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O consumo de café é mesmo tão saudável assim?

Tempo de leitura: 4 minutos.

Entre uma das várias notícia compartilhadas nas redes sociais, você já deve ter se deparado com algum texto falando sobre café. E por que não? A bebida é muito popular e faz parte do dia a dia da maioria dos brasileiros.

Grande parte dos textos fala bem, mas será que as informações são verdadeiras? Em tempos de fake news, temos de tomar cuidado com a procedência de informações, em especial quando a manchete parece exagerada ou sensacionalista.

Um bom exemplo é a nova fama do café. Ultimamente, vários textos surgiram nas redes afirmando que “quem toma café vive mais”. Verdadeiro ou falso? E por que isso é importante em relação ao café, especificamente? Porque nossos pacientes tomam café. E porque nós, profissionais da saúde, tomamos (muito) café. Então, vamos dar uma olhada nas evidências e tirar essas dúvidas de uma vez por todas.

Uma das pesquisas que desencadeou essa nova onda de apoio ao consumo de café foi publicada no periódico Journal of American Medical Association (JAMA). A pesquisa foi realizada no Reino Unido e fez uso de um banco de dados nacional chamado UK Biobank, que nada mais é que uma grande pesquisa ena qual os dados de saúde dos participantes (inclusive hábitos de vida, genética e dados demográficos) são guardados e acompanhados ao longo de anos para avaliar seus impactos na saúde da população.

Os pesquisadores acompanharam aproximadamente 500 mil pessoas durante 10 anos e analisaram seus riscos de morte por todas as causas (quando a mortalidade geral e a expectativa de vida em si são estudadas e não uma causa de morte apenas).

Leia mais: Novas evidências relacionam o consumo de café a menor mortalidade

E o que o estudou descobriu? Primeiro, realmente quem bebia café teve taxa de mortalidade por todas as causas menor que quem não bebia. Segundo, entre os que bebiam, a mortalidade foi inversamente proporcional à quantidade de café ingerida diariamente. Ou seja: quem bebia mais café tinha um menor risco de morte (por várias causas) que quem bebia menos.

É importante notar que o estudo agrupou os participantes em nove grupos: quem bebia menos que uma xícara/dia, quem bebi uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete e oito xícaras/dia. Por lógica, presumimos que quem beber nove, 10 ou mais estaria ainda mais protegido, porém como essas doses não foram usadas no estudo, não há como garantir que isso seja verdade (não há evidências, nesse caso).

O risco relativo, a medida usada para comparar os riscos de determinado evento entre grupos diferentes, dos que tomavam café diariamente variou de 0,94 a 0,84. Isso quer dizer que o café leva a um risco entre 6 e 16% menor de morte por várias causas.1

Esse dado é muito importante por levar a duas interpretações. O efeito do café não é tão intenso que te retire a responsabilidade de cuidar de outros fatores de risco (como tabagismo, sobrepeso, estresse emocional, insônia, comorbidades mal controladas etc). Mas, ainda assim, é um efeito bom o suficiente para ser considerado um hábito saudável.

Outra descoberta interessante da pesquisa foi que esse benefício do café independe da quantidade de cafeína. Isso ficou evidente porque, entre os participantes, houve consumo de todo tipo de café: instantâneo, moído e até descafeinado. Além disso, o perfil genético dos pacientes foi analisado quanto à capacidade de metabolizar a cafeína, e os efeitos do café foram os mesmos, independentemente do resultado. Isso quer dizer que outros componentes da bebida, além da cafeína, podem ser os responsáveis pela redução da mortalidade.1

E se existe um assunto muito estudado, é o café. Basta pesquisar para encontrar uma lista inacabável de meta-análises e revisões sistemáticas sobre ele. Uma das mais completas, publicada no British Medical Journal (BMJ) evidencia efeito protetor contra doenças cardiovasculares, vários tipos de cânceres, além de doenças metabólicas e de fígado. 2

Segundo outros estudos, o café exibe efeito protetor contra um grande rol de doenças: doença de Parkinson3, doenças hepáticas crônicas com evolução para cirrose4, urolitíase5, diabetes tipo 26 e a síndrome metabólica como um todo 7. Existe ainda efeito protetor contra vários tipos de cânceres, incluindo colorretal 8, cânceres de pele melanoma 9 e não-melanoma 10, além de câncer de fígado4.

O café também tem efeito deletério em algumas condições como a infertilidade masculina11, além de aumentar o risco de fraturas em mulheres (mas não em homens)2. O café também esteve associado a complicações gestacionais, desde baixo peso do recém-nascido, até abortamentos2.

Existe até uma metanálise sobre a relação entre café e tromboembolismo venoso, sendo observada uma relação em U. Ou seja, baixa ingestão de café aumenta o risco de TEP, enquanto ingestão de maiores quantidades tem efeito protetor12.

No fim das contas, a maioria dos estudos concorda que o hábito de beber café tem mais benefícios que riscos, conhecimento esse que se torna completo. Logo, salvo situações como as citadas anteriormente em que o risco do consumo seja maior, o café contribui nos cuidados à saúde, até mesmo para os profissionais.

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Autor:

Referências:

  1. LOFTFIELD, Erikka; CORNELIS, Marylin; CAPORASO, Neil. Association of Coffee Drinking With Mortality by Genetic Variation in Caffeine Metabolism: Findings From the UK Biobank. Jama Internal Medicine. Maryland, p. 1086-1097. ago. 2018. Disponível em: <https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/article-abstract/2686145>. Acesso em: 24 nov. 2018.
  2. POOLE, Robin; KENNEDY, Oliver; RODERICK, Paul. Coffee consumption and health: umbrella review of meta-analyses of multiple health outcomes. BMJ. Southampton, p. 1-18. nov. 2017. Disponível em: <https://www.bmj.com/content/359/bmj.j5024>. Acesso em: 24 nov. 2018.
  3. HASAN, Mohammed; GATTELLARI, Mellina; CORDATO, Dennis. Systematic review of the effect of coffee on parkinson disease risk. Journal Of Clinical Neuroscience. Liverpool, p. 1616-1638. dez. 2010.
  4. SAAB, Sammy; MALLAM, Divya; A COX, Gerald. Impact of coffee on liver diseases: a systematic review. Liver International. Los Angeles, p. 495-504. ago. 2013.
  5. WANG, S; ZHANG, y; MAO, Z. A Meta-Analysis of Coffee Intake and Risk of Urolithiasis. Urologia Internationalis. Hangzhou, p. 220-228. jan. 2014.
  6. HUXLEY, R; LEE, C M; BARZI, F. Coffee, decaffeinated coffee, and tea consumption in relation to incident type 2 diabetes mellitus: a systematic review with meta-analysis. Archives Of Internal Medicine. Sydney, p. 2053-2063. dez. 2009.
  7. HANG, F; LI, X; JIANG, X. Coffee consumption and risk of the metabolic syndrome: A meta-analysis. Diabetes And Metabolism. Qingdao, p. 1-10. abr. 2016.
  8. GIOVANNUCCI, e. Meta-analysis of coffee consumption and risk of colorectal cancer. American Journal Of Epidemiology. Boston, p. 1043-1052. jun. 1998.
  9. WANG, Jia et al. Coffee consumption and the risk of cutaneous melanoma: a meta-analysis. European Journal Of Nutrition. Qingdao, p. 1317-1329. jun. 2016.
  10. VASEGHI, G et al. Coffee consumption and risk of nonmelanoma skin cancer: a dose-response meta-analysis. European Journal Of Cancer Prevention. Isfahan, p. 164-170. mar. 2018.
  11. RICCI, e et al. Coffee and caffeine intake and male infertility: a systematic review. Nutrition Journal. Milan, p. 1-14. jun. 2017.
  12. LIPPI, G et al. Venous thromboembolism and coffee: critical review and meta-analysis. Annals Of Translational Medicine. Parma, p. 1-3. jun. 2015.

2 Comentários

  1. Renato Bordignon
    Renato Bordignon

    Excelente revisão. Muito bem escrita também.

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