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Entenda o papel da equipe interprofissional e a psicologia hospitalar

Tempo de leitura: 5 minutos.

O trabalho em equipe é hoje uma prática crescente no atendimento à saúde (Bucher, 2003). As equipes se caracterizam pelo modo de interação presente na relação entre profissionais (Chiattone, 2000; Maclean et al., 2000), que pode ser interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar.

A interação é interdisciplinar quando alguns especialistas discutem entre si a situação de um paciente sobre aspectos comuns a mais de uma especialidade. É multidisciplinar quando existem vários profissionais atendendo o mesmo paciente de maneira independente, com base em sua própria visão de prioridade na demanda. É transdisciplinar quando as ações são definidas e planejadas em conjunto.

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Na prática, poucos são os trabalhos que contemplam essa diferenciação. Independente do termo empregado, há expectativas de que profissionais da saúde sejam capazes de ultrapassar o desempenho técnico baseado em uma única arte ou especialização (Bucher, 2003; LoBianco, Bastos, Nunes & Silva, 1994).

A organização de equipes está associada à complexidade da demanda (Crepaldi, 1999). Nessas situações, os profissionais se deparam com seus próprios limites profissionais, e encontram nos colegas de outras formações, subsídios para a compreensão e atendimento do caso em questão. No entanto, tal atitude depende ainda da tradição profissional, a característica do grupo de trabalho (postura vertical ou horizontal) e o tipo de intervenção (Chiattone, 2000). Na verdade, o trabalho em equipe traz novos desafios, exigindo competências e habilidades para a atuação em grupo e para a justificação clara e objetiva de procedimentos técnicos pertencentes à dada especialidade.

É necessário, antes de mais nada, dominar a própria prática, tendo uma visão pautada em conceitos teóricos e científicos de referência, e mantendo capacidade técnica de observação para análise e indicação pertinente ao caso. Frente a isso, é preciso desenvolver meios de comunicação assertiva, clara e concisa, que permita a explanação durante discussão de equipe, atingindo a compreensão dos colegas que não são da área. O terceiro ponto é o poder de convivência em grupo, de relacionamento interpessoal, buscando meios assertivos e não impositórios de se posicionar. Argumentos sólidos costumam ser mais úteis do que falas exaltadas.

Papel da equipe interprofissional e da psicologia hospitalar

No âmbito hospitalar, a falta de clareza quanto às atribuições dos diferentes profissionais, principalmente em profissões emergentes como a psicologia hospitalar, é um dos fatores que dificulta o trabalho em equipe. O hospital é uma instituição complexa, que envolve um grande número de especialidades, diferindo do modelo anterior de medicina generalista enquanto detentora do saber. Frente a isso, com a ampliação do cuidado com base nas especialidades, os diferentes campos de atuação médica e multiprofissional, levam à necessidade de comunicação assertiva, de modo a alinhar pensamentos e estratégias de intervenção prática.

É sabido que cada profissional tenderá a enxergar o paciente com base no seu campo de formação, refletindo de modo direcionado à sua área do conhecimento. O “pulo do gato” está em compreender que o objetivo principal de reuniões interprofissionais e transprofissionais, é justamente observar o paciente por diversos ângulos e perspectivas, avaliar por pontos de vista diferentes, para que se consiga um consenso único e mais refletido de intervenção antes que a conduta chegue de modo objetivo até o paciente.

Pensando na inserção da psicologia no campo da terapia intensiva, a partir das pesquisas realizadas, existem dois pontos principais de bloqueio: a compreensão de suas atribuições e as expectativas concernentes a sua especificidade (Romano, 1999); e a ausência de linguagem clara e objetiva, compreensível aos membros não-psicólogos. Em contraste, Seidl e Costa (1999) informaram que tais dificuldades diminuem quando o psicólogo é pós-graduado, desenvolve atividades de pesquisa e participa de eventos científicos, pois desenvolve maior habilidade no contexto da saúde e conhecimento suficiente para se posicionar com segurança frente a equipe.

Em estudo realizado na Escócia, Wild et al. (2003) verificaram que o baixo índice de encaminhamento para acompanhamento psicológico intra-hospitalar estava mais relacionado à falta de compreensão da prática do que à desconfiança dos métodos. Para tanto, é preciso buscar meios alternativos para que a equipe possa compreender com maior clareza, que a psicologia no âmbito hospitalar não tem seu foco no tratamento de transtornos mentais, e sim no processo de adaptação do indivíduo e família aos aspectos e especificidades mobilizados pela doença.

É fato que o psicólogo estará atento às manifestações psíquicas disfuncionais. Entretanto, o objetivo principal está em proporcionar meios de assistência que permitam ao paciente e sua extensão familiar, buscar recursos de enfrentamento efetivos para a compreensão, adaptação e ressignificação da doença.

O foco não é realizar atendimento clínico para trabalhar questões internas gerais ao paciente, e sim criar estratégias de atendimento focal, que possibilite auxiliar na assimilação do processo de adoecimento e luto, aspecto essencial para preservação da saúde mental durante internação hospitalar em UTI.

Papel do psicólogo intensivista

Considerado esta realidade, o papel do psicólogo intensivista nas reuniões interprofissionais, é trazer dados relevantes sobre o posicionamento, enfrentamento e características disfuncionais do paciente e família diante  da doença. É apresentar avaliação sobre aspectos cognitivos, emocionais e comportamentais que possam interferir negativamente, e trabalhar para que o paciente desenvolva postura ativa e autorresponsabilização no tratamento, garantindo assim melhor adesão ao plano terapêutico proposto.

Em situações de maior gravidade, este profissional se faz essencial na preparação da família para desfechos desfavoráveis, garantindo suporte psicoemocional na terminalidade e luto. Outro ponto essencial é apresentar com clareza o posicionamento da família durante a internação, reações emocionais e comportamentais disfuncionais, instruindo a equipe sobre os modos mais assertivos de interagir com estes indivíduos em momentos de crise.

Para tanto, é necessário que a equipe entenda a psicologia intensivista como ciência que avalia os aspectos subjetivos, porém que trabalha com base em protocolos específicos e totalmente voltados para a assistência ao paciente crítico, considerando as necessidades reais da tríade paciente-equipe-família.

Conclusão

Cabe porém aos psicólogos, a compreensão de que nosso campo de formação possui particularidades linguísticas específicas, que não são compreendidas pelos demais membros da equipe, exigindo competência do profissional na transmissão clara de informações, garantindo uma comunicação eficiente e compreensível aos demais integrantes da equipe.

Pensar em grupo, avaliar pelo viés da própria especialidade e se posicionar de modo claro, respeitoso e profissional, interagindo e refletindo sobre a perspectiva das outras áreas do saber, são a receita de reuniões interprofissionais eficientes, que resultarão em bons resultados na assistência ao paciente.

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Autor:

Mariana Batista Leite Leles

Psicóloga Hospitalar ⦁ Residência em Urgência e Trauma ⦁ Especialização em Psico-oncologia ⦁ Membro da diretoria da AMIB, Departamento de Psicologia aplicada à Terapia Intensiva.

Referências:

  • Bucher, J. S. N. F. (2003). Psicologia da saúde no contexto da saúde pública: uma complexidade crescente. In O. H. Yamamoto & V. V. Gouveia (Orgs.), Construindo a psicologia brasileira: desafios da ciência e prática psicológica (pp.213-239). São Paulo: Casa do Psicólogo.
  • Chiattone, H. B. C. (2000). A significação da psicologia no contexto hospitalar. In V. A. Angerami (Org.), Psicologia da saúde: um novo significado para a prática clínica (pp.73-158). São Paulo: Pioneira.
  • Romano, B. W. (1999). Princípios para a prática da psicologia clínica em hospitais. São Paulo: Casa do Psicólogo.
  • Seidl, E. M. F., & Costa, A. L. Jr. (1999). O psicólogo na rede pública de saúde do Distrito Federal. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 15 (1), 27-35.
  • Wild, M. R., Bowden, K., & Bell, N. (2003). The provision of clinical psychology services within a general hospital: an analysis and interpretation of referral rates. Scott Medical Journal, 48 (3), 76-81.

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