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Entenda a associação entre antidepressivos e fraturas em idosos

Tempo de leitura: 3 minutos.

O presente artigo visa discutir a possível relação entre o uso de antidepressivos e fratura de quadril em idosos. O transtorno depressivo possui alta prevalência, afetando a vida de indivíduos de todas as idades. O tratamento com medicações antidepressivas é de grande importância, mas está associada a vários efeitos colaterais, especialmente em pacientes mais idosos. Um desses efeitos é o aumento do risco de quedas, que frequentemente está associada a complicações nos mais velhos. Uma das possíveis complicações são as fraturas de quadril. Vários estudos têm estabelecido associações entre diversos grupos de antidepressivos e o risco desse tipo de lesão. Os pacientes com doenças clínicas graves e comorbidade com depressão parecem já possuir risco aumentado mesmo antes do início do tratamento.

Antidepressivos x riscos de quedas

Trata-se de um estudo de coorte sueco que avaliou pacientes com mais de 65 anos entre julho de 2006 e dezembro de 2011. Os dados são referentes a um ano antes do início do tratamento e um ano após. Foram analisados 408.144 pacientes, metade pertencia ao grupo controle. A idade média foi de 80,1 anos e 63,1% eram mulheres. As drogas mais comumente usadas foram os inibidores seletivos de recaptação de serotonina, ISRS, (62,6%). As medicações citadas foram mirtazapina, amitriptilina e citalopram.

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Nos resultados, contatou-se que os indivíduos que iniciaram o uso de antidepressivos tiveram mais que duas vezes mais fraturas de quadril do que aqueles que não usavam antidepressivos. Contudo, ressaltam que a incidência de fraturas de quadril nos pacientes que fizeram uso da medicação foi maior tanto antes como após o início do tratamento. O aumento do risco é gradual, com pico um mês antes do início do tratamento e queda gradual até 1 ano após. Esse resultado foi confirmado após análises estatísticas. Em todos os cenários, citalopram e mirtazapina tiveram associação entre o início do tratamento e fraturas de quadril. No caso da amitriptilina, essa associação foi significativa em oito de 10 cenários.

Em relação à dose da medicação, parece haver maior risco de fratura com maiores doses de antidepressivos apenas em dois dos 10 cenários avaliados, com pico entre 16 e 30 dias antes do início. No caso de doses menores dos remédios, o risco foi maior em apenas um cenário. No que diz respeito às doses, nem sempre as conclusões foram estatisticamente significativas.

Vieses

É importante considerarmos que neste estudo os participantes que receberam a medicação possuíam mais comorbidades e um risco maior que duas vezes para fratura do que aqueles que não possuíam critérios para o tratamento antidepressivo. Contudo, o aumento da incidência foi quase o mesmo antes e após o início do tratamento. Não há uma relação clara com a dose das medicações.

Uma possível explicação para o maior risco de lesões ocorrer entre 30 e 16 dias antes do início do tratamento com antidepressivos seria a própria hospitalização decorrente da fratura. Isso poderia acentuar os sintomas depressivos, que então seriam percebidos pelos médicos. Então, os antidepressivos seriam iniciados.

Além disso, observou-se que a associação entre antidepressivos e fraturas foi maior em homens. Vários estudos sugerem que a depressão é menos diagnosticada e tratada em homens e que eles também são os que menos procuram ajuda quando deprimidos. Então quando são internados por uma lesão, seria mais fácil reconhecer e tratar a doença.

Conclusão

Idosos com depressão possuem maior risco para fratura de quadril antes de iniciar tratamento antidepressivo, uma vez que há comorbidades associadas e critérios de confusão. Outros estudos anteriores não demonstraram esse risco antes do início da medicação, mas após. A evidência de relação causal entre antidepressivos e fraturas ainda é considerado fraco, mas alguns profissionais evitam seu uso mesmo assim. A Sociedade Americana de Geriatria advoga que o uso de antidepressivos deve ser evitado em idosos com história de quedas, a menos que outras opções mais seguras não estejam disponíveis.

A depressão pode aumentar o risco de queda e fratura, como já vem sido sugerido pela literatura. Se este risco for maior que o de uso de antidepressivos, o início do tratamento levando à remissão dos sintomas deve diminuir as chances desse evento. Já se sabe que tanto a depressão como os antidepressivos afetam o metabolismo ósseo, podendo contribuir para lesões antes e após o tratamento.

Os autores reconhecem como limitação do estudo não terem acesso à outras informações, como a presença de comorbidades. Dentre outros fatores, isso gera uma incerteza sobre a indicação de prescrição de antidepressivos (sintomas de ansiedade, dores neuropáticas, transtornos do sono, sintomas de demências, etc). Há também dificuldade na avaliação do que seria uma dose alta ou baixa.

 

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