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Mais um efeito da pandemia no Brasil: o aumento de casos de hepatite medicamentosa

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O aumento de casos de hepatite medicamentosa no Brasil já ligou um sinal de alerta em hospitais e consultórios médicos pelo país. Isso graças ao uso do chamado “kit Covid”, que reúne medicamentos sem eficácia contra a doença, mas que continuam sendo prescritos por alguns médicos. Entre os remédios estão hidroxicloroquina, azitromicina, ivermectina e anticoagulantes. 

O médico nefrologista Valmir Crestani Filho, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), relatou ter atendido pacientes com hemorragia e insuficiência renal ligadas ao uso do “kit Covid”. Em um dos casos, um paciente recebeu azitromicina e teve cólicas, diarreia e fortes dores abdominais, efeitos conhecidos do antibiótico. 

Ao ser atendido por um serviço de saúde, o doente recebeu omeprazol para o alívio dos sintomas, mas desenvolveu um quadro raro de insuficiência renal. Ele precisou ser internado para fazer algumas sessões de diálise e se recuperou. 

O outro caso é de um paciente que recebeu prescrição de anticoagulantes, também de tratamento precoce do “kit Covid”, e que teve uma hemorragia gástrica. Ele tinha um quadro de úlcera não diagnosticado e a medicação acabou agravando o problema.

Saiba mais: Ministério da Saúde confirma ineficácia do “kit covid” no tratamento contra Covid-19

hepatite medicamentosa

Hepatite medicamentosa 

A hepatite medicamentosa é uma grave inflamação do fígado causada pelo uso de alguns tipos de medicamentos, especialmente aqueles que têm capacidade para causar lesão no órgão. 

O hepatologista Rafael Ximenes, que atende no centro clínico do Órion Complex, também percebeu um aumento dos casos de hepatite medicamentosa em Goiânia. “O brasileiro sempre se automedicou, seja por conta própria ou por indicação de amigos. Tenho visto um aumento de pacientes nos últimos meses, devido ao uso de remédios para o kit Covid”, alertou. 

O especialista explicou que a hepatite medicamentosa pode ser causada por remédios industrializados, fitoterápicos e até por suplementos. 

“A maioria dos pacientes que atendi possuía lesões leves no fígado, pois ao saber de notícias de outros casos acabam desconfiando e procurando um médico. No entanto, já tive alguns casos mais graves, nos quais os pacientes precisaram ser internados”, relatou o médico, explicando que a indicação de transplante só ocorre em casos muito graves, quando o fígado não dá sinais de recuperação. 

Sintomas e tratamento

“O espectro de sintomas pode variar de casos assintomáticos ou oligossintomáticos até pacientes com sinais de insuficiência hepática aguda grave (hepatite fulminante). Mas, frequentemente, podemos observar icterícia, acolia fecal e colúria associado a sintomas inespecíficos como astenia, mialgia e até febre’, descreveu o hepatologista e gastroenterologista Marcio Dias de Almeida, responsável técnico de equipe de transplante de fígado nos Hospitais Moriah e Albert Einstein, em São Paulo, em entrevista ao Portal de Notícias da PEBMED. 

Segundo o especialista, a hepatite medicamentosa é um diagnóstico de exclusão, ou seja, é necessária uma criteriosa análise dos dados clínicos, epidemiológicos e laboratoriais para que se afastem outras causas como, por exemplo, doenças autoimunes.  

Outro aspecto importante é identificar o potencial de hepatotoxicidade da droga além da forma habitual de apresentação no momento da prescrição e para isso existem sites e aplicativos disponíveis como, por exemplo, o LiverTox. 

“O observado no contexto da Covid-19 é o uso de quantidades supra terapêuticas da ivermectina, tanto em dose quanto em tempo de tratamento. Sendo assim, devido ao aumento dos casos de insuficiência hepática em pacientes com Covid-19, uma das causas aventadas na fisiopatologia é a toxicidade por drogas utilizadas em uso compassivo. Porém, os médicos devem considerar que ainda podem estar envolvidos outros mecanismos de lesão hepática, como secundária à hipoperfusão hepática durante choque circulatório e ainda a potencial lesão direta pelo novo coronavírus Já foram realizados transplantes de fígado neste contexto mundialmente e em nosso meio”, destacou Marcio Dias de Almeida. 

Para tratar a enfermidade, o hepatologista e gastroenterologista explicou que o primeiro passo é sempre a suspensão do fármaco e o tratamento de suporte clínico. “Para algumas drogas temos os chamados antídotos, sendo o exemplo mais frequente o uso de N-acetilcisteína na intoxicação por acetaminofeno (paracetamol). Em casos mais graves, já com sinais clínicos e laboratoriais de insuficiência hepática, o paciente deve ser transferido para um serviço especializado em transplante de fígado, haja vista que a deterioração clínica pode ocorrer tão rapidamente como em apenas algumas horas”, concluiu Marcio Dias de Almeida.

*Esse artigo foi revisado pela equipe médica da PEBMED

Referências bibliográficas:

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