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médica conversando com paciente mulher durante consulta

Comorbidades na síndrome do ovário policístico: o que devemos analisar?

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A síndrome do ovário policístico (SOP) tem como patogênese a obesidade central, resistência insulínica, hiperinflamação e o hiperandroginismo. Sua prevalência é de aproximadamente 10% nas mulheres em idade reprodutiva quando são utilizado os critérios de Rotterdam para diagnóstico. As mulheres com SOP apresentam maior risco de doenças cardiometabólicas, doenças autoimunes, doenças respiratórias, doença hepática gordurosa não alcoólica, cálculos biliares, câncer e maior mortalidade geral. O artigo Medical comorbidity in polycystic ovary syndrome with special focus on cardiometabolic, autoimmune, hepatic and cancer diseases: an updated review, publicado em 2017, trouxe uma visão geral atualizada sobre a morbidade na SOP.

SÍNDROME METABÓLICA E DOENÇA CARDIOMETABÓLICA

A síndrome metabólica na SOP é definida como circunferência da cintura de, pelo menos, 88 cm, tolerância à glicose prejudicada, pressão arterial superior a 130/85 mmHg, lipoproteína de alta densidade (HDL) inferior a 1,3 mmol/l e triglicerídeo superior a 1,7 mmol/l . Em geral, 50% dos pacientes com síndrome coronariana cumprem os critérios da síndrome metabólica. Mulheres magras com SOP raramente cumprem esses critérios e a massa gordurosa central e global foram os preditores mais importantes do risco metabólico na SOP.

O diabetes tipo 2 foi diagnosticado em 1,5 a 10% das mulheres com SOP, o que corresponde a um odds ratio de 4,4 em comparação com os controles. A intolerância à glicose foi encontrada em 10 a 36% de mulheres com SOP, o que corresponde a um odds ratio de 2,5 em comparação com os controles. Estudos recentes, no entanto, apoiaram que a triagem para diabetes tipo 2 na SOP deve ser estratificada de acordo com o IMC. Em estudos prospectivos, o preditor mais importante para a intolerância à glicose determinada durante o seguimento foi obesidade. Os autores concluíram que as mulheres com sobrepeso / obesidade com SOP devem ser rastreadas com teste oral de tolerância à glicose.

A dislipidemia esteve presente em mais de 70% de mulheres diagnosticadas com SOP e a hipertensão foi diagnosticada em cerca de 10%.

O risco de dislipidemia e hipertensão na SOP esteve intimamente associado ao IMC. As mulheres com SOP devem ser rastreadas quanto à presença dos componentes da síndrome metabólica no momento do diagnóstico; a triagem prospectiva de lipídios e pressão arterial não é relevante em pacientes com peso normal e sem fatores de risco metabólicos até a idade de 35 a 40 anos.

Estudos recentes confirmaram que a cirurgia bariátrica em portadoras de SOP foi associada com alta perda de peso, aumento da sensibilidade à insulina e melhora da taxa de ovulação. Atualmente, é debatido se SOP deve ser um fator de risco, permitindo que todas as mulheres com IMC superior a 35kg/m² e SOP sejam candidatas à cirurgia bariátrica.

DOENÇAS AUTOIMUNES, INFLAMATÓRIAS E INFECCIOSAS

O aumento do estado inflamatório, a secreção desequilibrada de estrogênio / progesterona ou mecanismos ainda desconhecidos podem prejudicar a função imunológica na SOP. Mulheres com SOP aumentam a secreção de autoanticorpos, o que poderia explicar o aumento do risco relativo de doenças reumatológicas e do diabetes tipo 1, mas o risco absoluto dessas doenças ainda são baixos.

Mecanismos semelhantes foram sugeridos para afetar a saúde respiratória e para aumentar o risco de asma. O risco relativo de asma foi de 1,5 a 2,5 vezes maior em portadoras da SOP.

Vários estudos relataram maior prevalência de autoanticorpos tireóxicos positivos e maior risco de tireoidite autoimune. A presença global de doenças da tireoide foi 3,6 vezes maior na SOP versus controles. Estima-se que entre 10 a 25% mulheres com SOP tenham hipotireoidismo subclínico.

Os níveis de vitamina D foram menor em mulheres com SOP do que em controles e 31 a 85% de pacientes com SOP apresentaram níveis de vitamina D inferiores a 50 nmol/l. Baixos níveis podem aumentar o risco de doenças autoimunes na SOP e foram associados a um risco aumentado de hipotireoidismo subclínico. A medição do TSH e o rastreio de diabetes fazem parte do programa de avaliação de rotina em mulheres com suspeita clínica de SOP, enquanto que o rastreio de rotina para outras doenças autoimunes não é recomendado atualmente.

DOENÇA HEPÁTICA

As mulheres com SOP apresentaram um risco três vezes maior de doença da vesícula biliar e doença hepática gordurosa (NAFLD). A esteatose hepática foi aumentada em (47%) adolescentes obesas com SOP, em comparação com (14%) meninas obesas sem SOP, mas as meninas com SOP apresentaram maior circunferência da cintura do que os controles. NAFLD pode progredir de esteatose simples a esteatohepatite não alcoólica, fibrose hepática, cirrose e, eventualmente, carcinoma hepatocelular. A síndrome metabólica e a NAFLD são fatores importantes para o desenvolvimento de carcinoma hepatocelular, mas o risco de doenças evidenciadas no fígado e na vesícula biliar, incluindo o carcinoma hepatocelular, não foram avaliadas na SOP.

CONCLUSÃO

A SOP está associada a várias comorbidade. Após o diagnóstico, as mulheres devem ser rastreadas para a síndrome metabólica, doenças da tireoide, medição dos níveis de vitamina D e dosagem das enzimas hepáticas. Os dados atuais fornecem suporte para que a morbidade na SOP esteja intimamente associada ao IMC. O excesso de peso e as mulheres obesas precisam de acompanhamento anual ou semestralmente em relação ao diabetes, enquanto que a necessidade de triagem prospectiva para outras doenças clínicas aguardam diretrizes futuras.

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Referências:

  • Medical comorbidity in polycystic ovary syndrome with special focus on cardiometabolic, autoimmune, hepatic and cancer diseases: an updated review. Glintborg, Dorte; Andersen, Marianne. Current Opinion in Obstetrics and Gynecology: December 2017 – Volume 29 – Issue 6 – p 390–396. DOI: 10.1097/GCO.0000000000000410

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