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Imagem representativa de médico que busca uma melhor abordagem aos problemas da medicina moderna através da slow medicine

Exercício da medicina ‘moderna’ e o conceito de ‘slow medicine’

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Estamos ainda em plena pandemia de Covid-19, mas não é de hoje que vivemos um momento delicado do exercício da medicina.

Por um lado, mais do que nunca, a população enxerga a necessidade de valorizar os profissionais de saúde no momento em que nos damos conta de como ela é frágil. Por outro, o impacto das redes sociais na disseminação de informações de qualidade questionáveis, das fake news, do Dr. Google, da convicção de todos que são agora especialistas “em tudo”, nunca se questionou tanto o conhecimento dos médicos e demais profissionais de saúde. Mas se nós mesmos não nos valorizarmos, como esperar que outros o façam?

Não raramente os (im)pacientes procuram os consultórios médicos já com um “diagnóstico” devidamente “checado” na internet. Muitas vezes só querem que o médico “peça exames” e “passe os remédios”. “O médico é ótimo, pediu todos os exames”, dizem. “Como assim não pediu nenhum exame? Absurdo!”, diz outro. Supervalorizamos check-ups periódicos, exames de sangue com dezenas de análises, com isso a chance de algum resultado estar fora da referência sem qualquer relevância clínica é enorme!

Leia também: Medicina: habilidades úteis para desenvolver na quarentena

Consultas mais humanas

Não tratamos “pedaços de papel”, como costumo dizer, tratamos pessoas, pacientes, mas a pressão por mais exames é enorme! Por remédios e vitaminas idem. E tome medicamento (se novo melhor ainda) para prevenir diabetes, doença cardíaca, AVCs, insônia, depressão, ansiedade, prisão de ventre, refluxo, gastrite, artrose, osteopenia, queda de cabelo, etc.

Corrigir ou melhorar hábitos ruins não está em discussão. Fazer exercícios? Melhorar a alimentação? Parar de fumar? Reduzir a ingestão de bebida alcoólica? Meditar? Reduzir o “tempo de tela”? Nada disso é prioridade.

Por outro lado, médicos recebendo R$ 30-40 líquidos (ou menos) por uma consulta muitas vezes de 10-15 minutos. Agendas controladas pela operadora de saúde ou pelo empresário player deste mercado lucrativo. Como estabelecer uma conexão, uma relação médico-paciente sólida? Tempo para uma história clínica completa? Não tem. Tempo para examinar? Não dá. Falar sobre hábitos saudáveis, etc.? Impossível!

Exemplos de atendimento

1) Paciente jovem procura o gastro porque “quero fazer uma endoscopia porque tenho refluxo”. O que faz o médico sobrecarregado, à beira de um burnout, o new-slave destes tempos? Pede endoscopia que ele mesmo fez um outro dia e com isso vai amenizar a baixíssima remuneração do convênio. A paciente vai ter uma gastrite enantematosa de antro, possivelmente H. pylori positivo, vai ser medicada com um inibidor de bomba de prótons por umas quatro semanas e um coquetel de antibióticos para a bactéria estomacal. Depois, é claro, vai repetir a endoscopia no mês seguinte para confirmar se melhorou. Isso se não tiver de tomar outros medicamentos para amenizar os efeitos colaterais do kit anti-H. pylori.

Numa conversa mais calma, talvez ficasse claro que essa moça não se alimenta direito, está estressada, fuma e/ou bebe muito várias vezes por semana, não dorme bem… Será que precisa mesmo de endoscopia?

2) 86 anos, viúva 15 anos antes, sem vida sexual ativa desde então, vai fazer “preventivo”. Ginecologista prescreve creme hormonal durante um mês, manda a paciente voltar para colher o preventivo e pede, ainda, uma transvaginal e exames de sangue para HIV? Hepatites? Sífilis? Clamídia? Rubéola? Citomegalovírus? Toxoplasmose? Dosagem de FSH, estradiol e progesterona? O convênio vai pagar os exames, no mínimo questionáveis, as duas consultas (mal) e se bobear três, pois a paciente vai pegar o resultado do papanicolau e ainda sair com um creme para a inflamação que apareceu no exame.

Será que ela precisa de tudo isso? O colega diz: “é rotina”. Demora mais explicar que a esta altura da vida uma ultra transvaginal e preventivo em mulher assintomática não faz sentido.

Mercado da medicina

Soma-se a isso um número bizarro de médicos sendo “desovados” no mercado todos os anos, pois já somos o segundo país em número de faculdades de medicina, muitas de péssima qualidade, sem hospitais-escola, fruto da ganância de muitos players desse mercado muito rentável de faculdades sem fiscalização adequada por parte dos órgãos do governo.

Não há programas de residência médica para todos e também não estou discutindo a qualidade dos programas existentes. Como alternativa surgem cursos precários de pós-graduação e o new-slave vai buscar uma especialização para tentar sobreviver neste mercado atual tão precário. E aí vira subespecialista, o que acaba fragmentando ainda mais o atendimento do paciente já penalizado pelo alto custo do plano de saúde e pela perda de renda devido a muitos anos de crise econômica.

Não raramente exames são pedidos de forma repetida ou desnecessária (mesmo sem má intenção e/ou sem benefícios escusos), medicamentos prescritos de forma precipitada sem levar em conta a opinião dos outros médicos, aumentando o risco de efeitos colaterais graves pelas interações imprevisíveis da polifarmácia.

A clínica do paciente é soberana e os exames são necessários, mas complementares. Minha caneta na oncologia também é muito pesada, frequentemente somos pressionados a fazer mais exames. E, constantemente, pedimos.

Mas a “tempestade perfeita” de médicos mal formados, mal remunerados, sem tempo, (im)pacientes, Dr. Google, fake news, gera o que os americanos chamam de defensive medicine, que é uma medicina fútil, ruim e cara. É a fast medicine que exige alta produtividade.

Saiba mais: Além da Medicina: como sobreviver às mudanças do mercado médico

Exercício da medicina sem pressa

E a slow medicine? Ela nasceu na Itália, ainda nos anos 1990, com a constatação de que nosso modelo de atendimento médico fracassara, e a intenção de alguns de criar uma alternativa. A medicina sem pressa valoriza a tão desgastada relação médico-paciente, incentiva-nos a dedicarmos um tempo adequado à consulta, a usar racionalmente os exames diagnósticos, a avaliar tanto a eficácia como os possíveis riscos do tratamento, compartilhando as decisões em um cuidado empático e humanizado.

No Brasil, um dos maiores defensores da medicina sem pressa, é o professor paulista Dr. Dário Birolini, que vem ensinando gerações de alunos não só suas imensas habilidades cirúrgicas e os conceitos de suporte avançado de vida ao trauma (ATLS para os íntimos), mas também a arte de fazer medicina com M maiúsculo. Para conhecer mais sobre o conceito, visite o site dedicado presente nas referências.

Mas como falar de medicina sem pressa no meio de uma pandemia? Apesar do risco de colapso, escassez de recursos e de estrutura, priorizar o essencial, valorizar a comunicação entre médicos, gestores, pacientes e familiares está no DNA da slow medicine.

Essa não é uma medicina alternativa, é uma alternativa para uma medicina ruim. Alguém, sinceramente, acha que pode atender bem 30-40 pacientes no consultório por dia? Os convênios fingem que pagam e os médicos fingem que atendem. E ninguém fica satisfeito. Nem o convênio, que só fala em otimizar a gestão e cortar custos. E agora os players do setor acham que vão resolver tudo com a telemedicina, contratando médicos por uma ninharia e cobrando R$ 10 por uma consulta virtual.

Whitebook

Mensagens finais sobre o exercício da medicina

Convido todos os colegas a uma reflexão, uma autoanálise.

Pensemos todos nisso na próxima vez que formos em uma consulta ou quando formos atender o próximo paciente: este exame ou tratamento é realmente necessário? O que eu vou fazer com o resultado? Vai mudar a conduta? O paciente está entendendo o motivo desta prescrição, intervenção, etc.? Ele está de acordo?

Você tem um médico para chamar de “seu”?

Saúde de qualidade não é gasto, é investimento.

Não existe economia saudável sem que as pessoas tenham saúde.

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