais assumidas do decorrer do tratamento, provocam alterações na percepção de si, e, ao mesmo tempo, após o término, o indivíduo se depara com ausência de identificação com seu “eu” anterior, ficando em suspenso enquanto ser-no-mundo, necessitando assim de novas referenciações. Buscar a ressignificação da doença e se adequar às mudanças estabelecidas exige capacidade de resiliência e readaptação às rotinas e papéis com seus pares.

Do mesmo modo, lidar com as sequelas físicas deixadas pelo câncer e/ou pelo tratamento impõe à realidade diária do paciente a incerteza de cura total e chances de recidiva. Mesmo com o bom resultado inicial, a pessoa, apesar de voltar a gozar de boa saúde, passa por uma fase de recuperação e por longos períodos de medo, sentindo-se vulnerável com a possibilidade do retorno da doença. É importante demarcar que, ao saber do resultado efetivo do tratamento, a percepção da cura não ocorre de modo instantâneo, pois inicia-se uma fase longa de manutenção, em que existe alívio quanto ao risco iminente, mas mantém-se o risco potencial de recidiva.

Outro fator essencial é compreender que durante a fase de convivência com a doença e seus riscos potenciais, o modo de enxergar a vida pode passar por modificações significativas e, por vezes, apesar do desejo de retornar às atividades anteriores, o paciente pode não se identificar mais com o papel social, familiar e laboral que ocupava antes, passando a levantar outras prioridades que se enquadrem melhor com seu presente.

Em contrapartida, a dificuldade de retorno às rotinas se dá por receio de falhar, de voltar a ser surpreendido por novas patologias, de não ter forças, capacidade ou disposição, enfrentando dilemas intensos na saída do papel de doente/passivo para reassumir a autonomia de sua própria vida.

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Autor:

Referências:

  • Angerami-Camon, VA, Gaspar, KC. Psicologia e câncer. São Paulo: Casa do psicólogo, 2013, 544p.
  • KÜBLER-ROSS, E. Sobre a Morte e o Morrer: o que os Doentes Terminais Têm para Ensinar a Médicos, Enfermeiras, Religiosos e aos seus Próprios Parentes. Trad. Paulo Menezes. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
  • PARKES, C. M. Luto: Estudos Sobre a Perda na Vida Adulta. Trad. Maria Helena Franco Bromberg. São Paulo: Summus, 1998.
  • Soratto, M. T; Silva, D. M; Sugno, P. I & Daniel, R. Espiritualidade e resiliência em pacientes oncológico. Revista Saúde e Pesquisa, v. 9, n. 1, p. 53-63, jan./abr. 2016.

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