Clínica Médica

Comprometimento do sono está associado a burnout e a erros médicos

Tempo de leitura: 3 min.

O comprometimento do sono em médicos é um risco ocupacional associado a longas e, às vezes, imprevisíveis horas de trabalho. Um estudo realizado nos Estados Unidos e publicado no jornal JAMA Network Open mostrou que esse prejuízo foi associado a maiores taxas de burnout, diminuição da realização profissional e aumento de erros médicos autorrelatados clinicamente significativos.

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Metodologia

O objetivo do estudo foi avaliar as associações entre comprometimentos de sono e indicadores de bem-estar ocupacional em médicos que atuam em centros médicos afiliados acadêmicos e a associação desse comprometimento com erros médicos clinicamente significativos autorrelatados, antes e após o ajuste para burnout.

Foi realizado um estudo transversal que usou dados de uma pesquisa de bem-estar médico coletados em 11 centros médicos afiliados acadêmicos entre novembro de 2016 e outubro de 2018. A análise foi concluída em janeiro de 2020. Um total de 19.384 médicos assistentes e 7.257 médicos da equipe das instituições participantes foram convidados a preencher um questionário sobre seu bem-estar. A amostra de respondentes foi usada para este estudo.

Hipóteses sobre a associação entre prejuízos relacionados ao sono e indicadores de bem-estar ocupacional, como, exaustão no trabalho, desligamento interpessoal, esgotamento geral e realização profissional foram feitas antes da coleta de dados. A avaliação das associações de comprometimento do sono e burnout com erros médicos significativos clinicamente relatados (isto é, erro no último ano resultando em danos ao paciente) foi planejada após a coleta de dados.

Resultados

Das 11 instituições, 2 (18%) convidaram apenas médicos assistentes para participar, 1 (9%) convidou apenas médicos pós-graduados em treinamento e 8 (73%) convidaram ambos os grupos. As taxas de resposta variaram por instituição e por status de treinamento, com a dos médicos assistentes variando de 20% a 60% e a dos estagiários de 38% a 74% entre as instituições.

No geral, de 19.384 médicos assistentes e 7.257 médicos das equipes hospitalares convidados a participar, 7.700 (40%) e 3.695 (51%), respectivamente, responderam perguntas sobre distúrbios do sono, disponibilizando dados de 11.395 médicos para análise. Destes, 5.279 (46%) se identificaram como mulheres, 5.187 (46%) como homens e 929 (8%) como outro gênero ou optaram por não responder. Por causa da variação no nível da instituição na inclusão deste domínio (8 instituições incluídas), houve respostas de erro médico autorreferidas de 7.762 médicos, dos quais 7.538 (97%) também completaram avaliações relacionadas ao sono e esgotamento.

Saiba mais: Estresse e isolamento: o ‘novo normal’ de ser profissional de saúde durante a Covid-19

Os resultados mostraram que a deficiência relacionada ao sono teve correlações estatisticamente significativas com o burnout e a realização profissional. Em um ajuste de modelo para sexo, status de treinamento, especialidade prática e burnout, comprometimentos de sono moderado, alto e muito alto foram associados a 53%, 96% e 97% de chance de erro médico autorrelatado clinicamente significativo, respectivamente, em comparação a um baixo comprometimento do sono.

Conclusões

Os pesquisadores concluíram que o comprometimento do sono foi prevalente na amostra estudada e  associado a maiores taxas de burnout e diminuição da realização profissional. Os altos níveis de comprometimento do sono colocam os médicos em elevado risco para o prejuízo de sua saúde pessoal. O sono crônico inadequado está associado ao risco de doença de Alzheimer por meio de vários mecanismos, como a  diminuição da depuração de metabólitos extracelulares, incluindo beta-amiloide, aumento do estresse oxidativo e interrupção da função da barreira hematoencefálica. Além disso, o sono inadequado também está associado a prejuízos na saúde cardiovascular, no humor, nas respostas inflamatórias, na função imunológica, na atenção, no processamento de emoções e na regulação afetiva.

O estudo também concluiu que houve uma associação dose-resposta com erro médico autorrelatado clinicamente significativo. Estes resultados são congruentes com pesquisas anteriores que indicam que um sono prejudicado, juntamente com o esgotamento e baixa realização profissional em médicos, está associada ao aumento de reclamações não solicitadas de pacientes, um fator associado a resultados clínicos adversos e risco de responsabilidade. Mais pesquisas sobre intervenções eficazes para reduzir o comprometimento relacionado ao sono são necessárias, com o objetivo de reduzir os danos dos erros tanto para médicos quanto para seus pacientes.

Referências bibliográficas:

  • Trockel MT, Menon NK, Rowe SG, Stewart MT, Smith R, Lu M, Kim PK, Quinn MA, Lawrence E, Marchalik D, Farley H, Normand P, Felder M, Dudley JC, Shanafelt TD. Assessment of Physician Sleep and Wellness, Burnout, and Clinically Significant Medical Errors. JAMA Netw Open. 2020 Dec 1;3(12):e2028111. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2020.28111.
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Publicado por
Roberta Esteves Vieira de Castro

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