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homem fumando um cigarro eletrônico, vape

Vape: o cigarro eletrônico é tão nocivo quanto o comum?

Tempo de leitura: 4 minutos.

cigarro eletrônico, também chamado vape (abreviação de “vaporizador”), voltou à discussão recentemente devido alguns casos de morte pelo uso do mesmo nos Estados Unidos. No Brasil, a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp) já fez um alerta de que os vapes não devem ser utilizados nem como terapia antitabagismo.

Esse tipo de cigarro está proibido de ser comercializado no país pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009. No entanto, eles continuam sendo vendidos em lojas online e físicas.

Apesar de ser considerado menos nocivo que o cigarro tradicional, ainda não se sabe ao certo quais os reais riscos do vape, inclusive com relação à incidência de câncer, o que vem gerando debates entre oncologistas de todo o mundo.

A International Agency for Research on Cancer (IARC) já identificou que há substâncias cancerígenas do grupo um em sua classificação. Na opinião de Clarissa Mathias, oncologista do Grupo Oncoclínicas, a chegada do cigarro eletrônico deve ser um ponto de alerta para a sociedade, principalmente os pais.

“Estamos vemos novas formas de tabagismo chegando, como esse dispositivo tecnológico, que tem atraído principalmente os adolescentes, pelo formato, novidade e falta de informação também sobre o impacto nocivo deles. Então, estamos vendo uma geração que tinha largado o cigarro voltar para versões mais modernas, do mesmo mal”, afirma a especialista.

Vape: mortes nos Estados Unidos aquecem o debate

“Há algumas semanas foi confirmada a primeira morte relacionada ao cigarro eletrônico, nos Estados Unidos, por conta de problemas pulmonares graves em um rapaz. Existem metais pesados na sua composição, como níquel, cádmio e chumbo. Normalmente, você não leva uma pilha na boca, né? No caso do vape, é isso: você está colocando uma bateria na sua boca. E a gente não sabe qual é o resultado também do líquido no organismo”, adverte o cardiologista Márcio Gonçalves de Sousa, membro da Socesp e especialista em tratamento de tabagismo.

Até o fechamento desta matéria, as autoridades de saúde americanas já haviam identificado quatro óbitos ligados ao uso de cigarros eletrônicos. Um quinto caso ainda é investigado, mas não foi confirmado. A doença que causa a morte ainda não foi identificada. De acordo com o The Washington Post, há 450 pessoas que potencialmente sofrem da mesma patologia no país.

Veja também: Intervenções comportamentais funcionam para cessar o tabagismo?

Composição do cigarro eletrônico e riscos

Mesmo as opções vendidas como sendo menos prejudiciais, como aquelas sem nicotina, não devem ser consumidas. Uma pesquisa realizada pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC), nos Estados Unidos, em 2015, mostrou que o vapor gerado pelo aparelho também pode causar inflamações pulmonares. Substâncias como a acroleína, presente neste tipo de vape, são danosas às moléculas que mantêm as células endoteliais unidas.

O chamado e-cigarro é composto, normalmente, por uma lâmpada de LED, bateria, microprocessador, sensor, atomizador e cartucho de nicotina líquida. Esta última é aquecida por uma pequena resistência, fazendo com que se torne vapor. “Existe uma falsa sensação de segurança conferida ao fumante, conforme documento elaborado pela Anvisa, em 2017. Por isso, é muito importante restringir esse tipo de aparelho”, enfatiza Márcio de Sousa.

O tabaco também agride o endotélio, tornando as artérias mais suscetíveis à formação de placas ateroscleróticas. “O cigarro ainda acelera a oxidação do colesterol e, em associação à pílula anticoncepcional, pode aumentar o risco de acidente vascular cerebral (AVC) em mulheres. Nenhuma quantidade é segura. Apenas um já pode causar diversos malefícios à saúde”, destaca o cardiologista.

O cigarro eletrônico não possui combustão nem alcatrão, mas o vapor d’água leva metais pesados ao organismo, aos quais não se sabe, com certeza, quais serão as consequências ao longo dos anos de uso.

Vape: variedade de tipos atrai os consumidores

Hoje já existem mais de 8 mil cigarros eletrônicos no mercado, com várias gerações. “A primeira parecia um cigarro mesmo. A segunda, um cartucho recarregável. Agora estamos na era dos e-liquids. Compra-se o líquido separado, que parece um colírio. Existe o aquecido, que está entrando no mercado, e que, embora falem que não há combustão, existem estudos que mostram que existe sim, e o cartucho, que é o que parece um pen drive’, esclarece Márcio de Sousa.

Nos cigarros normais, demora-se, em média, 15 segundos para fazer o efeito da nicotina. Já no vape, a indústria simula o pico da principal substância do cigarro, acrescentando amônia para aumentar a rapidez da entrega da sensação do prazer.

Números atuais

O Relatório da Convenção para o Controle do Tabaco, da Organização Mundial da Saúde (OMS), pede para que os 181 países participantes proíbam dispositivos eletrônicos para fumar. E uma das estratégias da indústria para driblar as restrições e atrair jovens é colocar sabores no aparelho.

Estima-se que 90% dos fumantes iniciaram a prática antes dos 19 anos e o vape pode ser um atrativo sedutor aos adolescentes, induzindo a um novo vício. Embora o Brasil tenha se tornado a segunda nação do mundo a adotar todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o combate ao tabagismo, a dependência ainda mata cerca de 430 pessoas por dia, conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Se o hábito de fumar fosse abolido, mais de 156 mil vidas seriam poupadas anualmente no país.

Combate ao tabagismo

Tratar de forma medicamentosa os fumantes, com acompanhamento médico, é uma das maneiras mais eficazes para o abandono do vício. Além disso, a adoção de leis que dificultem o consumo do tabaco é outro modo de melhorar os índices de saúde brasileiros.

“Os médicos não devem recomendar o uso dos cigarros eletrônicos como tratamento para amenizar os efeitos da nicotina. Existem pesquisas que mostram que o cigarro eletrônico pode aumentar também as chances de uma pessoa sofrer acidente vascular encefálico. Portanto, é melhor trabalhar com a teoria da precaução: não existem dados que comprovem a eficácia e a segurança. A Anvisa está certa em proibir a comercialização dos cigarros eletrônicos no país”, defende o cardiologista da Socesp.

 *Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

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Referências bibliográficas:

Um comentário

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    Não acredito que proibição seja o melhor caminho pois os jovens apenas adquirem pela internet ou de forma clandestina. Devíamos regular o comércio da substância e realizar estudos metodológicos científicos para descobrir seus efeitos em nossa população.

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