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Estresse e isolamento: o ‘novo normal’ de ser profissional de saúde durante a Covid-19

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Nos últimos dias, o Brasil ultrapassou países como Espanha, Itália e França em número de casos da doença pelo novo coronavírus (Covid-19), com mais de 240 mil pessoas contaminadas, alcançando a quarta posição entre os países mais afetados.

Neste momento, mais de 30 mil profissionais que estão na linha de frente no país já foram infectados pela Covid-19, segundo os dados do SUS Notifica, apresentados no último dia 14 pelo Ministério da Saúde. Além deles, mais de 114 mil apresentavam sintomas e estariam aguardando os resultados. Os mais atingidos pela doença são auxiliares de enfermagem (34,2%), enfermeiros (16,9%) e médicos (13,3%).

A pandemia pelo olhar dos profissionais de saúde

A Covid-19 é uma doença nova, não tendo ainda um medicamento eficaz e/ou vacina para prevenção. Mas sua alta e rápida transmissibilidade expõe esses profissionais a diversos problemas, como: não ter ainda um protocolo bem definido para tratamento e falta de equipamentos de proteção individual (EPIs).

Segundo um outro levantamento online, realizado com mais de 2 mil médicos pela Associação Paulista de Medicina (APM), apenas 15,5% deles foram capacitados e se sentem preparados para atender pacientes em qualquer fase da doença, até mesmo os casos graves em terapia intensiva. Na pesquisa, 50% deles denunciaram escassez de máscaras N95, PFF92 ou equivalentes. Além disso, outros EPIs também estão em falta em alguns lugares, como óculos de proteção (26%) e aventais (31%).

Diante desse cenário e do possível colapso do sistema de saúde, com filas para leitos de enfermaria e unidades de terapia intensiva (UTIs) pelo grande número de casos, é importante olhar para a saúde mental de quem precisa estar na linha de frente.

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Saúde mental durante a Covid-19

A médica Marina Freire, formada há quatro anos, trabalha em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) na região metropolitana de Fortaleza, cidade muito afetada pela pandemia, e descreve uma situação de colapso tanto da rede pública, como da privada. Esta semana, ela publicou um desabafo em suas redes sociais sobre o que está passando nesse momento.

No texto, ela diz que após quase dois meses trabalhando na linha de frente, ela passou um dia inteiro chorando. “Chorei porque não aguento mais ter que escolher quem tem mais chance de viver. […] Chorei porque não aguento mais ver meus colegas de profissão e funcionários da UPA chegando graves no plantão para serem internados. Chorei por ter que parecer forte todos os dias e dar palavras de conforto quando nós todos estamos devastados”.

O estresse dos profissionais de saúde tem sido uma das grandes consequências da pandemia: de acordo com uma pesquisa online realizada pelo Portal PEBMED, 28,9% se definem com nível altíssimo de estresse (nível 5 em uma escala de 1-5), 25,9% com nível 4 e 25,8% com nível 3.

Leia também: Hoje Covid-19, amanhã TEPT: dilemas do profissional em “combate”

Os motivos para esse nível de estresse podem ser diversos. Para a psicóloga hospitalar intensivista, Mariana Leles, que trabalha em um hospital de referência para Covid-19 em Goiânia, de modo geral, o profissional da saúde está sobrecarregado emocionalmente. “O que se percebe é que inicialmente, para todos os profissionais, o que causava estresse era o medo de algo desconhecido, e que gerou modificação das rotinas diárias, assim como a adaptação aos novos rituais que garantem a segurança dentro e fora dos hospitais. Com o passar do tempo e a maior familiaridade no manejo de pacientes potencialmente contaminados, o medo inicial reduziu, porém o que prevalece agora, é algo ainda pior: o estresse crônico.”

Segundo ela, isso acontece porque o ser humano é bastante flexível e consegue lidar bem com adaptações e períodos de estresse, mas “não é capaz de tolerar a quebra da homeostase por grandes períodos, sem que haja algum tipo de adoecimento (físico ou psíquico)”.

Outro fator que pode complicar ainda mais a saúde mental é o isolamento social. Na pesquisa, a maioria dos profissionais (47%) afirmou que continua morando com a família, mas mais de 31% disseram ter precisado se isolar de pelo menos parte da família durante esse período, pelo grande risco de contaminação.

Para Marina, mesmo que não tenha precisado se isolar, já que mora apenas com o esposo, ela sente falta dos pais e avó que não vê há três meses: “é péssimo não ter o abraço e colo de mãe em um momento como esse, mas sei que ir vê-la seria só exposição desnecessária”.

O que a psicóloga vê é que boa parte dos profissionais que se mantêm totalmente isolados, são aqueles que estão atuando em contato direto com pacientes de Covid-19 e que possuem pessoas do grupo de risco em casa. “A questão que mais impacta a saúde mental destas pessoas, é a ruptura. A ruptura com o padrão anterior de vida, a quebra total de rotina, o afastamento físico das pessoas importantes, o medo e a solidão são situações potencialmente adoecedoras, em especial quando vividas por longos períodos. Estamos todos passando por vários lutos nesta pandemia, e perder a rede de apoio familiar neste momento, pode refletir em sensação de desamparo”, conclui.

Ouça também nosso podcast: Saúde mental dos profissionais em tempos de coronavírus

Os dois lados de ser profissional de saúde em uma pandemia

Outra questão levantada pela pesquisa do Portal PEBMED foi a discriminação ou medo da população em ter contato com aqueles profissionais de saúde que atuam na linha de frente. Apesar de a maioria (77%) não ter passado por nenhum momento onde se sentiu discriminado, a psicóloga Mariana Leles conhece alguns casos de pessoas que fazem parte dos 23% que foram discriminados de alguma forma, incluindo ela.

“Eu sofri discriminação de um modo mais leve, no início da pandemia, quando veio a público que meu hospital estava sendo referência no tratamento da Covid-19. Mas como não tenho tido contato com muitas pessoas externas, aos poucos isso foi se desmistificando. Entretanto, boa parte dos meus colegas, passaram por situações absurdas. Alguns foram discriminados por vizinhos de prédio, que fizeram abaixo assinado para que fosse proibida a entrada no elevador e na entrada social; outros moram nas regiões de interior, e foram expostos publicamente em suas cidades nas redes sociais, como pessoas contaminadas”, conta Mariana.

No mundo, a pandemia já alcançou 188 países e territórios, com mais de 4 milhões de infecções, segundo os dados da Johns Hopkins Coronavirus Resource Center, da Johns Hopkins University. Alguns países, com a curva decrescente, já começaram a voltar a seus dias normais, ou talvez a um “novo normal”. Mas no Brasil, com casos e mortes ainda crescentes, não há uma previsão de quando tudo isso vai melhorar.

Por isso, a psicóloga orienta que é necessário entender que tudo vai passar, mas não vai ser agora nem na próxima semana. “Precisamos nos aproximar afetivamente e externalizar sentimentos, e isso inclui utilizar a rede de apoio social, e também os serviços de apoio emocional disponível nos momentos de maior fragilidade. Temos que cuidar do nosso corpo e das nossas emoções e descobrir o que nos faz bem de verdade, afinal, as recomendações são gerais, mas o que é bom para mim, nem sempre é bom para o outro”.

Pesquisa PEBMED

A pesquisa online realizada pelo Portal PEBMED, na primeira quinzena de abril, buscou entender um pouco de como esses profissionais têm se sentido e se comportado neste momento. Mais de 3.200 profissionais responderam o questionário, sendo cerca de 41% médicos, 18% outros profissionais de saúde, 16% enfermeiros e 14% auxiliares, técnicos ou estudantes de enfermagem.

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Referências bibliográficas:

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