Covid-19: existe risco aumentado para os trabalhadores da educação em creches?

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A pandemia da Covid-19 tem trazido inúmeros desafios sociais a praticamente todas as nações do mundo. Um dos maiores desafios tem sido a questão do funcionamento de escolas, e em particular das creches, durante o período pandêmico. Apesar da liberação para a reabertura de creches em alguns estados brasileiros, mesmo com os casos de Covid-19, a medida ainda é criticada por algumas organizações e muitos pais têm dúvidas a respeito da segurança de levar seus filhos para a creche.

O fechamento das creches em situações de pandemia faz sentido, uma vez que são locais de alta circulação viral. É só nos lembrarmos que crianças que frequentam creches apresentam maiores taxas de infecções de vias aéreas superiores e bronquiolites. Apesar disso, o fechamento das creches também gera problemas, como perda de empregos, dificuldade dos pais de retornarem aos seus trabalhos e redução de oportunidades educacionais, sociais e nutricionais para as crianças.

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Sendo assim, precisamos de evidências que nos embase na decisão de manter creches abertas ou não dentro do contexto da pandemia de Covid-19. Até o momento, as evidências científicas sugerem que o fechamento de escolas e creches possuem pouco impacto para a redução da pandemia de Covid-19. Além disso, crianças possuem melhores desfechos relacionados à doença, com a maioria das crianças apresentando poucos ou nenhum sintoma (apesar do risco relativamente baixo de desenvolvimento de síndrome inflamatória multissistêmica associada à Covid). No entanto, ainda existem dúvidas com relação ao potencial de transmissibilidade do vírus por crianças assintomáticas.

Novo estudo

Um novo estudo com essa temática foi publicado em janeiro de 2021 na conceituada revista Pediatrics. O artigo, intitulado Covid-19 transmission in US child care programs, traz novos dados que podem contribuir com a decisão de manter as creches abertas ou fechadas durante o período pandêmico. O estudo comparou as taxas de Covid-19 em profissionais de creche que permaneceram atuando durante os primeiros três meses de pandemia nos Estados Unidos com as taxas nos profissionais de creches que estiveram fechadas nesse período.

Os profissionais participantes do estudo foram convidados a participar através de e-mails contendo o questionário da pesquisa, e foram selecionados através de listas de profissionais fornecidas por órgãos oficiais relacionados às creches nacionais. A inclusão foi realizada para todos os profissionais que preencheram o questionário, assim como tinham critério de inclusão (trabalhar diretamente com os cuidados de crianças na creche no período antes da pandemia).

Os questionários avaliaram se os profissionais tiveram Covid-19, se estavam atendendo nas creches nos primeiros três meses da pandemia, a aderência a medidas protetivas individuais (como uso de máscara facial, por exemplo), e medidas preventivas aplicadas nas creches em funcionamento.

Resultados

Um total de 94.390 questionários foram respondidos, com inclusão de 57.335 participantes que dispuseram dos dados necessários para avaliação do estudo. Cerca de metade dos respondentes (51,4%) disseram que suas creches haviam sido fechadas durante o período dos três meses iniciais da pandemia.

As creches que permaneceram abertas funcionaram com grupos menores de crianças (média de 5,62-7,57), e na sua maioria, estabeleceram cuidados preventivos como lavagem frequente das mãos, desinfecção dos ambientes, rastreio de sintomas, não mistura de crianças de classes diferentes e distanciamento social. O uso de máscaras faciais também foi implementado em alguns locais, mas em menor quantidade (35,2% para máscara em profissionais e 11,8% para máscaras nas crianças acima de 2 anos de idade).

Os resultados não indicaram associação entre o desfecho de Covid-19 e a exposição ao ambiente de creche (Odds ratio 1,06; IC 95% 0,82-1,38; p-valor: 0,66). O resultado se manteve após a criação de modelos avaliando potenciais confundidores, inclusive quanto ao risco de exposição individual.

Importante salientar que medidas individuais de proteção demonstraram sua capacidade de reduzir o risco de adquirir Covid-19 nessa população. Em especial, evitar situações de alto risco e viagens teve um potencial protetor (Odds ratio 0,72; IC 95% 0,62-0,84; p-valor < 0,001). Além disso, os locais com maior taxa de contágio comunitária estiveram associados ao risco de Covid-19 (Odds ratio 1,60; IC 95% 1,19-2,15; p-valor 0,002).

Conclusões

Esse estudo vem contribuir com outros dados, sugerindo que as creches não parecem ser um fator significante para a transmissão de Covid-19 em adultos. Os autores, no entanto, fazem um adendo importante a esses resultados: o estudo focou apenas em serviços de creche, e essas instalaram medidas de mitigação do contágio. Portanto, esses dados não devem ser utilizados como forma de avaliação de outros grupos escolares, incluindo universidades. Da mesma forma, também não podem apoiar o funcionamento de instituições que não possam garantir as medidas de segurança necessárias, como muitas das instituições públicas em nosso país.

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Por ser um valor relevante no risco de aquisição da Covid-19, a transmissão comunitária também deve ser levada em conta para a avaliação da reabertura de creches. Deve-se realizar essa abertura apenas em contextos com redução das taxas de transmissão, o que obviamente não é realidade na maior parte dos estados em nosso país no atual momento.

Sendo assim, a decisão de reabertura de creches deve levar em consideração as taxas de contágio comunitária e a possibilidade de instalação das medidas de mitigação da infecção, e não apenas o risco específico da transmissão viral dentro das creches.

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Referências bibliográficas:

  • Gilliam WS. et al. Covid-19 transmission in US child care programs. Pediatrics, v. 147, n. 1, 2021. doi: 1542/peds.2020-031971
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