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O impacto da pandemia por Covid-19 em pacientes com TOC

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Neste artigo, publicado em abril na Psychiatry Research, o autor se propõe a discutir sobre o impacto da atual pandemia pelo coronavírus em pacientes que sofrem com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e com o transtorno de acumulação.

Durante esta crise relacionada à Covid-19, as recomendações de alguns importantes órgãos internacionais (Organização Mundial de Saúde, OMS, e o Center for Disease Control and Prevention, CDC) vêm recomendando amplamente algumas medidas de proteção, como o distanciamento social e medidas de higiene, envolvendo principalmente as mãos e a parte respiratória. Com isso a demanda por produtos como sabão, desinfetantes e luvas subiu consideravelmente, enquanto a lavagem das mãos é estimulada como uma importante medida preventiva em relação à contaminação. Também observamos a ampla divulgação sobre a necessidade de cuidados preventivos, higiênicos e de limpeza.

Mas qual o impacto de tudo isso sobre os pacientes com TOC?

Pacientes com TOC e a pandemia de Covid-19

Embora o impacto da situação sobre esses pacientes pareça ser relevante, infelizmente o transtorno pode estar sendo negligenciado. A prevalência de TOC na população em circunstâncias normais gira entre 2 a 3% da população. As comorbidades mais comuns são os transtornos ansiosos (algo em torno de 70%) e o transtorno depressivo (cerca de 30%).

Dentre os sintomas mais comuns do transtorno está justamente a obsessão por contaminação e a lavagem de mão como comportamento compulsivo. Apesar desses sintomas muitas vezes responderem bem ao tratamento psicoterápico e farmacológico, é possível que haja uma recaída, principalmente em momentos de estresse importante. O tempo para que essa recaída se manifeste completamente pode variar entre alguns dias ou meses.

Leia também: Transtornos relacionados ao estresse: como identificar possíveis casos durante a Covid-19?

Agora vamos falar um pouco sobre o transtorno de acumulação. Formalmente este transtorno faz parte do espectro associado ao TOC, sendo que alguns autores o consideram comórbido ao TOC, outros como um subtipo de TOC, enquanto outros o vêem como um fenótipo distinto. Sua prevalência ao longo da vida varia entre 2 e 5%. Estes pacientes podem tanto acumular itens desnecessários, como de itens de maior necessidade.

Na verdade, a acumulação de itens de maior necessidade nesta fase conturbada pode aumentar tanto no transtorno de acumulação como no TOC. Durante a atual crise pelo Covid-19 a ansiedade desses pacientes pode aumentar em decorrência de medidas de quarentena/isolamento social, favorecendo também uma tendência ao acúmulo de medicações de uso sintomático para quadros gripais (como anti-inflamatórios, analgésicos ou antivirais).

A ansiedade subsequente pode levar ao uso obsessivo de medicações, especialmente aquelas apontadas em diretrizes (como a hidroxicloroquina), mas que sem a adequada prescrição e acompanhamento podem significar um risco (por exemplo, cardiotoxicidade da hidroxicloroquina). Outra consequência é, obviamente, a possível escassez desses itens para os que realmente necessitam.

Veja também: Saúde mental durante a crise por Covid-19: recomendações da OMS

Agravamento do TOC

Então, vamos avaliar algumas situações que podem explicar como, neste momento, poderia ocorrer um agravamento dos sintomas desses pacientes:

  1. Como já referido, produtos podem ser estocados seja por pânico ou por uma tendência à acumulação.
  2. Lavagem de mãos: neste momento, a lavagem de mãos com certa frequência e por um determinado período de tempo já é recomendada; assim como as explicações com um “passo-a-passo” orientando a maneira correta da lavagem (o que pode facilmente se transformar num ritual) e há também a necessidade de se manter as mãos limpas todas as vezes que uma pessoa sai de casa ou chega à mesma ou na suspeita de uma possível exposição. Nestes casos, um comportamento que em outras circunstâncias poderia ser considerado exagerado agora passa a ser justificado.
  3. Pode estar ocorrendo uma uma transformação dos padrões de comportamento: antes algo que poderia ser considerado exagerado, no atual contexto passa a ser encarado como “normal” (ex: a já citada lavagem de mãos, mas também da frequência dos banhos ou um aumento das ruminações).
  4. Pode ocorrer um aumento dos pensamentos de contaminação por causa da divulgação de notícias de que o vírus possa permanecer em superfícies.
  5. As famílias vêm sendo estimuladas a terem um maior rigor com as suas medidas de higiene.

Essas questões são pertinentes tanto aos acumuladores quanto aos pacientes com TOC.

Dessa forma observamos como a atual pandemia tem um grande impacto psicossocial, fazendo com que os pacientes com algum tipo de transtorno mental possam experimentar recaídas, além de outras complicações como aumento da ideação suicida, estigma, estresse e até falta de suas medicações. Alguns quadros como depressão ou paranoia podem ainda piorar com o isolamento social. Os pacientes com TOC podem ter uma noção de morbidade variada sobre seus quadros e em alguns casos podem ocorrer sintomas delirantes, que aumentam o risco de descompensação.

Nas pandemias anteriores, como na SARS, MERS e por Influenza, foi possível documentar a exacerbação dos casos de TOC, especialmente no período de seis a 12 meses após o fim das pandemias. Sempre que as estratégias contra uma doença envolverem o desenvolvimento de comportamentos repetitivos, haverá risco de se observar um aumento dos transtornos obsessivos. Isso talvez não fique muito claro durante a pandemia, visto que as prioridades públicas e os serviços médicos estão focados em outra direção.

Neste momento também a saúde mental pode talvez não ser encarada como prioridade, fazendo com que haja diagnósticos mais tardios e com sintomas mais graves. Devemos lembrar também que muitos serviços médicos considerados como não-essenciais estão suspensos como medida de contenção da pandemia, podendo levar à perda de acompanhamento, problemas para a renovação de receitas e descontinuação das psicoterapias. Adicionalmente, devemos nos lembrar que o uso da telepsiquiatria ainda pode ser limitado em alguns locais.

Por outro lado, muitos pacientes com TOC podem até apresentar um insight sobre o seus quadros, mas hesitam em procurar ajuda por estigma ou até por terem dificuldade em compreender o que poderia ser considerado como um comportamento excessivo. Essa noção do “excessivo” num contexto em que se é estimulado a agir de determinada forma fica especialmente difícil de ser compreendido. Por isso, cada vez mais se torna necessária a conscientização, a psicoeducação e a formação de estratégias para minimizar, na medida do possível, o comportamento de acumulação.

Conclusão

Finalmente, vamos lembrar que o TOC, se não for adequadamente tratado, pode levar a um aumento da ideação suicida, estresse, insônia e ao aumento da incidência de doenças dermatológicas. Esses pacientes sofrem com a falta de um controle inibitório, o que pode levar a uma piora progressiva associada à uma sensação de vulnerabilidade crônica à doença, aumentando os pensamentos de contaminação e o comportamento de lavar as mãos.

Assim, conforme o tempo passa, o manejo dos transtornos mentais torna-se essencial para melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Devemos estar preparados para avaliar os casos que possam surgir nos próximos meses.

Para mais informações sobre o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), como seus critérios diagnósticos e manejo, utilize o aplicativo Whitebook.

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