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Endocardite infecciosa em pacientes com valva aórtica bicúspide e prolapso: qual é o risco?

Tempo de leitura: 3 minutos.

A endocardite infecciosa (EI) é uma doença rara, mas que exige tratamento antibiótico prolongado e com grande potencial de complicações cardíacas, levando eventualmente à cirurgia de troca valvar. Comentamos recentemente sobre um estudo que sugeriu que estamos talvez menosprezando o risco de EI em procedimentos médicos não classificados tradicionalmente como “de risco”. Nos últimos 15 anos, observamos as diretrizes restringindo cada vez mais as indicações de profilaxia antibiótica (atualmente apenas para os pacientes de alto risco). Alterações valvares como valva aórtica bicúspide (VAB) e prolapso de valva mitral (PVM) não tem indicação de profilaxia, mas será que o risco é baixo o suficiente para embasar tal recomendação?

Um estudo recentemente publicado no JACC envolveu 3.524 pacientes com EI possível (19,2%) ou confirmada (80,8%) (pelos critérios de Duke modificados), oriundos de um registro espanhol de 2008 a 2016, com dois objetivos principais:

  1. Características clínicas e microbiológicas dos casos de EI nos pacientes com as duas alterações valvares já mencionada;
  2. Comparar tais características com as dos pacientes que têm e não têm indicação de profilaxia de modo a avaliar a utilidade de se fazer profilaxia nestas condições.

Os pacientes foram categorizados pela condição cardíaca predisponente e sua indicação de profilaxia pelas diretrizes da American Heart Association (ex.: EI prévia, próteses valvares, cardiopatia congênita cianótica não reparada ou reparada com defeito residual ou reparada nos 6 meses prévios). No final, foram três grupos principais: pacientes de alto risco (n=1.226), pacientes com VAB (n=54) e PVM (n=89) e os de baixo a moderado risco, excluindo destes os com VAB e PVM, é claro. Os pacientes com EI relacionada exclusivamente a dispositivo cardíaco foram excluídos da análise. Os dados de microbiologia e porta de entrada também foram analisados.

Resultados

Grupo VAB -> 54 pacientes em torno da 5ª década de vida, sendo 50% dos casos adquiridos na comunidade e com o agente etiológico principal sendo “germe de boca” (estreptococos do grupo viridans). Cerca de 68% foram submetidos a cirurgia e a mortalidade intra-hospitalar foi de 5,6%;
Grupo PVM -> 89 pacientes em torno da 7ª década de vida, sendo a maior parte causada também por germe de cavidade oral. Cerca de 39,3% foram submetidos a cirurgia de troca valvar mitral (a maioria recebeu prótese mecânica). Uma taxa alta de pacientes não operados recebeu alta com regurgitação mitral severa. A mortalidade intra-hospitalar foi de 10%.

Comparação dos dois grupos acima com os de alto risco e os de baixo/moderado risco:

– Os grupos VAB e PVM tiveram um pouco mais do dobro da taxa de EI por estrepto viridans que os outros dois grupos, ressaltando a forte origem odontológica de tais casos. Nos outros dois grupos, os estafilococos foram o agente etiológico mais frequente;
– As taxas de complicações cardíacas dos grupos VAB e PVM foram semelhantes aos pacientes de alto risco e maiores que os pacientes de baixo risco;
– Os pacientes com VAB tiveram taxa de tratamento cirúrgico maior que os de baixo/moderado e os de alto risco. Não houve diferença significativa na taxa de tratamento cirúrgico para os com PVM e os de baixo/moderado risco e alto risco;
– A mortalidade intra-hospitalar foi maior para os grupos de alto risco(29%) e baixo/moderado risco(28,3%) quando comparados aos grupos VAB(5,6%) e PVM(10,1%). Explicação??  os pacientes eram mais idosos, com mais comorbidades, maior risco cirúrgico e com mais casos de EI nosocomial. Análises secundárias ajustadas para estes fatores suportam essa possível explicação.

Discussão

Os dados desse estudo sugerem considerar VAB e PVM, além das indicações atuais de profilaxia antibiótica para EI, sobretudo no contexto de procedimento odontológico.

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Referências:

Um comentário

  1. WALTHER ERWIN

    MUITO BOAS AS CONSIDERAÇÕES.

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