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Como evitar ter burnout atuando na linha de frente da pandemia de Covid-19? [podcast]

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Um estudo recente realizado pela PEBMED mostrou um aumento de síndrome de burnout em médicos que estão atuando ou atuaram na linha de frente da pandemia de Covid-19. Segundo os resultados, a prevalência do burnout é de 83% nos médicos que estão na linha de frente, e 71% naqueles que não estão atuando no combate ao novo coronavírus.

Para falar um pouco da pesquisa e também de como os profissionais de saúde podem reduzir a exaustão que leva ao burnout, nossa editora de Clínica Médica, Dayanna Quintanilha, conversou com o médico Eduardo Moura, cofundador da PEBMED e pesquisador que realizou o estudo, e com a psiquiatra Paula Hartmann. Confira no áudio:

Leia mais sobre o estudo: Prevalência de burnout é maior em médicos que atuam na linha de frente da Covid-19

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Confira a transcrição do podcast sobre burnout na Covid-19

Dayanna Quintanilha: Olá, pessoal. Sejam muito bem-vindos ao podcast da PEBMED. Eu sou Dayana Quintanilha, sou especialista em clínica médica e editora do Portal. Hoje falaremos sobre o burnout em profissionais de saúde. A pandemia de Covid-19, além de diversas outras consequências, tem contribuído para um aumento da síndrome do burnout nos profissionais de saúde. Segundo um estudo realizado pela PEBMED, a prevalência de burnout é de 83% nos médicos que estão na linha de frente e 71% naqueles que não estão atuando no combate ao novo corona vírus. No podcast de hoje, falaremos sobre o nosso estudo e convidaremos a psiquiatra Paula Hartmann para nos ajudar a entender os resultados e apontar caminhos sobre como vencer o burnout. Vamos começar entrevistando o Eduardo Moura, médico especialista de conteúdo e cofundador da PEBMED. Ele foi um dos pesquisadores que participou do estudo da PEBMED e está aqui para conversar um pouquinho mais sobre como foi conduzido o nosso estudo. Eduardo, seja muito bem-vindo ao nosso podcast.

Eduardo Moura: Obrigado, Dayana. É um prazer imenso estar aqui no podcast da PEBMED e poder falar de um estudo que é tão importante para a comunidade médica brasileira.

Dayanna Quintanilha: Eu queria começar dizendo também que eu estou muito feliz de receber o Eduardo aqui. O Eduardo é um grande exemplo, uma grande inspiração para a nossa geração de jovens médicos, tem feito um trabalho fantástico na PEBMED, é um médico fantástico. Então, é uma honra enorme você estar conversando aqui conosco, Edu. Vou começar fazendo uma pergunta mais relacionada à sua rotina de trabalho. Sabemos que você fez uma transição entre trabalhar no ambiente hospitalar e trabalhar no ambiente empresarial. Você notou alguma diferença nessas esferas em termos de pressão e estresse?

Eduardo Moura: Então, Dayana, essa é uma excelente pergunta. Eu diria apenas que a pressão e o estresse só mudam de endereço. Temos agentes estressores em ambas as situações profissionais. Eu acho que o que principalmente difere é o contexto da crise. Enquanto no meio empresarial uma crise financeira ou um desempenho da empresa abaixo do que o mercado esperava causa igualmente estresse e pressão sobre o profissional, quando transferimos isso para a área da saúde, a crise só é outra. A crise em questão, no nosso contexto atual, é a pandemia. O médico normalmente já está submetido à um contexto de responsabilidade sobre a vida do paciente, um contexto de alta demanda, de urgência em performar, vidas dependem do desempenho dele. Diante das condições extremas da pandemia, isso só se intensifica.

Dayanna Quintanilha: E o que é que motivou a PEBMED a elaborar um estudo especificamente sobre burnout?

Eduardo Moura: Então, Dayana, a PEBMED está do lado do profissional de saúde diante das suas dificuldades de atuação no dia a dia. Entendemos que, nesse contexto da pandemia, podemos ajudar o profissional de saúde a ser ouvido, a ter as suas reais necessidades atendidas. Por isso que decidimos levar esse tema adiante e entender como é que é a real situação do burnout entre profissionais de saúde no Brasil.

Dayanna Quintanilha: E como é que esse estudo foi elaborado?

Eduardo Moura: Elaboramos questionário com escala validada do ponto de vista científico para medir o burnout através da escala OLBI e medir outros fatores que podem estar associados ao burnout. Esse questionário foi enviado por e-mail para profissionais de saúde cadastrados na plataforma da PEBMED e obtivemos 3.613 respostas, das quais 2.932 foram de médicos, 457 de enfermeiras e 224 de técnicos de enfermagem. Após a coleta das respostas, realizamos uma série de análises estatísticas que demonstraram os resultados que discutimos aqui.

Dayanna Quintanilha: Nossa, realmente foi um N muito grande, 3.613 respostas é um N significativo. Eu queria saber, dentro dessas respostas que obtivemos, se os resultados estavam dentro do que era esperado ou alguma coisa chamou mais a atenção?

Eduardo Moura: Perfeito, Dayana. Primeiramente, se mostrou muito alarmante a prevalência de burnout entre médicos brasileiros na nossa pesquisa. 83% dos médicos que se consideram estar na linha de frente apresentaram diagnóstico de burnout, comprovado pela escala, enquanto 71% dos médicos que estão fora da linha da frente também poderiam ser diagnosticados com burnout pela resposta deles no questionário. Esse aumento na prevalência de burnout é estatisticamente significativo. Ou seja, isso revela o efeito que a pandemia teve em de fato a aumentar a incidência de burnout entre profissionais da saúde. Outro ponto de atenção é que o burnout na nossa pesquisa se correlacionou com uma maior carga de trabalho por parte do profissional por piores condições de trabalho em termos de insumos, por exemplo, disponibilidade de direitos, respiradores, disponibilidade de profissionais, EPIs, que reflete a realidade dos hospitais públicos brasileiros. Também foi possível inferir que fatores comportamentais, ou mesmo receios do médico, contribuem com um maior risco de desenvolver burnout. Como, por exemplo, o medo em contaminar familiares.

Dayanna Quintanilha: Muito bom, Eduardo. Os dados que você comentou aqui agora realmente refletem muito o que eu tenho visto na minha rotina, no meu trabalho em terapia intensiva durante a pandemia. Muita coisa me fez lembrar do meu dia a dia. Eu queria te agradecer muito pela sua participação no nosso podcast e por fazer uma pesquisa com um tema de tamanha relevância para a nossa rotina, para o nosso trabalho como médico, como enfermeiro, como profissional da saúde hoje.

Eduardo Moura: Bom, Dayana, muito obrigado pelo convite. Foi uma honra estar aqui no podcast da PEBMED e poder compartilhar essas informações com a comunidade médica. Fico a disposição para novas participações. Muito obrigado.

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Dayanna Quintanilha: Vamos convidar agora a doutora Paula Hartmann para conversarmos a respeito de burnout em profissionais de saúde. Ela vai nos trazer suas experiências diárias de consultório e vai, com certeza, ajudar muito na nossa discussão. Paula, se apresente para nós. Seja bem-vinda.

Paula Hartmann: Olá, tudo bem com vocês todos? Eu espero que sim. É um prazer estar aqui fazendo esse podcast. O meu nome é Paula Benevenuto Hartmann, eu sou médica forma pela Universidade Federal Fluminense com residência em psiquiatria também pela UFF. No momento eu estou morando em Portugal, faz pouco tempo, e vou iniciar o mestrado em psiquiatria em saúde mental na Universidade do Porto agora no próximo semestre.

Dayanna Quintanilha: Muito interessante, Paula. Muito legal a sua trajetória. Eu queria te fazer uma pergunta relacionada à nossa pesquisa, com relação aos dados que encontramos. Você faz alguma associação com o que nós já temos na literatura?

Paula Hartmann: Então, alguns artigos já destacaram, ao longo das últimas décadas, que a produção da literatura sobre burnout vem aumentando. Isso pode refletir tanto um maior interesse pelo assunto, e o momento da demanda. Agora, de uma forma específica relacionada à pandemia pelo SARS-CoV-2, nós ainda não temos muita coisa publicada, estamos vendo as coisas acontecerem em tempo real. Muito do material que foi produzido foi feito em outros países, como a China, e nós não sabemos até que ponto nós podemos extrapolar esses resultados para a realidade brasileira por questões referentes tanto ao funcionamento do sistema de saúde de cada país, como a possíveis diferenças socioculturais. Contudo, um estudo brasileiro até bastante recente contou algumas das características que já foram discutidas, como longa jornada de trabalho, problemas de infraestrutura, a questão da disponibilidade dos Equipamentos de Proteção Individual – os EPIs, – o fato de alguns médicos não se sentirem bem preparados para esse tipo de atendimento, o medo de ficarem doentes ou de contaminarem os seus familiares – o que leva, também, ao isolamento – dentre uma série de outros fatores. Nesse trabalho, eles citam que, durante a pandemia de 2003 – que também foi pela SARS, foi uma outra forma de coronavírus – um número entre 18 e 57% dos profissionais de saúde apresentou sintomas psiquiátricos ou problemas emocionais, sendo um deles o burnout, apesar de que o burnout não é o único problema que pode estar envolvido nessas situações.

Dayanna Quintanilha: Entendi, entendi. Bem interessante os dados que você trouxe, Paula. Com relação à sua rotina de consultório, você tem visto que nesse período, ou então antes, isso já acontecia? Você recebe ou costuma receber profissionais de saúde no consultório com queixas de burnout? Você acha que de fato o cuidador pede ajuda?

Paula Hartmann: Então, apesar de eu já ter revalidado o diploma médico em Portugal, eu ainda não estou fazendo atendimentos por aqui por uma série de questões burocráticas; mas algumas pessoas têm, sim, entrado em contato pedindo indicações de profissionais em saúde mental para elas começarem uma avaliação, um tratamento.

Dayanna Quintanilha: Entendi. Quando a pessoa chega no consultório, como é que costuma ser feito o diagnóstico na prática? Tem alguma escala, alguma forma de fechar esse diagnóstico?

Paula Hartmann: Olha, não é um diagnóstico tão simples. Nós temos que excluir outros diagnósticos diferenciais, como os transtornos relacionados ao estresse, como o transtorno de estresse pós-traumático, o transtorno do ajustamento, os transtornos ansiosos e os transtornos do humor, e aí temos que destacar um pouco o transtorno depressivo maior. Por quê? Porque há uma grande discussão sobre o transtorno depressivo maior e o burnout. Há quem considere que os sintomas desses dois quadros se sobrepõem e é possível que muitos pacientes com transtorno depressivo acabem sendo diagnosticados com burnout. Há uma série de razões para isso, dentre elas o estigma social das doenças mentais e porque nós tendemos a atribuir o burnout à uma coisa que nos é externa, enquanto a depressão, não, ela é um fenômeno interno. Mas se esse diagnóstico diferencial não for bem feito, isso pode comprometer tanto a abordagem como o prognóstico. Alguns colegas criticam um pouco a fluidez dos critérios diagnósticos de burnout, mas, de acordo com a CID-11, o burnout é uma forma de estresse crônico no ambiente de trabalho e que não está sendo manejado com sucesso. Ele se caracteriza por três dimensões: a primeira é exaustão ou a depleção de energia; a segunda é o distanciamento mental do trabalho ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho; e a terceira é a diminuição da eficácia profissional. Alguns autores colocam nessa terceira dimensão também a baixa realização profissional. Alguns trabalhos já criticaram eventuais variações, definições, nesses domínios e é por isso que eu tento trazer aqui a definição da CID-11, porque em alguns estudos as definições podem ser um pouquinho diferentes. Esse é um fenômeno no contexto ocupacional que não deve ser usado para descrever experiências em outras áreas da vida. Existem algumas escalas que podem ajudar, sim, mas temos que ter em mente que o diagnóstico é clínico e os critérios da CID ajudam-nos a direcionar um pouco essa entrevista.

Dayanna Quintanilha: Então, Paula, muito interessante isso que você falou da diferenciação de depressão com burnout, porque para nós, que não somos tanto da área de saúde mental, fica difícil de fazer essa diferenciação, mas foi bom você ter ressaltado a relação do burnout com o contexto ocupacional, isso talvez nos ajude a direcionar um pouco mais. Eu queria saber quais seriam os principais sinais do burnout e quando que a pessoa deveria de fato procurar a ajuda de um profissional, quando que seria esse momento – “olha, agora eu preciso procurar um psiquiatra, um médico para me ajudar.”

Paula Hartmann: Tá. Então eu vou falar um pouquinho mais sobre esses domínios que eu já citei antes para as pessoas poderem entender um pouco quais são os sintomas que indicam que elas precisam procurar uma ajuda. Primeiro, a exaustão emocional. Essa nós observamos quando há excesso de trabalho, uma tensão excessiva, ou a sensação de que não há mais nada a ser feito. Em algumas pessoas, isso pode levar a uma incapacidade de demostrar e de sentir compaixão. No segundo domínio, nós temos o cinismo, que se refere a uma indiferença, o profissional se torna mais insensível ao outro, ao sofrimento do outro. Há uma indiferença, um distanciamento do trabalho e uma relação de desapego na relação com o paciente. No terceiro e último domínio, a eficácia no trabalho ou a baixa realização pessoal, o profissional pode ter a sensação de ser incompetente ou ineficiente. Ele pode ter a impressão de que perdeu o controle ou a satisfação com a profissão e se sentir incapaz de realizar as suas tarefas. Além disso, alguns sintomas somáticos também podem estar presentes. Nesse caso, recomendamos que quem se identifique com esses sintomas procure ajuda profissional para que possamos avaliar os diagnósticos diferenciais – sintomas somáticos também podem estar presentes em quadros depressivos, por exemplo – e a presença de comorbidades, e aí teremos toda uma abordagem voltada para a psicoeducação e voltada para a individualidade de cada caso.

Dayanna Quintanilha: Entendi. Qual seria, na questão terapêutica… Você já citou algumas coisas, a questão da psicoeducação… A abordagem terapêutica em questões medicamentosas e de tratamento em geral. O que é que você pode compartilhar com a gente?

Paula Hartmann: Tá. Então, primeiro, eu vou falar sobre a atual situação da pandemia pelo Sars-Cov-2. Nós deveríamos tratar de alguns dos fatores que já conversamos antes. Os profissionais da linha de frente deveriam passar por uma monitoração da saúde mental, deveriam ser avaliados sobre a presença de fatores de risco que contribuam para o surgimento de um transtorno mental, eles devem ter boas condições de trabalho e acesso à equipamentos de proteção e treinamento para usá-los. Deve-se também estimular uma boa comunicação entre a equipe de profissionais que está trabalhando naquele momento, por exemplo, os médicos com os enfermeiros com o chefe da equipe e é importante que haja canais de comunicação e encaminhamento para o atendimento de saúde mental desses profissionais. Isso, hoje em dia, pode ser facilitado com acesso aos serviços telefônicos e de internet com a telemedicina. Além do atendimento… Isso torna possível realizar o que já falamos de psicoeducação, mas também orientar sobre a presença de alguns sintomas; mas isso é nesse momento de pandemia. A forma de lidar com o burnout… Geralmente nós pensamos em duas esferas diferentes: uma relativa às organizações, que são os hospitais, as redes de saúde; e outra em nível pessoal. Em termos de saúde pública, nós temos que pensar em hospitais, em esferas municipais, estaduais, federais. É necessário que esses órgãos, que essas competências reconheçam que esse problema existe e o impacto disso sobre os profissionais de saúde e sobre o atendimento que eles prestam nessas circunstâncias. É interessante também estar aberto para acolher esses profissionais e tratá-los de uma maneira positiva, ao invés de puni-los, o que acontece com frequência; e devem ser discutidas questões como metas, distribuições de função, escala de trabalho, esse tipo de coisa. Do ponto de vista pessoal, há dois desafios. Em primeiro lugar, o profissional de saúde tem que reconhecer que tem algo acontecendo com ele; em segundo lugar, ele tem que querer solucionar o problema e, para isso, é necessário trabalhar a resiliência. O que é que é resiliência? É a capacidade de se recuperar ou de se adaptar a uma situação. Temos também que criar estratégias de bem estar, como incluir alguma forma de atividade física na sua rotina, por exemplo, trabalhar seu engajamento profissional, tentar se lembrar do porquê que você escolheu fazer medicina, como você se sentia quando fazia estágios, quando você estava entendendo essa profissão. E dois pontos que nesse momento são desafiadores, que é equilibrar a vida pessoal e profissional, o que é necessário nesse momento e por causa da pandemia isso pode ser mais complicado, e direcionar sua carreira de forma a evitar certos estressores; ou seja, escolher, por exemplo, se você quer seguir carreira acadêmica, se você quer trabalho no hospital, se você prefere ambulatório. Então tentar focar a sua carreira naquele ambiente onde você se sente melhor.

Dayanna Quintanilha: Muito interessante. De fato, essa questão da abordagem terapêutica é importante. Tudo o que você falou agora no final mostra um pouco de como que a atitude do profissional também é importante no tratamento. Eu queria saber se você tem para nós algumas outras estratégias que possam ser preventivas, de modo que nós não desenvolvamos o burnout.

Paula Hartmann: Sim, existem algumas sugestões que tentam diminuir um pouco, quando for possível, essa carga de trabalho. Como eu já falei, a otimização de escalas… E, além disso, existem algumas técnicas, como por exemplo a técnica de mindfulness, ou técnicas de mentalização, que são aquelas técnicas que usamos para que a pessoa se conecte com o momento presente e perceba os seus pensamentos e sentimentos nesse momento – se ela está com fome, se ela está com dor, se ela está com sono. Então ela entra em contato com isso e ela toma uma consciência do que está acontecendo com ela. Também temos a opção de técnicas respiratórias, que podem ser eficazes, e aí eu vou dar um exemplo: você pode, por exemplo, inspirar contando até cinco, prender o ar por alguns segundos e expirar contando até cinco. Isso pode ser feito algumas vezes em alguns ciclos respiratórios. Outra estratégia é tentar tirar um momento para dar nome ao seu sentimento, ao que você está sentindo naquele momento: eu estou cansado, ansioso, eu estou preocupado. Outra coisa, que pode parecer uma brincadeira, mas que parece que vem se mostrando eficaz é a simples prática de você escrever três coisas pela qual você é grato e fazer isso com uma certa frequência, por exemplo, algumas vezes na semana. Isso foi citado em artigos científicos e parece ter alguma melhora. Outra coisa é dividir os seus medos e experiências com os seus colegas de trabalho e seus amigos. Quando você faz isso, principalmente com a equipe com quem você trabalha, você consegue perceber que você não está sozinho, que eles estão nesse processo junto e vocês conseguem dividir experiências. Claro que a prática de algumas dessas técnicas não impedem você de desenvolver um transtorno mental, mas são pequenas atitudes baseadas em evidência que podem melhorar um pouco o que carregamos quando estamos nesses momentos de tensão. Quando o quadro já está instalado, quando já existem os sintomas, o ideal é procurar um profissional de saúde mental para passar por uma avaliação melhor.

Dayanna Quintanilha: Eu achei muito interessante as técnicas que você compartilhou conosco, Paula, porque mostram a importância de nos percebermos, de olharmos para a nossa rotina, de pensarmos sobre isso. Às vezes eu tenho a sensação de que nós vamos sendo encaminhados, vamos vivendo e às vezes vira uma bola de neve, tantas pressões, tantos problemas, tantas situações no trabalho e paramos muito pouco para pensar sobre isso, para compartilhar o que está acontecendo. Então eu achei muito relevantes as técnicas que você trouxe para nós, para que nos percebamos um pouco mais. Eu sei que tem muita gente que está nos ouvindo agora nesse podcast e tem muitos profissionais da saúde que estão trabalhando na linha de frente nos ouvindo e que podem estar apresentando alguns sintomas de burnout. Eu queria saber se você tem alguma mensagem para essas pessoas – não só para os que já estão com sintomas, mas para todo mundo que está ouvindo que possa precisar de alguma abordagem preventiva.

Paula Hartmann: Tá. Então, o burnout por si só causa uma grande sobrecarga pessoal e compromete o exercício da profissão. É importante que entendamos que não é fraqueza, não é sinal de fracasso… Perceber isso e procurar ajuda. Se você acredita que tem alguns desses sintomas, procure um profissional de saúde mental. Isso não é sinal de fraqueza. Enquanto você aguarda o atendimento, pode até tentar praticar algumas das técnicas que falamos aqui, mas, de novo, uma vez que o quadro está instalado, não é isso que necessariamente vai resolver o problema. É necessário que avaliemos os diagnósticos diferenciais, as comorbidades que podem exigir terapia farmacológica, como os transtornos ansiosos ou uma forma de psicoterapia mais específica; mas é muito importante que cuidemos da nossa saúde mental e reconheçamos quando estamos sobrecarregados para que isso melhore a nossa qualidade de vida e melhore a nossa capacidade de exercer a nossa função, que tem uma responsabilidade muito grande.

Dayanna Quintanilha: Ótimo, Paula. Eu queria agradecer muito por você ter participado aqui conosco hoje. Foi para mim muito enriquecedor ouvir as orientações. Eu trabalho em geral com clínica médica, então nessa parte de saúde mental é sempre bom ouvir a opinião do especialista, é sempre bom saber dessas técnicas, até para a nossa própria… Eu estou trabalhando na linha de frente e eu tenho percebido o quanto tem sido difícil para mim e para alguns colegas enfrentarmos toda essa carga emocional de trabalho, toda essa carga emocional que a pandemia trouxe. Então eu queria muito agradecer por você ter estado aqui conosco hoje e dizer para todo mundo que está nos ouvindo que, caso apresente algum dos sintomas que a Paula comentou, que você procure ajuda profissional e que você continue nos acompanhando aqui no portal da PEBMED, que vamos sempre estar buscando assuntos que sejam importantes, relevantes para discutirmos. E é isso. Paula, você gostaria de se despedir?

Paula Hartmann: Sim, eu queria agradecer mais uma vez a oportunidade de estar aqui falando sobre esse assunto que é muito importante e trazendo um pouco de consciência sobre a importância da saúde mental, que às vezes nós deixamos de lado, mas que mais do que nunca, nesse momento de pandemia, é essencial. Nós devemos estar atentos a isso e cuidar de nós mesmos para que possamos cuidar melhor dos outros. Então muito obrigada por essa oportunidade.

Dayanna Quintanilha: Só isso, pessoal. Fiquem ligados lá no portal PEBMED, que é o pebmed.com.br e até a próxima.

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