Deficiência de ferro na prática clínica

Deficiência de ferro é um achado comum na prática clínica, principalmente em situações de necessidade, diminuição da oferta e perda de ferro.

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Deficiência de ferro, associada ou não à anemia, é um achado comum na prática clínica, principalmente em situações de:

  • Maior necessidade — crescimento, gestação, lactação;
  • Diminuição da oferta ou absorção — baixa biodisponibilidade na dieta (ex.: vegetarianos), doenças inflamatórias intestinais, parasitoses, gastrectomia prévia, gastroplastia prévia, infecção pelo pylori, gastrite atrófica autoimune, uso de medicamentos (ex.: antiácidos);
  • Perda de ferro — sangramento uterino anormal, sangramento gastrointestinal, hemólise.

A deficiência pode ser absoluta ou funcional. No caso da primeira, os estoques de ferro estão exauridos ou a concentração de ferro encontra-se muito baixa, sendo insuficiente para atender a eritropoiese. Por outro lado, na deficiência funcional, os estoques do mineral não podem ser mobilizados de forma rápida para atender a demanda (ocorre o chamado “sequestro” ou “aprisionamento” do ferro).

Leia também: Quais os fatores de risco para anemia ferropriva após cirurgia bariátrica?

Representação gráfica da corrente sanguínea de paciente com deficiência de ferro

Diagnóstico

A ferritina é um marcador de fase aguda e, portanto, encontra-se elevada em diversas situações (ex.: sepse, malignidade, doença autoimune). Dessa forma, é possível haver anemia ferropriva com ferritina normal (anemia ferropriva associada à anemia da inflamação). Além disso, alguns fatores influenciam o resultado da ferritina, como idade e sexo (ex.: mulheres no menacme tendem a ter valores mais baixos de ferritina) e hábitos de vida (ex.: consumo de álcool, tabagismo). Por conseguinte, o valor da ferritina não deve ser avaliado isoladamente; os outros índices da cinética de ferro (ferro sérico, capacidade total de ligação de ferro, saturação de transferrina) devem ser considerados para determinar se há deficiência de ferro.

Sendo assim, uma investigação detalhada é fundamental para que seja estabelecido um diagnóstico correto, permitindo então um tratamento adequado para cada indivíduo.

Tratamento

O tratamento oral é preferencial, porém tem limitações:

  • Absorção intestinal limitada: a taxa de absorção de ferro é variável e baixa (cerca de 3-30%);
  • Alta taxa de eventos gastrointestinais adversos: secundários à concentração de ferro não absorvida;
  • Maior tempo de duração: são necessários cerca de 1-2 meses para correção da anemia e mais 2-3 meses para a reposição dos estoques de ferro;
  • Baixa adesão: consequente aos fatores acima descritos.

Além disso, por vezes, o uso de ferro oral não é suficiente para correção da anemia e manutenção dos estoques (ex.: doença inflamatória intestinal, gastroplastia, malignidade, sangramento contínuo).

O tratamento com ferro parenteral deve ser considerado nos casos de intolerância ou falha de resposta ao ferro oral, bem como quando há necessidade de resposta terapêutica mais rápida, continuidade da perda sanguínea e/ou recusa à transfusão de hemácias. No Brasil, há duas formulações de ferro parenteral disponíveis: sacarato férrico e carboximaltose férrica.

A administração venosa deve ser realizada em serviço de saúde (ex.: clínicas, hospitais) e por equipe treinada, pelo risco de reação. Pacientes com histórico de asma, eczema, alergias atópicas, reação prévia de hipersensibilidade leve à moderada a qualquer droga e/ou doença inflamatória sistêmica em atividade devem ser pré-medicados com hidrocortisona. Nesses casos, recomenda-se evitar o uso de difenidramina antes do ferro venoso, visto que seus possíveis efeitos adversos (ex.: hipotensão, taquicardia, sonolência) podem ser confundidos com reação à infusão de ferro.

Pontos importantes

  • Antes de prescrever reposição de ferro (seja oral, seja parenteral), deve-se avaliar a relação risco x benefício do tratamento: a indicação deve ser precisa, e o benefício deve ultrapassar qualquer risco;
  • Seguir as orientações contidas em bula, a fim de minimizar risco de eventos adversos;
  • Etapa importante na abordagem dos indivíduos com deficiência de ferro é a identificação de potenciais causas para o distúrbio para pronto manejo (quando possível) — ex.: encaminhamento para gastroenterologia se for evidenciada perda sanguínea gastrointestinal ou quando houver suspeita de má absorção, encaminhamento para ginecologia se relato de hipermenorreia ou menorragia;
  • Nem todo paciente com anemia por deficiência de ferro deve ser acompanhado por hematologista: recomenda-se encaminhamento para hematologia quando o diagnóstico é incerto ou quando se considera administração parenteral de ferro.

Saiba mais: Avaliação gastrointestinal no paciente com anemia ferropriva

Referências bibliográficas:

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