O SARS-CoV-2 pode ser um passageiro indesejado nos voos?

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Uma das principais consequências da pandemia da nova síndrome Covid-19, causada pelo vírus SARS-CoV-2, tem sido a drástica e dramática redução dos voos nacionais e internacionais em todo o mundo. A maioria das companhias aéreas tiveram seu fluxo mensal interrompido ou reduzido a 1/5 por meses, contribuindo significativamente para uma crise econômica do setor aéreo. Com a liberação progressiva das restrições da política do lockdown em diferentes países, as companhias aéreas estão gradualmente retomando as atividades rumo ao céu. Porém, a principal questão frente a esse retorno é: “Quão seguro é voar atualmente?”.

Desde 1946, diversos surtos de doenças infecciosas tem sido originados em voos comerciais, incluindo casos de transmissão de tuberculose multirresistente, influenza, SARS, sarampo e outros. É conhecido que as aeronaves, especialmente sobre o ar das cabines, na superfície de assentos e na poeira do chão, apresentam microbiomas contendo, principalmente, bactérias, eucariotos e vírus, geralmente comensais da pele, mais frequentemente Sphingomonas, Corynebacterium, Micrococcus luteus, Variovorax paradoxus, Paracoccus dentrificans, e Propionibacterium acnes; e membros das famílias Enterobacteriaceae, Staphylococcaceae, Streptococcaceae, e Burkholderiaceae (Weiss et al., 2019; Sun et al., 2020). 

Os dados epidemiológicos sugerem que o coronavírus SARS-CoV-2 é transmitido por gotículas aéreas expelidas na exposição face a face, em torno de 15 minutos no mínimo, durante a fala, tosse ou espirro. Estudos recentes exibem evidências que o aerossol representa uma via consistente de transmissão, mesmo a partir de assintomáticos, pré-sintomáticos ou sintomáticos, através do simples ato de respirar ou mesmo devido a manutenção do vírus em suspensão no ar em locais fechados e sem ventilação adequada, ou contato com fômites contaminados (três a doze horas de viabilidade sobre superfícies). Publicamos anteriormente, aqui no portal PEBMED, os aspectos relacionados a possível transmissão viral em um voo com os dados obtidos de um estudo publicado por Hertzberg et al (2018) .

Há segurança nos voos ou é possível a infecção por coronavírus?

Como é feita a filtragem do ar nos voos

No interior dos aviões, aproximadamente 60% do ar interno circulante é coletado do ambiente externo da aeronave e misturado com o ar da cabine (~ 40-50 %), o qual passa por filtros de alta eficiência na retenção de partículas (Filtros High Efficiency Particulate Air – HEPA), que removem pelo menos 99,97% das partículas em suspensão de 0,3 mícron de diâmetro. A mistura de ar externo + ar da cabine ocorre em uma taxa próxima de 1:1, antes de retornar a circular. O ar da cabine aérea é totalmente renovado a cada três minutos, e retorna em um fluxo vertical sobre o passageiro, sendo recolhido pela sucção sob os assentos. Muitos profissionais da área sugerem que, devido a esse processo, o ar no interior dos aviões é mais limpo (e seguro) do que o ar de locais com confinamento como em restaurantes, lojas e domicílios. Por outro lado, os filtros HEPA não compõem a infraestrutura de aeronaves antigas ou pequenas, as quais exibem maior prejuízo na filtração do ar circulante.

Adicionalmente, a adequada filtração do ar ocorre somente a partir da decolagem, então a circulação de passageiros e tripulantes, o bloqueio do fluxo de ar, a alimentação dos passageiros na aeronave, o uso de eletrônicos sobre bandejas de suporte, cobertores e travesseiros, a turbulência, a lotação e outros aspectos relacionados podem alterar a eficiência da filtração aérea e permitir a viabilidade da transmissão viral. Isto é, o ar inspirado por passageiros sentados próximos pode não ter sido ainda filtrado.

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Outras medidas de segurança

E vale ressaltar que, de forma a aprimorar mais a proteção dos passageiros, a medida obrigatória do uso de máscaras individuais durante todo o vôo minimiza significativamente as chances de transmissão em via bidirecional: (I) das partículas exaladas pelo doente para os suscetíveis e (II) da inalação das partículas infectadas pelos suscetíveis (Nir-Paz et al., 2020). A International Air Transport Association recomenda a supervisão e troca frequente dos filtros HEPA das aeronaves e indica que a capacidade de eliminação das partículas é uma das últimas propriedades a serem perdidas em filtros próximos de expirar a validade. Outra curiosidade é que em alguns países, como nos Estados Unidos, o uso de máscara não é obrigatório em voos, sendo uma opção a ser adotada pelas companhias aéreas.

Outras estratégias assumidas por muitas empresas é rastrear suspeitos de Covid-19 por entrevistas, exames objetivos (como a ineficaz medição de temperatura), disponibilizar e tornar mandatório a realização do teste para a pesquisa de SARS-CoV-2, até poucos dias antes do embarque, com a proibição de embarque para casos positivos, distância espacial (1-2 metros, no mínimo) na distribuição de passageiros na aeronave, sistemática de desinfecção interna após voos, assentos com produtos antivirais, uso de desinfetantes por passageiros, etc. 

Riscos de infecção de Covid-19 em voos

Alguns estudos sugerem que somente os indivíduos sentados nas duas fileiras de assentos ao lado, na frente ou atrás do doente apresentam risco significativo de infecção por patógenos de transmissão aérea (Hertzbert et al., 2016, 2018). Aqueles sentados no corredor também apresentam maior chance de infecção e a manutenção dos assentos do meio vazios em aviões minimiza em 1,8x o risco de transmissão da Covid-19 em voos com duração de duas horas (Barnett, 2020). 

Esse último estudo também afirma que o risco de infecção em voos cheios seria de 1:4300 e sem a venda de assentos do meio cairia para 1:770.000 (Barnett, 2020, submetido a peer-review). Contradizendo tais observações, e após meses observando a ocorrência de milhões de casos de COVID-19 em diversos países, alguns artigos científicos relacionados a essa questão de transmissão em voos já foram publicados até o momento (Bae et al., 2020; Choi et al., 2020; Freedman & Wilder-Smith, 2020, Pavli et al., 2020; Speake et al., 2020). Em um dos mais recentes e interessantes estudos, Murphy et al., 2020 descrevem em detalhes moleculares e epidemiológicos um surto de Covid-19 originado em um vôo com 7,5 horas de duração para a Irlanda e com 17% de ocupação (49/283 assentos disponíveis) e 12 tripulantes. O surto se originou a partir de um caso índice não determinado, com 13 passageiros com Covid-19 detectados após o voo, e outros 46 contactantes infectados pelo novo coronavírus. A taxa de ataque foi de 9,8 a 17,8%. Chen et al. (2020) também caracterizaram um surto ocorrido em um voo, realizado em janeiro de Cingapura para Hangzhou, China, com 89% de ocupação (335/375), com a ocorrência de 16 casos positivos. 100 dos passageiros haviam visitado Wuhan previamente em período recente. Khanh et al. (2020) descreveram uma taxa de ataque de 62% em um surto de Covid-19 originado em um voo comercial de 10 horas de duração, de Londres para Hanoi, em março de 2020.

Concluindo

É importante lembrar que voar de avião não envolve somente encontrar seu assento na aeronave. Inclui o deslocamento para e a partir do aeroporto, fila para o check in, alimentação em restaurantes, passagem por lojas como Duty free e outras, banheiros, alfândega e imigração em caso de voos internacionais, passagem pela segurança com exame de raio-X, despacho e coleta de bagagem, além de inúmeros outros passos que aumentam os riscos de infecção por Covid-19 no contato direto ou indireto com outros indivíduos. Deve-se verificar inclusive as taxas de incidência de Covid-19 na localidade de destino e a necessidade de realizar um período de 14 dias de quarentena ao chegar e no retorno para casa. Na dúvida quanto aos riscos a assumir, uma das possíveis medidas pode ser adiar a viagem. 

Várias publicações com detalhamento sobre as possibilidades de transmissão da Covid-19 em voos podem ser aprofundados nas referências. 

Autor:

Referências Bibliográficas

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  • Barnett A.COVID-19 Risk Among Airline Passengers: Should the Middle Seat Stay Empty? MedRxiv. Jul 8, 2020. 
  • Bielecki M, Patel D, Hinkelbein J, Komorowski M, Kester J, Ebrahim S, Rodriguez-Morales AJ, Memish ZA, Schlagenhauf P. Air travel and COVID-19 prevention in the pandemic and peri-pandemic period: a narrative review. Travel Med Infect Dis. 2020 Nov 10:101915. doi: 10.1016/j.tmaid.2020.101915.
  • Chen J, He H, Cheng W, Liu Y, Sun Z, Chai C, Kong Q, Sun W, Zhang J, Guo S, Shi X, Wang J, Chen E, Chen Z. Potential transmission of SARS-CoV-2 on a flight from Singapore to Hangzhou, China: An epidemiological investigation. Travel Med Infect Dis. 2020 Jul-Aug;36:101816. 
  • Chiodini J. COVID-19 and the impact on travel health advice. Travel Med Infect Dis. 2020 Jul-Aug;36:101824. 
  • Choi EM, Chu DKW, Cheng PKC, Tsang DNC, Peiris M, Bausch DG, Poon LLM, Watson-Jones D. In-Flight Transmission of SARS-CoV-2. Emerg Infect Dis. 2020 Nov;26(11):2713-2716. 
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  • Harries AD, Martinez L, Chakaya JM. SARS-CoV-2: how safe is it to fly and what can be done to enhance protection? Trans R Soc Trop Med Hyg. 2020 Oct 8:traa106. 
  • Hertzberg VS, Weiss H. On the 2-Row Rule for Infectious Disease Transmission on Aircraft. Ann Glob Health. 2016 Sep-Oct;82(5):819-823. 
  • Hertzberg VS, Weiss H, Elon L, Si W, Norris SL; FlyHealthy Research Team. Behaviors, movements, and transmission of droplet-mediated respiratory diseases during transcontinental airline flights. Proc Natl Acad Sci U S A. 2018 Apr 3;115(14):3623-3627.
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  • Pavli A, Smeti P, Hadjianastasiou S, Theodoridou K, Spilioti A, Papadima K, Andreopoulou A, Gkolfinopoulou K, Sapounas S, Spanakis N, Tsakris A, Maltezou HC. In-flight transmission of COVID-19 on flights to Greece: An epidemiological analysis. Travel Med Infect Dis. 2020 Sep 17;38:101882. 
  • Speake H, Phillips A, Chong T, Sikazwe C, Levy A, Lang J, Scalley B, Speers DJ, Smith DW, Effler P, McEvoy SP. Flight-Associated Transmission of Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2 Corroborated by Whole-Genome Sequencing. Emerg Infect Dis. 2020 Sep 29;26(12).
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