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Cigarros eletrônicos: o que está causando a misteriosa doença pulmonar?

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Nicotina? THC? Vitamina E? Solventes? Dezoito já morreram nos EUA por patologia pulmonar suspeita de estar relacionada ao uso dos chamados vapes (vaporizadores), mas as respostas ainda não são concretas.

Cigarros eletrônicos

O uso de cigarros eletrônicos – também chamados de vapes ou e-cigarettes – e outros vaporizadores virou moda nos Estados Unidos, onde há anos já são comercializados. No Brasil, apesar da venda desse tipo de produto ser proibida desde 2009, o vaping – como o ato é conhecido por gerar fumaça com vaporização ao invés da combustão – também tem se tornado cada vez mais comum. Muitos consumidores buscam nos vapes uma ferramenta auxiliar para cessar a dependência ao cigarro comum. Outros o preferem pelas diferentes possibilidades de uso, como a adição de essências diversas que prometem personalizar a experiência de quem consome nicotina ou THC (o principal canabinoide responsável pelo “barato” da maconha). Mas até onde essa salada de sabores e compostos não está causando um sério mal às pessoas?

Muitos são usuários de vaporizadores há muitos anos e permanecem saudáveis. Contudo, recentemente os usuários de vaporizadores, a comunidade científica e o público em geral foram surpreendidos pela notícia de uma doença pulmonar aguda misteriosa. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) associa o uso de cigarros eletrônicos ao aparecimento de um tipo de injúria pulmonar de causa ainda pouco esclarecida, mas que já é suspeita de ter acometido mais de mil jovens americanos e já ter causado 18 mortes em 15 estados diferentes. O quadro clínico se assemelha ao de uma pneumonia: dispneia possivelmente associada a febre, tosse, vômitos, cefaleia, dor torácica.

Veja também: Vape: o cigarro eletrônico é tão nocivo quanto o comum?

Devido ao surto, foi criada uma espécie de força-tarefa para investigar as causas e elucidar as suspeitas. Há um verdadeiro rebuliço acerca desse assunto na terra do Tio Sam; por lá, o presidente Donald Trump já propõe a proibição da venda de cápsulas com sabores. Você deve estar se perguntando: “ora, se os cigarros eletrônicos já são amplamente consumidos nos Estados Unidos há mais de 10 anos, por que o conhecimento, só agora, de um problema como esse? E qual o papel do THC e da maconha nisso?”

Muitas perguntas, poucas respostas

Todas essas perguntas também intrigam os profissionais de saúde pública de todo o mundo. Buscando respondê-las, tenta-se descobrir se há alguma substância recentemente inserida no processo de fabricação dos produtos, se algumas pessoas reutilizaram cartuchos contendo contaminantes ou mesmo se o risco decorre do uso intenso de nicotina, óleo de THC ou de uma combinação entre ambos (nicotina e THC). No entanto, o que se sabe até agora é que as nossas principais dúvidas ainda não podem ser sanadas pelos órgãos responsáveis pelas investigações nos Estados Unidos.

De um modo geral, os cigarros eletrônicos são considerados menos prejudiciais que os tradicionais, que permitem a combustão e inalação de milhares de produtos químicos e são sabidamente responsáveis por diversas morbidades.

Mas os vapes têm seus próprios problemas: para um funcionamento eficaz, a nicotina ou o THC são diluídos em solventes ou óleos, formando uma mistura, que também pode conter outras substâncias como álcool, água, glicerina, propilenoglicol e essências químicas para alterar o seu sabor. Os solventes ou óleos aquecem durante a aerossolização para se tornar vapor. Porém, após o resfriamento do líquido, podem sobrar resíduos e algumas gotas de óleo. Em consonância, há indícios de ocorrência de casos de pneumonia lipoide relacionada ao vaping, sendo esse um dos principais aspectos considerados nos estudos sobre essa nova doença. Outros fatores também merecem destaque no processo de investigação:

Mais do autor: Sistema endocanabinoide e o uso medicinal da cannabis

Venda ilegal: Apesar da venda de cigarros eletrônicos com nicotina e derivados da cannabis ser permitida na maioria dos estados norte-americanos, o comércio clandestino não é incomum. Ao contrário do mercado formal – no qual há testagens laboratoriais em diversas etapas do processo produtivo –, no mercado negro não há controle dos componentes contidos nos produtos. “Provavelmente é algo novo que foi introduzido por um fabricante ilegal”, disse Scott Gottlieb, ex-comissário da Food and Drug Administration (FDA). Muitos dos doentes relataram ter adquirido equipamentos ou cartuchos informalmente, o que levanta suspeitas de que tenham entrado em contato com produtos adulterados na ilegalidade. Dados do CDC mostram que é possível que a adulteração tenha se concentrado em produtos usados para inalação de THC.

Acetato de vitamina E: Este é um componente da vitamina E, em forma de óleo, que não é autorizado em produtos à base de maconha ou nicotina; normalmente é utilizado em cremes para a pele e suplementos. O acetato de vitamina E se tornou um dos potenciais vilões após autoridades de saúde do estado de Nova York terem analisado dezenas de cigarros eletrônicos dos doentes, originados do mercado negro e que continham níveis elevados dessa substância. A FDA revelou que o acetato de vitamina E foi encontrado na maioria das amostras com THC testadas em seus laboratórios. É possível que várias das doenças registradas tenham relação com produtos contendo essa substância. No entanto não foi encontrada nenhuma ligação robusta entre os casos registrados e componentes dos cigarros eletrônicos.

Nicotina x THC: O CDC informa que muitos dos pacientes relataram uso de cigarros eletrônicos contendo canabinoides (principalmente o THC) ou uso combinado de THC e nicotina; outros também relataram apenas uso de produtos com nicotina. Entretanto os especialistas ponderam que alguns usuários podem não querer admitir o uso de derivados da maconha.

“Criatividade” dos usuários: Outro ponto é o fato de que muitos usuários alteram, por conta própria, o conteúdo dos cartuchos. Alguns inclusive consomem óleos que não foram feitos para serem vaporizados. Dessa maneira, também se levanta a hipótese de que os próprios consumidores possam estar contribuindo com o surgimento dessa grave doença.

Uso prolongado e componentes dos equipamentos: Ainda não se sabe ao certo quais os reais impactos na saúde pública com uso prolongado de cigarros eletrônicos. Apesar de conterem menos substâncias tóxicas que os cigarros tradicionais, é preciso considerar que os e-cigarettes muitas vezes possuem metais e partículas ultrafinas em sua composição, que também podem ter papel no adoecimento das pessoas.

“Intriga da oposição”: Os fabricantes dos vapes têm se apegado ao argumento da venda ilegal; eles procuram isentar a responsabilidade da indústria e reiteram que a culpa está nas adulterações do mercado negro. Todavia, chegam a fazer uma acusação curiosa, a de que “ativistas” estariam praticando sabotagem, com interesse em resgatar fumantes para o uso do cigarro tradicional. “Se você é um fumante ou ex-fumante adulto que fuma cigarros eletrônicos com produtos de nicotina vendidos em lojas, não dê ouvidos a ativistas que preferem que você fume fumaça mortal do que equipamento eletrônico”, disse um representante da American Vaping Association.

Dados do CDC

Muito recentemente, o CDC dos Estados Unidos publicou um artigo que faz esclarecimentos preliminares acerca das características do surto de injúria pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos. A publicação mostrou que 805 casos já haviam sido reportados até o dia 24/09/2019. Dentre os casos, 69% eram homens e 62% dos pacientes tinham entre 18 e 34 anos. Com relação ao perfil de consumo, 76,9% relataram uso de produtos contendo THC e 56,8% informaram uso de produtos contendo nicotina – 36% disseram fazer uso apenas de produtos com THC, enquanto 16% reportaram uso exclusivo de produtos à base de nicotina.

O CDC também mantém em seu site uma seção dedicada a prestar informações sobre o surto, que é atualizada na medida em que novas informações vão surgindo. Até a atualização do dia 03/10/2019 o órgão já havia contabilizado 1.080 casos de lesão pulmonar associada ao vaping, incluindo 18 mortes confirmadas. Para que um caso seja enquadrado no levantamento do CDC é preciso satisfazer quatro critérios:

  1. História de uso de cigarro eletrônico nos 90 dias que antecederam o início dos sintomas;
  2. Estudos de imagem mostrando lesão pulmonar;
  3. Ausência de evidência de infecção (casos confirmados) ou infecção não considerada a única causa de lesão pulmonar ou teste de doença infecciosa não realizado (casos prováveis);
  4. Ausência de diagnósticos plausíveis alternativos.

Também há no site da entidade um compilado de informações dedicado aos profissionais de saúde. É possível consultar considerações diversas sobre o tema e orientações clínicas para se saber quando suspeitar e como conduzir casos suspeitos, além de links para diversos artigos e outras fontes de informação.

E aí, qual o seu pitaco sobre o assunto? Você acha que o comércio de cigarros eletrônicos – que por meio da venda ilegal vêm sendo cada vez mais usados em nosso país – deve ser regulamentado no Brasil? A regulamentação aumenta ou diminui os riscos para as pessoas? Deixe a sua opinião nos comentários!

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